Holanda

Futebol holandês tenta avançar. A seleção, não

Certo, o Ajax decepcionou pela postura tímida até demais na final da Liga Europa. Ainda assim, é inegável que os Godenzonen exibiram uma abordagem tática mais acelerada do “jeito holandês” de jogar futebol, ao longo da evolução na temporada – e essa aceleração ofereceu um possível caminho para a renovação que se faz altamente necessária na visão tática do país.

Outra prova disso foi a ótima campanha do Utrecht no Campeonato Holandês: jogando num 4-4-2 com losango, a equipe teve várias atuações agradáveis, e fez vários jogadores medianos evoluírem de produção (Yassin Ayoub, Nacer Barazite, Richairo Zivkovic e, acima de tudo, o destaque Sébastien Haller). Mostrou um trabalho cada vez mais promissor do técnico Erik ten Hag. Que foi coroado, finalmente, com a vaga na segunda fase preliminar da Liga Europa. Mas todos esses sinais dados ao longo da temporada passam longe da federação holandesa.

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Se havia alguma dúvida, ela foi dissipada no início do mês passado, quando se confirmou a volta de Dick Advocaat, para a sua terceira passagem pelo comando da Laranja, com Ruud Gullit como seu auxiliar – 23 anos após as discordâncias entre ambos tirarem Gullit da Copa de 1994, como bem lembrou a Trivela. É muita ingenuidade esperar algum olhar novo de um técnico que até anunciara o fim da carreira após esta temporada, ao deixar o Fenerbahçe (Advocaat desconversou: “Eu me referia à minha carreira em clubes”). E tão logo encerre sua passagem pelos Canários Amarelos – neste sábado, na partida contra o Adanaspor, pela última rodada do Campeonato Turco – Advocaat viaja para comandar os 28 jogadores convocados, que já terão disputado os amistosos contra Marrocos e Costa do Marfim. E que têm Luxemburgo pela frente, na próxima sexta, pelas eliminatórias da Copa de 2018.

O pior é que o processo da contratação de Advocaat repetiu os erros passados que, de certa forma, levaram a seleção da Holanda à situação melancólica em que está. Um sinal disso foi a entrevista da dupla de diretores responsável pela escolha do novo treinador da Laranja, há quase um mês (9 de maio). Para muitos jornalistas, a coletiva dos diretores Hans van Breukelen (técnico) e Jean-Paul Decoussaux (comercial) foi das mais marcantes da história recente do futebol holandês. Não por bons motivos, bem entendido: mais pela incompetência apresentada na busca por um técnico pela Oranje.

Uma lista foi feita com vários nomes, procurados na Holanda ou no exterior. Após sucessivas recusas (Louis van Gaal prefere cargos internos na federação; Huub Stevens passou por problemas de saúde; Frank de Boer e o alemão Roger Schmidt preferem treinar clubes – Schmidt foi até preciso, ao desejar trabalhos na Inglaterra), sobrou o nome de Henk ten Cate. E o técnico do Al Jazira, recém-campeão emiratense – logo, garantido no Mundial de Clubes – interessou-se. Dos males, parecia o menor: interessado no cargo, com experiência em grandes clubes (além de treinar o Ajax por um ano, foi auxiliar em Barcelona – braço-direito de Frank Rijkaard – e Chelsea), Ten Cate mostrava um estilo pouco mais ofensivo – e queria voltar à Holanda, para ficar perto da família. Não era o ideal, mas dava para oferecer algo melhor.

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As conversas progrediram a ponto de Ten Cate ser virtualmente considerado o novo técnico da seleção. Até Advocaat, à beira do fim da carreira no Fenerbahçe, dizer que desejava um retorno à Oranje, para, aí sim, parar de treinar com chave de ouro. Bastou para Van Breukelen se interessar, e para que as conversas com a outra opção esfriassem, e posteriormente se encerrassem. Claro, o preterido revelou as sondagens que tivera, e criticou a indecisão. Confrontado pela imprensa, Van Breukelen reagiu: “Isso é o que Henk disse. Eu não disse nada sobre ele estar perto de ser o escolhido. Eu tinha duas opções. (…) Se eu tenho uma conversa com alguém, o teor dela deve ficar entre duas pessoas. Acho até mal educado. Portanto, fico feliz dele [Ten Cate] não ter sido o escolhido”. Além do mais, o diretor técnico também comentou que só escolheria o recusado se Fred Rutten tivesse querido ser o auxiliar. Por que juntar dois técnicos sem nenhuma intimidade? “Eu penso em duplas”, respondeu Van Breukelen.

Caminho aberto para a volta quase inacreditável de Advocaat. Menos de um ano após ir para o Fenerbahçe, deixando a comissão técnica de Danny Blind na qual era auxiliar (para indisfarçável desapontamento do então técnico da Laranja), o “Pequeno General” se convertia no mais velho treinador que a equipe nacional holandesa já teve: 69 anos, a fazer 70 em setembro. Tudo pela aposta de Van Breukelen no curto prazo, na possibilidade da vaga na Copa do Mundo: “Havia dois cenários: escolher pelo longo prazo ou fazermos de tudo para alcançar a Copa. Ficamos com a segunda opção. Para ela, precisávamos de um sujeito muito experiente, com autoridade”. Sobre a ocasião em que Advocaat deixara a comissão técnica de Blind, o diretor desconversou: “No momento, estamos numa situação em que os sentimentos devem ser postos de lado”.

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Enquanto não chega, Advocaat supervisionou (e colaborou com) o trabalho do auxiliar Fred Grim – que comandou a Holanda no amistoso contra Marrocos, na quarta passada, em Agadir, e também treinará a equipe contra a Costa do Marfim, neste domingo, em Roterdã. Na lista de 28 convocados, surpresas agradáveis (o goleiro Sergio Padt, destaque do Groningen na Eredivisie, e Nathan Aké recebendo a recompensa por boa temporada em Bournemouth/Chelsea), o reconhecimento a protagonistas holandeses em 2016/17 (a volta de Matthijs de Ligt, os convocados do campeão Feyenoord – Tonny Vilhena, Jens Toornstra, Steven Berghuis), as presenças esperadas (Kevin Strootman, Georginio Wijnaldum, Memphis Depay, Bas Dost, Vincent Janssen) e os veteranos ainda indispensáveis (Arjen Robben e Wesley Sneijder). Aliás, o meio-campista deverá viver ocasião histórica contra a Costa do Marfim: igualará o recorde de Edwin van der Sar com mais partidas pela seleção holandesa na história (130), talvez superando o ex-goleiro contra Luxemburgo.

Contra Marrocos, já se teve uma prévia do que veio por aí. Até pelo calor que fazia em Agadir (e pelas circunstâncias: jogadores marroquinos atuaram sem comer, já que o sol ainda não se pusera na cidade e vive-se o mês do Ramadã, com jejum obrigatório até o poente), a partida foi lenta. Mas alguns destaques foram vistos em campo, com muitos elogios à atuação da dupla de zaga, formada por De Ligt e Wesley Hoedt (mesmo com a expulsão do primeiro, o mais jovem jogador da história da seleção a levar o cartão vermelho). E o brilho individual – no caso, de Memphis Depay e Quincy Promes – deu a vitória por 2 a 1 à Laranja. Esperar os protagonistas aparecerem: continuará sendo assim sob Dick Advocaat, provavelmente. Não era para ser. Porque o futebol holandês tenta avançar. A seleção, não.

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