Holanda

Van Praag até tem experiência – mas é desnecessário à Fifa

A bem da verdade, esta coluna não será somente sobre futebol holandês. Apenas partirá dele. Porque não dá para fugir deste assunto: a candidatura de Michael van Praag, presidente da KNVB, a federação holandesa, à presidência da Fifa, anunciada na última segunda-feira. Não se pode dizer que ela era prevista, pois nenhuma palavra saíra da boca de Van Praag. Mas tampouco era irreal cogitar a hipótese, já que o dirigente era das vozes mais virulentas da Europa contra a atual fase da Fifa – e contra Joseph Blatter.

LEIA MAIS: Figo pode ser um candidato sério, mas oposição dividida é o sonho de Blatter

Tão logo saiu o anúncio, a Holanda se mexeu. Principalmente para apoiar Van Praag. Afinal de contas, as palavras do dito cujo soaram como música para os críticos da autocracia, da preguiça e da corrupção que ameaçam cada vez mais Blatter: “Todos sabem que a KNVB preocupa-se com a imagem atual da Fifa. Eu pensei que algum candidato digno de apoio iria aparecer, mas isso não aconteceu. E achei que tinha de chamar a responsabilidade, por meio da minha candidatura”.

Bastou para que ex-jogadores, como Van der Sar e Seedorf, se posicionassem com simpatia à candidatura. E também para que Andrew Jennings, talvez o jornalista que mais ataque Blatter na imprensa mundial, se derretesse pelo novo candidato. Em entrevista à NOS, emissora holandesa de tevê, Jennings exaltou: “Devemos agradecer Michael, porque sua reputação está intacta. Ele é honesto. (…) Ele é um dirigente experiente no futebol. A Fifa precisa disso, do contrário Blatter também levará desta vez. Holanda, apoie o seu homem, o seu centroavante, e lhe dê o que ele precisa. Dê publicidade a ele”.

De fato, a candidatura de Van Praag talvez tenha algo de simpático. Aliás, pode ser completamente simpática. De fato, trata-se de um sujeito com histórico familiar. Seu pai, Jaap van Praag, presidiu o Ajax entre 1964 e 1978, período que englobou a melhor fase da história do clube dentro de campo. Tempos depois, o próprio Michael assumiu a presidência Ajacied, onde ficou entre 1988 e 2003 – tempo em que viu um novo auge da equipe. Além do mais, não há acusações públicas de corrupção sobre ele, pelo menos até agora. E é lícito dizer que Van Praag faz uma gestão correta à frente da KNVB, que preside desde 2008, sucedendo o falecido Mathieu “Jeu” Sprengers.

No entanto, não se pode abrir tapete vermelho a essa candidatura, como a imprensa holandesa tem feito ao longo desta semana. Primeiramente, porque se Van Praag é um sujeito honesto, é hora de lembrarmos que honestidade é obrigação, não um luxo – por mais que ninguém cumpra tal obrigação na entidade há um bom tempo. Além do mais, o holandês já mostrou um eurocentrismo que vai quase ao extremo oposto da “favelização” que Blatter promove, dando força às federações de centros mais afastados do futebol. E que é tão perigoso quanto esta.

Prova dessa crença veio em entrevista dada à revista “Voetbal International”, no mês passado. O dirigente reconhecia que uma candidatura apoiada pela Uefa dificilmente teria forças para superar “o sistema” montado cuidadosamente por João Havelange ao longo de seus 24 anos à frente da Fifa – e que Blatter aproveita desde 1998: “Eu apoiaria um candidato da Uefa. Não que ele fosse vencer, porque há uma enorme antipatia contra a Europa. Nós temos a Liga dos Campeões. A Série A. A Premier League. Milhares de euros circulam. Temos os melhores jogadores de todo o mundo em nossos campeonatos. Somos arrogantes. Um candidato europeu não tem a menor chance”.

Mas o susto que declarações como essa causam é até pequeno, diante do que se viu na entrevista coletiva em que Van Praag anunciou suas intenções, quarta passada, no Estádio Olímpico de Amsterdã. Talvez para evitar eventual pecha de “candidato da Uefa”, ele suavizou: “Não tenho nada contra Sepp Blatter. Digo mais: como pessoa, gosto muito dele. Mas alguém que comandou por tanto tempo, que se tornou o símbolo de uma imagem manchada, não pode ser a face de uma modernização, de uma ‘nova Fifa’”.

E revelou o que sugeriu ao próprio suíço, em conversa privada há alguns dias, quando revelou a candidatura: “Eu disse a ele: (…) Sepp, você se salvaria caso desistisse. Caso desse um passo atrás. Porque o importante não somos eu ou você. O importante é o futebol. Minha proposta é que você siga como conselheiro da Fifa na minha gestão. E da Fifa, você cuidaria do legado que você deixa ao mundo do futebol: a Fundação Sepp Blatter, que auxilia crianças sem chances pelo mundo”.

Se não bastasse, Van Praag ainda seguiu nos absurdos: “Acho que o desenvolvimento do futebol estaria melhor servido com uma Copa do Mundo maior. Uma ampliação com maior número proporcional de nações fora da Europa. Porque estar numa Copa acelera visivelmente o desenvolvimento e a popularidade do futebol nas nações que dela participam”. Isso, justamente numa época em que se pede por uma maior seletividade e menor frequência nos jogos entre seleções, para que os clubes ganhem a merecida prioridade.

Assim, Michael van Praag até pode ter sido simpático, ao se posicionar contra (?) Blatter e o estado de coisas atual da Fifa. Mas suas declarações mostram que pouco ou nada mudaria sob seu comando. De mais a mais: se é verdade que a Uefa quer outro comandante na entidade (ainda) máxima do futebol mundial, também é fato que Michel Platini vê com melhores olhos a candidatura não oficial de Luis Figo.

Para terminar, fica a questão: a KNVB teve lucro de 1 milhão de euros, no balanço do ano passado. Só para apoiar a candidatura do Catar a ser país-sede da Copa de 2022, Zinedine Zidane recebeu 11 milhões de euros, segundo revelou a justiça francesa. Caso queira entrar para valer na briga, Van Praag precisará dividir os votos de África, Ásia e Concacaf. E provavelmente, não teria dinheiro para fazer uso dos mesmos métodos que são condenados em Blatter. E mesmo se elegendo, ainda assim seria mais do mesmo. Por tudo isso, o dirigente holandês que se destacou nessa semana é o chamado “boi de piranha”. Não oferece perigo.

Mostrar mais

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo