Feyenoord: não é crise, é um velho hábito
Talvez o meio-campista Marko Vejinovic, do Feyenoord, tenha encarado a pior marcação de sua vida no fim de semana passado. Não no gramado de De Kuip, enfrentando o ADO Den Haag, no domingo, pela 21ª rodada do Campeonato Holandês. Mas, infelizmente, por algo ocorrido antes mesmo da partida: sete “idiotorcedores” invadiram a casa do volante Feyenoorder e ameaçaram-no de morte, junto de sua esposa. Coisa pior só não aconteceu porque ela acionou a polícia de Roterdã, que deteve os sete (jovens entre 18 e 21 anos), e viu um deles confessar a insensatez.
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E no meio da semana passada, antes ainda dos momentos tensos que Vejinovic viveu, outro grupo de torcedores do Feyenoord passara de carro, em frente à casa do atacante Michiel Kramer, e o mandara fazer algo impublicável. Esses dois momentos, absolutamente dramáticos e desnecessários, mereceram as duras palavras de Eric Gudde, diretor técnico do clube: “É escandaloso, horrível, insano demais para descrever. Embora o time esteja atuando mal – e acreditem, todo mundo aqui lamenta muito isso -, isso não dá o direito de invadir o espaço privado de um jogador”.
A insensatez contra Vejinovic e Kramer só ampliou a dimensão do que se chama de “crise” no Stadionclub. Crise até justificável, a princípio: afinal de contas, com cinco derrotas consecutivas na Eredivisie (quatro delas após a pausa de inverno), estacionado na terceira posição, com 36 pontos, o Feyenoord viu sua esperança de título nacional ser demolida cruelmente. Não é apenas questão de ver o PSV, novo líder do torneio, 14 pontos à frente, com o vice-líder Ajax um ponto abaixo – logo, 13 à frente. É também correr o risco de perder a terceira posição na liga: o Heracles Almelo, quarto colocado, está um ponto abaixo dos Rotterdammers – e o NEC, quinto, está a dois pontos. E há o Vitesse, três pontos abaixo; o Utrecht, quatro pontos…
Enfim, a pressão sobre o Feyenoord aumentou. Até compreensivelmente. Trata-se de um clube que já não conquista títulos nacionais há 17 anos, e que fez investimentos admiráveis para conseguir sair da fila na atual temporada. Fortaleceu a equipe em todos os setores. Na zaga, chegaram Jan-Arie van der Heijden e Eric Botteghin; o meio-campo recebeu o sueco Simon Gustafson; no ataque, Eljero Elia e Michiel Kramer ladearam a estrela maior da relação de contratações, o ídolo Dirk Kuyt. Tudo isso, sem contar o elenco que já estava no clube, mais a expectativa sobre o primeiro trabalho de Giovanni van Bronckhorst como técnico.
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Todavia, falar em crise talvez seja um pouco demasiado. Afinal de contas, na expressão fria dos números, o Feyenoord não está tendo um desempenho muito diferente do mostrado nas temporadas mais recentes. O jornalista Ramon Min, da revista “Voetbal International”, levantou em seu perfil no Twitter todas as pontuações do time após 21 rodadas, de 1999/2000 (primeira temporada do jejum) até agora. Em 2014/15, o Feyenoord tinha 38 pontos, apenas dois acima dos 36 de atualmente; em 2013/14, eram 37 pontos após 21 rodadas; em 2012/13, eram 41 pontos. Ou seja, as pontuações não revelam queda brusca de desempenho. Ao contrário, indicam até regularidade.
Mas outro dado, também regular, não é nada positivo para o clube: nas últimas dez temporadas, o Feyenoord historicamente “morreu” no início do returno, mesmo que não disputasse diretamente o título. Nos jogos de janeiro, foram cinco vitórias, sete empates e 14 derrotas. Ou seja, por mais promissora que seja a campanha no turno, a pausa de inverno quebra o ânimo, e o time de Roterdã não consegue retomar ou manter o bom ritmo nas primeiras rodadas da volta, perdendo chances de alcançar objetivos mais promissores. Ou seja: talvez não seja uma “crise” o que a equipe de De Kuip vive, mas sim a repetição de um velho e mau hábito.
Porém, o hábito foi potencializado pelo péssimo desempenho visto no returno: o Feyenoord é uma das duas únicas equipes do Campeonato Holandês a não ter vencido nenhuma vez após a pausa de inverno. Pior: as cinco derrotas consecutivas marcam a pior sequência negativa que o clube já teve em sua longa história na divisão de elite. Nem mesmo no seu ponto baixo mais conhecido (o 10 a 0 sofrido para o PSV, na temporada 2010/11) o retrospecto recente era tão negativo – a sequência daquela época foi de quatro derrotas e um empate, contando com a goleada dos Eindhovenaren.
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Mas por que, afinal de contas, essa queda brusca que eliminou o sonho de por fim ao tabu? Não é difícil explicar: se tem um ataque dos melhores no futebol holandês, com Elia dando velocidade pelas pontas, enquanto Kramer e Kuyt são bons finalizadores, e se o meio-campo tem crescimento de produção em Tonny Trindade de Vilhena (o único ponto positivo das rodadas recentes), a defesa deixa muito a desejar. São crônicos os espaços deixados pelos laterais – tanto na direita, com Rick Karsdorp, como na esquerda, com Miquel Nelom. Jogando adiantada, a linha de quatro defensores é facilmente surpreendida. Bastam contragolpes rápidos e eficientes para colocarem os atacantes adversários na cara do gol de Vermeer. NEC, PSV, AZ, Heerenveen, ADO Den Haag: todos os reveses do Feyenoord vieram no esquema de ataques precisos contra uma defesa frágil.
Pelo menos, o Feyenoord ainda tem a Copa da Holanda. E para minorar a pressão, jogou de modo tenso contra o Roda JC, nas quartas de final: time armado no 5-3-2, sem correr riscos nem levar muito perigo, só um gol de cabeça de Eric Botteghin, já na prorrogação, deu a vitória. E o zagueiro Sven van Beek já pede que o time também entre com três zagueiros na próxima rodada. Nada mais ajuizado. Afinal de contas, neste domingo, o Feyenoord tentará evitar a sexta derrota seguida no Holandês tendo “só” um clássico contra o Ajax. Em Amsterdã. Será duro conter a paciência da torcida, que se cansou. Será mais difícil ainda controlar gente como os bagrecéfalos que cometeram os atos contra Vejinovic e Kramer.



