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Ajax precisa achar o foco para continuar em frente

Segunda-feira, 20 de abril. O elenco do Ajax treina, em Amsterdã, sob o comando de Frank de Boer. A certa altura, o técnico para os trabalhos e conversa com o elenco. E o tom ríspido aumentou ainda mais a virulência das palavras: “Vocês não estão correndo, estão andando. ‘Nossa, como vocês vivem mal…’ (irônico) Vocês têm de estar felizes por serem jogadores de futebol. Muito felizes!”.

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Depois, a bronca virou quase uma súplica em tom de alerta: “Tentem pelo menos uma vez chegar vinte minutos antes [do treino começar]. Façam algo. Tem de partir de vocês. Eu já disse na semana passada. [A carreira de jogador de futebol] só dura uns dezesseis anos. E isso se vocês tiverem sorte”. O fato do canal oficial do Ajax no YouTube haver postado a bronca só amplificou a surpresa com o tom usado pelo treinador. Segundo Simon Zwartkruis, setorista do clube para a revista Voetbal International, não deveria: Frank de Boer é tradicionalmente duro nas duras dadas ao elenco.

E seja como for, a torcida do clube certamente apoia tais repreensões. Por mais que a campanha no Campeonato Holandês seja bem melhor do que os vexames de tempos idos, a apatia demonstrada nas últimas partidas traz muita irritação e configura um melancólico fim de temporada. Nos últimos três jogos em casa pela Eredivisie, fortes provas disso: dois fracos 1 a 0, contra Excelsior e ADO Den Haag, com gols no fim do jogo. E um empate absolutamente abaixo da crítica, sem gols, com o NAC Breda, semana passada.

Repita-se que o problema não está necessariamente nos resultados. Afinal de contas, não só os Godenzonen estão quase com o segundo lugar garantido na atual temporada (o que significa que já têm vaga nos play-offs da Liga dos Campeões), mas também podem até aumentar a pontuação em relação a 2013/14, quando foram campeões com 71 pontos – o time tem 67, agora, a três rodadas do fim da Eredivisie.

O problema inegável está na falta de variações táticas, e na incapacidade dos jogadores em criarem soluções para elas. Com isso, o time lembra os piores momentos do “tiki-taka”: toca, toca, tenta achar espaços em defesas fechadas… e eles não aparecem. Pior ainda: o ataque só é acelerado mesmo nas tentativas de El Ghazi e Kishna em jogadas individuais pelas pontas.

De resto, Milik fica parado no meio da área, assim como Sigthórsson, quando este joga. E a chegada dos meio-campistas, antes grande elemento de surpresa, diminui cada vez mais; só Andersen, Klaassen e Bazoer (este, um dos únicos motivos de esperança na temporada) tentam alguma coisa. Enfim, o Ajax tem problemas em campo e não sabe como resolvê-los. E essa indecisão se deve, provavelmente, a uma disputa silenciosa dentro do organograma dedicado ao futebol do clube.

Essa disputa está focada em cinco personagens. De um lado, dois parceiros na equipe profissional: Frank de Boer e seu auxiliar, Dennis Bergkamp. Ainda há o diretor de futebol, Marc Overmars, também apoiador de Frank e Bergkamp. Do outro lado, está mais um ex-jogador: Wim Jonk, diretor das categorias de base, tendo como parceiro o olheiro Ruben Jongkind, principal responsável por De Toekomst (“O futuro”, em holandês), a famosa escola de talentos do Ajax.

Todos eles costumavam se reunir, semanalmente, para discutirem os rumos técnicos do clube, no futebol. Pelo menos até há exatos 17 dias, quando vazou a notícia de que Jonk já não fazia mais parte dessas reuniões. E a razão é exatamente o cerne da disputa: discordâncias sérias em relação aos rumos que os dois lados querem para o futebol do Ajax nos próximos anos.

