Holanda

Ajax decidiu seguir caminho diferente. E agora?

“Os quatro títulos em sequência esconderam muita coisa dentro do Ajax.” Setorista do clube para a revista “Voetbal International”, o jornalista Freek Jansen falou isso na quarta retrasada ao site da publicação. E a frase resume involuntária e perfeitamente a forte turbulência que há nos Ajacieden. E que teve seu ponto culminante também na quarta retrasada, com a saída do ex-jogador Wim Jonk, diretor de De Toekomst (“O futuro”), a escola das categorias de base do clube. O que significou o afastamento de Johan Cruyff do cargo de “conselheiro informal” do Ajax. Trocando em miúdos: foi o fim da “Revolução de veludo” que ocorreu na Amsterdam Arena, de 2010 até hoje.

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Hora de recapitular: dias depois do Ajax ser derrotado inapelavelmente pelo Real Madrid, na estreia pela fase de grupos da Liga dos Campeões (o 2 a 0 para os Merengues ficara muito barato), Cruyff (quem mais?) escreveu uma coluna bem ácida no diário De Telegraaf. Para citar somente o título: “Este não é mais o Ajax”. Tudo bem, mais um trecho: “Após o apito final, todos estavam felizes pela derrota ter sido ‘somente’ por 2 a 0, enquanto ela podia ter sido de 8 ou 9”.

Não se passaram mais de dois meses: em 15 de novembro de 2010, Cruyff escreveu outra coluna no De Telegraaf. Título: “Mensagem a todos os Ajacieden”. Ali pedia que antigos jogadores do clube se candidatassem a cargos no Conselho Deliberativo, para que assim, personagens importantes de sua história estivessem de volta à condução dos destinos. Bastou: Marc Overmars, Tscheu La Ling, Peter Boeve, Keje Molenaar… enfim, todos estes foram eleitos conselheiros. Estava iniciada a “Fluwelen Revolutie”, a “Revolução de Veludo”, assim nomeada por não ocorrer com grandes conflitos internos, seguindo o que hoje é conhecido como “Cruyff-plan” – lógico, o “Plano Cruyff”.

A intenção: trazer de volta o estilo técnico e a prioridade no uso das categorias de base, pilares da fama que o clube de Amsterdã conseguiu em todo o mundo. Martin Jol, treinador de então, percebeu que as coisas mudavam e deixou o clube. Frank de Boer, técnico dos juvenis, assumiu. A mudança pretendia ter resultados para dali a algum tempo. Mas baseado num final de temporada fulgurante – sete vitórias nos últimos sete jogos -, o Ajax conseguiu ser campeão holandês em 2010/11, após sete anos de jejum. Desde então, a “revolução de veludo” conseguira trazer o Ajax de volta ao posto de grande clube do futebol holandês. Até agora.

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O anúncio da saída de Jonk (ex-meia, com duas Copas pela seleção) foi o capítulo mais dramático num racha que já se aprofunda há pelo menos dois anos – e sobre o qual esta coluna até comentou, há alguns meses. De um lado, o próprio Jonk e o olheiro Ruben Jongkind, ambos defendendo o plano original de Cruyff, com a continuação do uso frequente de egressos da base na equipe adulta do Ajax. Do outro lado, Marc Overmars: hoje diretor de futebol, cada vez mais o ex-atacante acredita que o Ajax precisa contratar, caso ainda sonhe com campanhas honrosas nos torneios continentais, tendo o leve apoio de Frank de Boer.

O pior é que o racha não tinha mediadores confiáveis. Para tentar solucioná-lo, no final do ano passado, Cruyff já aconselhara a vinda de Tschen La Ling, como supervisor técnico. Mas La Ling não durou mais do que alguns meses, desprestigiado pela dupla Overmars-Frank. Já o diretor geral Dolf Collee tem nome discreto demais para exercer destaque. E Edwin van der Sar, na diretoria desde 2012, tem sido criticadíssimo pela torcida, por sua falta de pulso firme nesta situação (e em outras também).

Aos poucos, o conflito cresceu, e Jonk passou a se ausentar das reuniões com o diretor de futebol e Frank de Boer. Até que veio a demissão, justificada pelo clube com diferenças “irreconciliáveis”. Tanto a saída de La Ling quanto a de Jonk foram vistas como um projeto da direção atual para minimizar a influência de Cruyff no Ajax. Resultado: mesmo no início do tratamento contra o câncer no pulmão, ele falou ao jornal “De Telegraaf” para criticar a saída do diretor da base, seu aliado: “Jonk naturalmente tem muita razão. Ele se afastou das reuniões. É que ele não me falou nada, senão eu teria observado isso. As coisas não podem ser assim, em que ninguém fala nada, depois as coisas dão errado, e colocam tudo nas minhas costas. Digam, então, ‘a sua visão não nos serve mais'”.

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A turbulência piorou com uma carta aberta da equipe técnica de De Toekomst à diretoria, opondo-se à saída do comandante: “A partir do nosso comprometimento com o Plano Cruyff e nossa crença na missão e na visão que Wim Jonk trouxe ao clube com esse plano, achamos completamente ilógico e portanto incompreensível que vocês o tenham ameaçado”. Na reunião entre acionistas e diretores do clube, sexta passada, seguiu a hesitação: a demissão de Jonk foi mantida, mas Edwin van der Sar (enfim empossado como diretor técnico do clube) jurou: “Apoiamos totalmente a visão de Cruyff, e isso não muda com a saída de uma pessoa”.

Pois foi o próprio Cruyff que colocou um fim abrupto à incerteza. Em sua coluna no “De Telegraaf”, segunda passada, mostrou a franqueza de sempre: “Eu paro [com o Ajax]. Já há anos constato que o centro do meu projeto não é executado no Ajax. E tenho a impressão cada vez mais forte de que isso é deliberado. E de ‘joguinhos’ eu não participo mais”. E fechou com uma forte advertência aos personagens da discussão (Van der Sar, Overmars, Frank de Boer, o auxiliar Dennis Bergkamp e o demissionário Jonk): “Tranquem-se numa sala, sentem-se e olhem para si mesmos. Preocupem-se em organizar o negócio. Só que isso não acontecerá mais sob o guarda-chuva do ‘Plano Cruyff’, porque eu estou fora”.

Fica a pergunta: sem ele, o que o Ajax fará? Agora diretor técnico, Van der Sar segue jurando que nada muda; Overmars e Frank de Boer nada falaram sobre o assunto; e antes mesmo da demissão, Jonk pediu: “A torcida precisa saber a verdade”. Alas da torcida pretendem boicotar o jogo deste sábado, pela 13ª rodada do Campeonato Holandês, contra o Cambuur. Com tudo isso, só mesmo a manutenção da liderança da Eredivisie em campo tem minorado os efeitos do racha definitivo.

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