HolandaLiga Europa

Sobre Ajax, Liga Europa e a perda da inocência

“Serei honesto: vencer a final não era algo provável para nós”. Se já era difícil supor que o Ajax pudesse superar o Manchester United antes mesmo que a final da Liga Europa começasse, tal declaração, dada pelo técnico Peter Bosz à FOX Sports holandesa, logo após a decisão em Estocolmo, deixava claro como a primeira conquista de um torneio continental para o país desde 2001/02 era algo quase inatingível. De certa forma, por culpa do próprio Ajax.

LEIA MAIS: Obrigado, Ajax, pela grande campanha: por encantar e resgatar a sua história

É óbvio que só o fato de ter voltado a decidir uma competição europeia já devia ser comemorado por todos que simpatizam com a história riquíssima dos Ajacieden, gigantes europeus para todo o sempre. Ainda assim, há uma grande diferença entre chegar à decisão e se contentar com isso. Foi exatamente o que se viu no gramado da Friends Arena: o Ajax parecia contente só por enfrentar o Manchester United. Mais do que isso: sempre pareceu uma equipe ingênua. Não necessariamente medrosa, mas ingênua.

Arriscado falar que a mais jovem equipe da história das decisões de torneios europeus (média de idade de 22,2 anos) “tremeu”. Se tremesse, provavelmente o Manchester United teria vencido por vantagem até maior. Além do mais, se houve um jogador do Ajax merecedor de elogios por sua atuação, foi justamente o mais jovem dos onze escalados – aliás, o segundo mais jovem jogador a ter atuado em qualquer final europeia: aos 17 anos e 285 dias, Matthijs de Ligt fez vários desarmes, comandou a defesa, mostrou senso de antecipação elogiável, enfim, mostrou que é promessa muito grande para a zaga, posição carente na Holanda. Sem contar que o outro jovem zagueiro, Davinson Sánchez, também escapou relativamente ileso da derrota: mesmo que em sua perna tenha resvalado a bola chutada por Paul Pogba para o primeiro gol (e mesmo que seu talento para armar o jogo tenha se revelado, no mínimo, deficiente), o colombiano também mostrou segurança nos desarmes e rapidez na recomposição – os desarmes de carrinho, em tentativas de Pogba e Marcus Rashford, no segundo tempo, foram precisos.

Ou seja: os Godenzonen tentaram. Merecem respeito por isso. Mas o problema do Ajax em Estocolmo, definitivamente, não foi a falta de controle emocional. Foi ingenuidade. Ingenuidade demais de achar que José Mourinho, dos mais experientes e laureados técnicos de sua geração, não era capacitado para fazer exatamente o que fez: um jogo tático, neutralizando com facilidade os pontos fortes dos Amsterdammers (velocidade, marcação por pressão, jogadas partindo do meio-campo, troca de passes). Ingenuidade demais pensar que o time dos Red Devils não tinha capacidade de decidir a final a partir de um lance isolado, como foi o arremate de Pogba. Ingenuidade demais pensar que um time formado de jogadores experientes – não inquestionáveis, mas experientes – tentaria definir o jogo na pressa, e não usando dessa experiência.

Assim, por exemplo, Marouane Fellaini foi dos melhores da decisão, controlando facilmente Lasse Schöne no meio-campo. Ander Herrera controlou Hakim Ziyech aos poucos no jogo. E o que falar de Kasper Dolberg, completamente sumido em campo? Certo, a inação do meio-campo acabou deixando o atacante dinamarquês isolado no meio da defesa dos Mancunians, perfeitamente postada. Ainda assim, cabia a Dolberg mostrar mais iniciativa – como Rashford tentou fazer no ataque do United, por mais que o melhor daquele setor na partida tenha sido Henrikh Mkhitaryan, opção sempre válida de jogadas. Mas Dolberg “aceitou passivamente” a marcação previsível que viria sobre ele. E não prever que isso ocorreria foi… ingenuidade.

Esta ingenuidade talvez seja um grande problema do futebol holandês em geral – que a atuação do Ajax expôs de modo exemplar na quarta-feira passada. Por mais que evolua, por mais que tenha aparecido, a equipe de Amsterdã é vítima da sua qualidade mais incensada: seu ideário tático. O 4-3-3 com pontas, a troca incessante de passes, a mudança de posições, a confiança nesses dogmas todos cria uma certa “camisa-de-força”. Quando dá certo, é o show que se viu contra Schalke 04 e Lyon, nos jogos de ida de quartas de final e semifinais, em Amsterdã. Mas quando dá errado, o Ajax simplesmente não tem alternativas. Pior: nega-se a tê-las, em nome de um certo “espírito ofensivo”, deixado claro por Peter Bosz.

Bom dizer, antes de mais nada: ótimo que um time tenha uma ideia de jogo e sempre prefira jogar de acordo com ela. No entanto, futebol é competição. E quando a ideia inicial não dá certo, é preciso ter o “plano B”. Só recentemente a Holanda teve esfregada em sua cara tal necessidade: com a ausência da Euro 2016 e a dificuldade grande nas eliminatórias da Copa de 2018, sabe-se que o 4-3-3 com pontas precisa ter variantes. Peter Bosz até tentou algo assim no Ajax, com o esporádico 4-1-4-1. E Louis van Gaal fez campanha primorosa na Copa de 2014 exatamente porque engoliu em seco suas crenças, arriscando um 5-3-2 que protegeu a frágil defesa e potencializou o talento de quem precisava aparecer.

Sim, deixar de lado ideias às quais se é muito apegado dói. Parece a perda da inocência. No entanto, se o Ajax quiser voltar de vez a ter espaço no cenário europeu, precisará dessa “perda”, em alguns aspectos. Em termos teóricos e práticos, como no mercado de transferências, em que já se fala em algumas saídas, embora sem muito alarido.  O emprestado Bertrand Traoré certamente voltará ao Chelsea – e se for vendido, não será para o Ajax. Dolberg, no mínimo, quer ouvir as sondagens que lhe fizeram. Davy Klaassen já é grande demais para a Eredivisie. E se fala que o Borussia Dortmund olha com carinho para Amin Younes.

De outro modo, será o que se viu na quarta: elogios, respeito à história, até carinho pelo Ajax. Mas no final, a taça fica com quem olha para o futebol holandês e diz que ele ainda precisa comer muito arroz com feijão, se quiser ser realmente grande. Foi mais ou menos o que Mourinho indicou, quando falou: “Há muitos poetas no futebol, mas eles não ganham muitos títulos. Sabíamos que éramos melhores, e usamos as fragilidades deles”. Com perfeição.

Mostrar mais

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo