Holanda

A definição do título holandês está por um fio

Ao final do primeiro turno da temporada 2008/09, o Ajax estava em uma posição razoável para buscar o título que já não vinha, então, havia cinco anos. Era o segundo colocado do Campeonato Holandês, com 38 pontos, três atrás do líder AZ. Voltou para o returno vencendo o NEC (4 a 2, em Nijmegen). Mas entrou numa sequência ruim, que se revelou decisiva: nos quatro jogos seguintes, três derrotas e um empate. Os Alkmaarders venceram em todas essas rodadas, e deram ali o impulso decisivo rumo ao segundo título holandês de sua história.

VEJA TAMBÉM:
– Ele conseguiu a proeza de ser expulso aos 29 segundos, mas será que merecia?
– Qual o golaço da rodada no Holandesão: o duplo calcanhar ou o aprendiz de Bergkamp?
– Van Praag até tem experiência – mas é desnecessário à Fifa

Por coincidência, o AZ pode ter sido o fiel da balança na decisão de mais um título holandês. Ao vencerem o Ajax, nesta quinta, em Amsterdã, por 1 a 0 (primeiro triunfo do clube em Amsterdã, contra os Ajacieden, desde 1980), deixaram a equipe de Frank de Boer doze pontos atrás do líder PSV – que superou o NAC Breda, na terça. Com os acontecimentos da 21ª rodada, é lícito supor que o destino da Eredivisie 2014/15 será arrastar-se até o momento em que o título tomará definitivamente o caminho de Eindhoven.

Não é só pela vantagem ampla na liderança. A segurança em campo tem ajudado a equipe de Phillip Cocu a conquistar vitórias difíceis, as chamadas “vitórias de campeão”. Assim foi no último sábado, contra o Willem II: perdendo por 1 a 0, em casa, a equipe não perdeu a calma. Nem mesmo quando Depay cobrou bisonhamente um pênalti, mandando a bola por cima do gol. O prêmio? Virada em três minutos, no final do jogo, e o triunfo final, por 2 a 1.

E a situação foi ainda mais exemplar contra o NAC Breda. Mesmo com a expulsão polêmica de Jetro Willems (polêmica a ponto de a federação revogar o lateral esquerdo da suspensão, posteriormente, mesmo mantendo o cartão), a equipe soube se acertar dentro de campo. Segurou o empate sem gols, fora de casa, durante o primeiro tempo. Na etapa final, bastaram oito minutos para Memphis Depay abrir o placar em Breda. Depois, Wijnaldum fechou o placar e deu a segunda vitória consecutiva em situações adversas.

Dos autores dos gols ao estilo de jogo mostrado, a vitória de terça foi sintomática do que tem sido a temporada do PSV. Uma equipe que deixa o adversário se lambuzar com a criação de chances, para depois aproveitar o seu contra-ataque, valendo-se da velocidade de Narsingh e Depay, pelas pontas, e do crescimento visível de Luuk de Jong, na finalização. E que mostra uma solidez a toda prova, só permitindo tanta pressão adversária porque a linha de quatro defensores já está mais do que entrosada – com destaque para Bruma e Rekik, no miolo de zaga.

Mas ninguém possui mais destaque, nos Eindhovenaren, do que Depay e Wijnaldum. Embora Maher esteja crescendo de produção, e Guardado tenha função importante no setor (é sempre um ponto de desafogo das jogadas, pela esquerda), é Wijnaldum o grande responsável pela armação das jogadas, por pensar o jogo no meio-campo. E quase sempre o capitão do time faz isso com a velocidade necessária para acompanhar Depay.

O camisa 7, por sua vez, é o melhor jogador da temporada holandesa. Ponto. Escalado geralmente na ponta esquerda, Depay parte de lá para virar a principal referência ofensiva do PSV. Dificilmente uma jogada de ataque dos Boeren deixa de passar por seus pés. E eles quase sempre trazem um drible de efeito, ou resultam numa jogada perigosa. Às vezes, Depay exagera na posse de bola e na vontade de querer resolver tudo sozinho. Mas, quando acerta, o resultado é o que se vê: com 12 gols, é o goleador do campeonato. E cada vez mais, mostra que sua saída não é questão de possibilidade, mas de tempo.

Por sinal, o tempo para o Ajax reagir está ficando cada vez mais escasso. Não que a equipe de Amsterdã não possa fazer isso. Fez em 2010/11, ao vencer os últimos sete jogos e ultrapassar o Twente, no confronto direto da última rodada, para ganhar o título que não vinha havia sete anos. E fez, principalmente, em 2011/12: chegou a estar na sexta colocação, mas emplacou uma sequência de 13 vitórias no returno para voltar à ponta e faturar o bicampeonato.

Contudo, nessas temporadas ainda se via alguma capacidade no elenco dos Godenzonen para virar o jogo. Na temporada atual, a impressão é que a equipe não tem mais a oferecer do que já vem mostrando: um estilo previsível, lento, marcado com facilidade cada vez maior. Jogadores que poderiam acelerar o jogo rumo ao ataque estão sem fazer isso há um bom tempo (caso de Schöne), ou têm atuações irregulares (casos de Kishna, Milik e El Ghazi).

Pior: vários jogadores do elenco têm sido vitimados por lesões, como Veltman, Serero, Klaassen e Sigthórsson. Com isso, muitos novatos têm sido escalados no 4-3-3, sem ganhar regularidade na posição. Além do mais, a defesa do Ajax anda extremamente vulnerável. Às vezes, os adversários perdem a chance de aproveitar. Foi o que aconteceu com o Feyenoord, que só não saiu do Klassieker de duas semanas atrás com a vitória porque Kazim-Richards cansou de perder gols.

Mas Vitesse e AZ (este, graças à expulsão também polêmica de Moisander) souberam fazer pelo menos um gol, levando os Ajacieden a duas derrotas seguidas. Com a morosidade do ataque e a fragilidade da defesa, não impressiona a marca negativa do Ajax: há três jogos, não marca gols nem tem mais posse de bola do que o adversário (!). Nunca acontecera sob o comando de Frank de Boer – cuja indecisão em ficar no clube ou aceitar eventuais propostas é mais um foco indesejável de problemas.

Por tudo isso, o Ajax está à espera de um milagre. Quem sabe, possa ter uma sequência de vitórias tão embasbacante quanto em outras temporadas. Quem sabe até ganhando do PSV, daqui a quatro rodadas. Mas é algo dificílimo, graças à segurança demonstrada pelos Boeren dentro de campo, levando à extravagante vantagem na pontuação e à imensa chance de encerrarem o jejum de sete anos sem títulos nacionais. A resolução do Campeonato Holandês está por um fio.

Mostrar mais

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo