Liga Europa

Obrigado, Ajax, pela grande campanha: por encantar e resgatar a sua história

Por anos, o Ajax se contentou com a realidade modesta. Conquistar o Campeonato Holandês era a meta cotidiana. No mais, ocupava o papel secundário nas competições europeias, quando muito. Via seus projetos de craque deixarem Amsterdã logo cedo. Praticava um futebol cada vez mais pragmático. E, assim, não era Ajax. Não só pela falta de resultados grandiosos que representassem a sua tradição, mas também pelos ideais que se perdiam com o tempo. Os Godenzonen se afastavam da identidade que sempre os deixou em evidência.

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Ao longo dos últimos tempos, porém, o clube se empenhou a resgatar as suas premissas. A partir de um chamado de Johan Cruyff, e com a participação ativa de outros ex-jogadores que transformaram o Ajax em um gigante continental, iniciou-se a restauração. A tentativa de voltar ao que era, mesmo que o presente seja bem distinto do que se vivia no passado. A ‘Revolução de Veludo’, como bem explica o amigo e colunista da Trivela Felipe dos Santos Souza, em texto para o Blog do PVC.  E o tetracampeonato inédito na Eredivisie foi o primeiro passo nesse novo momento dos Ajacieden.

Era preciso mais. E quando o time parecia dar passos para trás, com a eliminação nas preliminares da Liga dos Campeões, daria muitos para frente. Voltaria a uma final continental, em uma sensação que não experimentava desde 1996. Eu sei, a Liga Europa não é a Champions. Mas isso se torna um mero detalhe quando se analisa o contexto. O retorno a uma final europeia era mais uma etapa da recuperação da identidade do Ajax. Aquele traço característico que esteve tão evidente nos timaços dos anos 1970, do final dos anos 1980, dos anos 1990. E que, dentro da realidade atual, já se faz mais do que suficiente.

A decisão da Liga Europa completou um pouco mais o quebra-cabeças do novo velho Ajax. Do Ajax de futebol puramente ofensivo, que conquistou vitórias impossíveis ao longo da campanha. Que demoliu adversários, na mesma medida que também expôs sua jugular com a defesa frágil. E assim caminhou longe. Do Ajax cheio de promessas imberbes e ávidas pelo rugido da torcida gritando gol. Muitos deles formados na base, outros tantos trazidos de outros clubes. Se não dá para segurar sempre os prodígios, a medida foi investir ainda mais nisso. Do Ajax que não abre mão de suas convicções para jogar futebol. E, desta maneira, transbordando ofensividade e juventude, encantou.

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Amsterdã se transbordou nesta quarta. Abarrotou-se de torcedores e de expectativas. Que acabaram distantes de se cumprir. O Manchester United tinha mais tarimba, mais experiência, mais estrelas. Controlou o jogo todo, sem precisar necessariamente da posse de bola para isso, e não deu qualquer chance na Friends Arena, em Solna. Viram-se os muitos meninos, mas não a ofensividade tão vital no sucesso da campanha. Os Red Devils neutralizaram a grande virtude de seus adversários. Fica a frustração pela atuação inoperante. Mas, no fim das contas, a sensação de que o Ajax pode ser cada vez mais Ajax.

Ao longo da caminhada até a final, o Ajax empolgou os seus torcedores, com toda razão. E fez mais. Empolgou tanta gente que não necessariamente torce para os Godenzonen, mas aprecia e respeita a sua história. Empolgou aqueles que tinham saudades de ver o Ajax forte, ou que apenas conheciam o passado, mas nunca tinham presenciado. Empolgou os que gostam de assistir a um estilo ofensivo, exalando energia, dando espaço à juventude. É um ideal de futebol que se representa. Um ideal de futebol que o Ajax representou de maneira ferrenha por tanto tempo.

Não dá para saber se a noite desta quarta foi um mero lampejo. Espera-se que não. Que o projeto revigorado do Ajax continue rendendo frutos. Que muitos desses garotos fiquem um pouco mais na agora denominada Johan Cruyff Arena e escrevam boas histórias, inclusive na próxima edição da Champions. Ainda assim, apesar do futuro incerto e do vice-campeonato, os Ajacieden provocam uma sensação de satisfação – não completa, mas provocam. Especialmente por aquilo que construíram e resgataram.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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