Se a intenção da “Revolução de Veludo” deflagrada por Johan Cruyff em 2010 era fazer com que o clube voltasse a dar amplo espaço aos jogadores surgidos em De Toekomst, ela já começou a se rachar nos últimos tempos. Jonk e Jongkind, obviamente, desejam ainda mais investimentos na base; Frank de Boer, Bergkamp e Overmars julgam que não só os novatos precisam de mais trabalho mental e físico, além do técnico, como acreditam que só se arriscando mais a contratar é que o Ajax poderá sonhar com passos mais largos no futebol europeu.

Mostra dessas diferenças de opinião foi dada no ano passado: Jonk e Jongkind pediram à diretoria investimento de 1,8 milhão de euros na base. Overmars respondeu com uma quantia menor: 950 mil euros. Desde então, a discordância só cresceu, até Jonk começar a faltar às reuniões da diretoria de futebol, mesmo seguindo no clube. O pior é que as instâncias superiores já estão com outros problemas para resolver.

Michael Kinsbergen, diretor geral do clube, terá seu contrato encerrado no final da temporada, e dificilmente o renovará. Esperava-se que, enfim, Edwin van der Sar estivesse preparado para ocupar o cargo que Johan Cruyff pensou para ele (ser para o Ajax algo semelhante ao que Karl-Heinz Rummenigge é no Bayern), só que o ex-goleiro não só recusou, por não se julgar pronto, como virou alvo de críticas: na diretoria de marketing, decidiu aumentar o valor do cartão de sócio-torcedor em alguns setores da Amsterdam Arena sem dar muitas satisfações à torcida.

Van der Sar reconheceu o erro, ao site do jornal oficial da associação de torcedores do Ajax: “De fato, devemos aproveitar o que aprendemos agora para ter uma nova abordagem [sobre o assunto]. Por mim, posso falar que as coisas deveriam ter seguido de maneira diferente. Eu devia ter sido menos frio, devia ter explicado à torcida por que fizemos isso”. Pior: na última segunda, ele anunciou que o clube ainda não voltará a adotar o distintivo antigo nas camisas, contrariando campanha da torcida nos últimos tempos.

De todo modo, enquanto o político Roger van Boxtel, membro da diretoria, é o mais cotado para substituir Kinsbergen, Van der Sar saiu meio chamuscado do episódio. E a recusa em assumir a diretoria geral do clube só aumenta rumores de que VDS voltará a trabalhar em campo, como treinador de goleiros – só que no Manchester United. Afinal, Louis van Gaal nunca fez segredo de que gostaria de ter o antigo pupilo na comissão técnica. E o ex-goleiro deu pistas disso, em entrevista à revista “Elf/Voetbal”: “Eu acho que seria um bom treinador de goleiros. Tenho sempre essa carta na manga”.

Diante de um cenário ligeiramente turbulento, quem poderia defender o Ajax? Ele, “De Verlosser” (em holandês, “O salvador”), Hendrik Johannes Cruyff. No último dia 12, ele anunciou que voltaria a Amsterdã para manter contato com a diretoria do Ajax e ajudar na resolução dos problemas. E como uma fada-madrinha, tratou de por panos quentes nas discussões: “Muitas coisas mudaram para o bem [no Ajax], e agora é hora do próximo passo. Graças aos títulos, o time voltou a ter sucesso e a estar bem financeiramente. E acima de tudo, o trabalho de base foi maravilhoso. O próximo passo é fazer com que esses aspectos caminhem juntos. (…) Agora, depende de ouvirmos todos os lados e dar o caminho certo. Não é o caso de achar que a crise vai piorar. E nem estou com medo disso acontecer”.

Bem financeiramente, de fato (segundo a empresa de consultoria S&P Capital IQ, é o mais saneado dos grandes clubes europeus), o Ajax espera que Cruyff novamente esteja certo, como estava em 2010. E que sacuda o fim melancólico de temporada, para o Ajax levantar a poeira e dar outra volta por cima.

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