Holanda

Equilíbrio volta a aparecer na Holanda. E isso não é tão bom

Normalmente, a coluna explicaria didaticamente o equilíbrio grande que já vem sendo notado no Campeonato Holandês. Só que o confrade Leandro Stein já fez isso de maneira bem melhor e mais sucinta, como se pode ler aqui. Ou seja, já se sabe, por exemplo, que o Twente poderia perder a liderança da Eredivisie, por ter caído frente ao ADO Den Haag (3 a 2). Mas se salvou na ponta pelos tropeços dos quatro adversários que vinham abaixo: PSV (derrota por 2 a 1 para o Roda JC), Zwolle (derrota por 2 a 0 para o AZ), Ajax (empate sem gols com RKC) e Vitesse (empate em 2 a 2 com o Groningen). E o Feyenoord, que também poderia sonhar em chegar mais perto da ponta, perdeu para o Heracles (2 a 1).

Obviamente, tal equilíbrio traz uma dose de emoção ao campeonato, algo sempre bem vindo em competições esportivas. E em que pese o Ajax ter conquistado o torneio três vezes em sequência, basta lembrar que esse equilíbrio forçou o time a se esforçar em dois desses títulos: em 2010/11, a equipe precisou de sete vitórias consecutivas nas sete últimas rodadas para acabar com um jejum que durava sete anos. Na temporada seguinte, a arrancada foi ainda mais impressionante: 14 triunfos nas 14 rodadas finais, quase um turno inteiro do campeonato.

Ou seja, embora ainda continue sendo um campeonato reduzido a poucos vencedores, o Holandês anda com suas disputas mais renhidas. E disputas mais renhidas significam um campeonato mais atraente de se ver? Em termos. À primeira vista, não há dúvidas: os 3.038.000 milhões de telespectadores que acompanharam o programa “Studio Sport Eredivisie”, resumo da rodada exibido pela NOS, a tevê pública holandesa, dão mostras da empolgação que é ver uma liga onde qualquer time com pontuação suficiente para tal pode assumir a ponta graças a tropeços dos concorrentes. Não à toa, foi a maior audiência da televisão do país no final de semana.

Mas basta ver os jogos na íntegra para notar que nem sempre campeonato equilibrado é sinal de campeonato forte. O 0 a 0 entre Ajax e RKC foi um bom exemplo: enquanto o time de Waalwijk entrou assumidamente para não perder, apenas arriscando um ou outro contra-ataque a cargo de Jean-David Beauguel e Aurelién Joachim, os Ajacieden até tentavam atacar, com Viktor Fischer, Lucas Andersen ou Kolbeinn Sigthórsson. Mas não tinham o cidadão que iluminava os caminhos, que abriria a jogada com um passe (poderia ser Siem de Jong, mas este fez partida apagada). E quando a chance da conclusão chegava, o goleiro Jan Seda parava. E o empate sem gols ficou inevitável, decepcionando a torcida.

Pior foi a torcida do Feyenoord, que viu o time cair para o Heracles Almelo pela primeira vez no De Kuip, em jogos válidos pelo Campeonato Holandês (com Graziano Pellè levando um cartão vermelho, de quebra). Ou dos torcedores do PSV, que viam o time obter uma vitória razoável contra o Roda, até a expulsão boba de Memphis Depay, que fez o time ter de recuar, chamando a equipe de Kerkrade para seu campo até que conseguisse os gols da vitória por 2 a 1. Mas o ponto principal para ter reservas quanto à emoção apresentada pelo Campeonato Holandês é outro.

Em todas essas partidas, não houve alto nível técnico. Não houve uma atuação sequer que pudesse ser olhada com admiração, fosse coletiva ou individual. As partidas não foram salpicadas de lances emocionantes, como defesas arrojadas, lances plásticos ou ataques bem construídos. Embora os resultados tenham trazido emoção ao campeonato, os jogos em si não revelaram muita coisa positiva. E olhando num cenário mais amplo, nem as partidas de clubes holandeses em competições continentais apresentam coisas positivas. Basta notar a campanha ruim do Ajax na Liga dos Campeões. Ou a campanha apagada do PSV na Liga Europa – onde, vá lá, o AZ joga corretamente.

Pior ainda, mal se fala em muitos jogadores que estejam prontos para sair rumo a centros maiores do futebol europeu. Na temporada passada, havia Christian Eriksen, Kevin Strootman, Jeremain Lens… Agora, há meras conversas sobre De Vrij, Martins Indi, Clasie, Siem de Jong, Fischer, Depay. Nada que indique interesse real de um clube grande, ou mesmo médio, de um centro mais importante do futebol europeu. Pior: as revelações mais faladas ficam circunscritas a clubes grandes. Pouco se fala de Thomas Bruns, Mikhail Rosheuvel, Rihairo Zivkovic… todas revelações surgidas na Holanda, atualmente. Mas que dela talvez nunca saiam.

Enquanto isso, por exemplo, reclama-se muito de cenários como o do Campeonato Espanhol. Onde há até equipes boas, mas que raras vezes conseguem alcançar Barcelona e Real Madrid. A diferença: os dois gigantes do futebol do país são gigantes do futebol mundial, impõem respeito onde, quando e contra quem quer que joguem. Não são invencíveis, mas têm times de qualidade inegável, com jogadores estelares. E quando outros clubes melhoram a ponto de desafiá-los (como faz o Atlético de Madrid, agora, em La Liga), também passam a ser vistos como times grandes no cenário europeu – não custa lembrar que os Colchoneros já levaram duas vezes a Liga Europa.

Não é o que ocorre na Holanda, onde clubes pequenos (e a maioria dos médios), por mais surpresas que arranquem e por mais que já não levem goleadas obscenas com tanta frequência, continuam longe de causar suspiros. E os clubes maiores, por sua vez, não conseguem crescer no aspecto continental, não ganham respeito fora das fronteiras holandesas como em tempos idos. É triste, mas cada vez mais a Holanda parece se contentar em ter um campeonato apenas equilibrado, sem buscar nivelar-se por cima como poderia. E sem esse desejo, a seleção nacional será a única coisa respeitada no futebol holandês. Ao Campeonato Holandês, restará esperar por rodadas esparsas como as do fim de semana passado, para atrair audiência e pensar que tudo está bem.

Para terminar, uma informação que passou em branco: o PSV foi melancolicamente eliminado da Copa da Holanda, na quarta-feira, novamente derrotado pelo Roda JC (3 a 1). E nem assim os aurinegros serão considerado um time para merecer atenção. C.Q.D (como queríamos demonstrar – lembram-se das resoluções de problemas nas aulas de Matemática?).

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo