Ajax recuperou um pouco de vontade, mas ainda falta algo

A rigor, esta coluna deveria ter sido publicada na semana passada. Afinal de contas, ainda estava fresca na memória a vitória do Ajax – até certo ponto, surpreendente – no clássico contra o PSV, há duas semanas, pelo Campeonato Holandês. Só que o Twente perdeu três pontos pela situação crescente de penúria financeira, e tal assunto pareceu mais interessante.
Tudo bem, o Ajax continua sendo um assunto digno de menção nestas semanas. Porque exibe um aspecto contraditório. Os Ajacieden melhoraram em relação ao time lento e apático, que tropeçou várias vezes no início do returno e colocou o título da Eredivisie no colo do PSV. Já mostram mais vontade, mais garra em campo. O que não significa que o time voltou a exibir um estilo de jogo agradável de ser visto.
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Por sinal, a vitória por 1 a 0 sobre o Excelsior, no domingo passado, pela 26ª rodada, exibiu perfeitamente este fio da navalha por que caminha o clube da estação Bijlmer Arena. A equipe criou pouquíssimas jogadas vistosas, baseando-se mais no seu toque de bola clássico. E quando as criava, invariavelmente a barreira armada na defesa dos Kralingers impedia qualquer penetração mais aguda. Só mesmo a insistência fez com que Anwar El Ghazi, a sete minutos do fim, fizesse o gol do 1 a 0, de cabeça.
A bem da verdade, mesmo o triunfo contra o PSV (3 a 1, em Eindhoven) já revertera expectativas pessimistas. Afinal de contas, o líder do campeonato jogava em casa e deixou isso bem claro, tendo posse de bola maior (57% a 43% foi o índice final) e indo com muito mais volúpia ao ataque. No entanto, o Ajax usou os contra-ataques e bolas paradas de uma maneira pouco vista no estilo tático da equipe. Com grande eficiência, assim chegou à vitória surpreendente – lembremos, os Eindhovenaren venceram todos os jogos em casa pela Eredivisie até então.
A eficiência vem, principalmente, pela boa fase individual dos três jogadores comumente escalados no ataque. Antes fixos cada qual em uma ponta, o crescimento de Ricardo Kishna e do supracitado El Ghazi é visível. Não só ambos mostram a capacidade de trocar de lado no decorrer das partidas, confundindo a marcação, como também mostram a habilidade e a velocidade típicas de pontas holandeses.
Se necessário, até podem ser improvisados no meio da área. Foi assim que Kishna exerceu papel fundamental na difícil vitória sobre o Twente (4 a 2), ao marcar dois gols quando o jogo estava empatado. E assim, por exemplo, El Ghazi estava jogando contra o Excelsior. Improvisação necessária, porque Lasse Schöne, que jogava no setor, já fora substituído. E principalmente, porque Arkadiusz “Arek” Milik estava com uma lesão muscular e nem jogara.
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Por sinal, o atacante polonês viu esse problema interromper uma ótima fase. Após um começo hesitante, Milik começou a se fortalecer como o principal finalizador Ajacied. Tornou-se o goleador do time no Holandês (9 gols). E tem sido peça-chave na Liga Europa. Basta dizer que marcou nos dois jogos do Ajax contra o Legia, pela segunda fase da competição.
Mas há outros fatores que explicam o leve crescimento do Ajax. Como Riechedly Bazoer, de 18 anos, tirado da base do PSV (!). Presença frequente nos jogos do time de aspirantes pela segunda divisão, o volante foi tornado titular no time de cima, na derrota para o AZ. Mesmo com o mau presságio, segurou-se na equipe. E vem exibindo um vigor físico tão respeitável quanto o de Thulani Serero – e até mais habilidade.
Outro fator, talvez, seja a ótima fase de Jasper Cillessen. Agora ostentando literalmente a camisa 1 (usava a 22, mas a titular ficara vaga com a saída de Vermeer), o goleiro mostra uma segurança cada vez mais clara. Não é espetaculoso nem mostra ares de insuperável, mas tem bom posicionamento e começa a criar uma ascendência sobre os jogadores de defesa. De quebra, Cillessen está cada vez mais “habituado” a fazer milagres – bolas à queima-roupa são seu ponto forte, ultimamente. Foi assim contra o PSV; no jogo de ida contra o Legia; e também nesta quinta, contra o Dnipro, na ida das oitavas de final da Liga Europa.
E aí começam os problemas. Afinal de contas, se o goleiro de um time começa a se destacar, é porque o miolo de zaga está deficiente na proteção. Exatamente o que está acontecendo com o Ajax. Falhas na posse de bola têm sido frequentes: Van Rhijn quase cometeu gol contra, no jogo de volta contra o Legia, e contra o Dnipro foi a vez de Veltman (até técnico, mas permanentemente inseguro) errar no recuo. De quebra, seguem algumas falhas de posicionamento. Por causa delas, por exemplo, Roman Zozulya fez o gol do 1 a 0 da equipe ucraniana, na Liga Europa.
Aí reside, talvez, um problema até mais profundo do Ajax. Embora a defesa falhe com frequência acima do desejável, os jogadores do setor mostram certa habilidade (e no caso do jogo desta quinta, convém dizer que as reclamações do gramado do estádio foram unânimes). Talvez lhes falte alguém que guie os caminhos, um jogador mais tarimbado. Todos os grandes times da história do Ajax tinham esse veterano: Sjaak Swart e Velibor Vasovic nos anos 1970, Frank Rijkaard e Danny Blind nos anos 1990.
O Campeonato Holandês está praticamente perdido. A vaga nas quartas de final da Liga Europa, seriamente ameaçada. Frank de Boer reconheceu isso na entrevista coletiva após a derrota para o Dnipro: “Tínhamos de marcar. Continuo com o sentimento de que foi uma dura derrota”. Cabe a ele, com a permanência confirmada por mais um ano, no mínimo, arrumar um modo de resolver esse problema na semana que vem. E de arrumar novos modos para retomar o respeito parcialmente perdido nesta temporada.



