Holanda

2015 escancarou a crise no futebol holandês

“O desmascaramento da Oranje em 2015.” Assim foi intitulado um texto do jornalista Willem Vissers, para o diário “De Volkskrant”, comentando sobre a desastrada (e desastrosa, como se veria) transição entre Guus Hiddink e Danny Blind no comando da seleção holandesa. Pois bem: se quisesse, Vissers poderia muito bem ter escrito sobre o desmascaramento do futebol holandês em 2015. Foi um ano que expôs de modo nu e cru o estado preocupante da modalidade na Holanda.

Houve uma tentativa de acreditar que a crise podia ser contornada. Mesmo esta coluna opinou erroneamente sobre isso, no final de março: o empate em casa com a Turquia (eliminatórias da Euro) mostrara as falhas sérias que a Oranje tinha, mas a vitória no amistoso contra a Espanha podia indicar alguma evolução. Pois bem: não indicou, como ficou claro nas rodadas finais da qualificação para o torneio europeu, já sob o comando de Blind. E só os próximos amistosos mostrarão se o vexame protagonizado realmente mudará algo na seleção batava.

Todavia, se o problema fosse só restrito à seleção, o futebol holandês saberia bem melhor o que resolver. Porém, o cenário era exatamente o inverso: a crise interna já está posta há pelo menos uma década. Todavia, a Laranja conseguia alguns bons resultados nos torneios, vez por outra, e isso minorava o impacto da crise. Em 2015, não houve como fugir disso: a ausência na Euro 2016 simbolizou o cenário combalido que os clubes já mostram, temporada após temporada.

É fácil repetir a ladainha de que a falta de adaptação à Lei Bosman dilapidou a competitividade continental da Holanda no futebol europeu. Fácil e correto. Mas não justifica completamente a depressão vivida neste 2015 que está acabando. Uma explicação mais completa precisa mencionar um tema comentado perfeitamente pelo jornalista Pieter Zwart, no site catenaccio.nl (e traduzido para o inglês por Michiel Jongsma, do blog BeneFoot): o futebol holandês está perdido dentro de campo. Há muito tempo. E curiosamente, está perdido justamente por manter o lado mais envelhecido do seu estilo de jogo.

Embora o conceito de “escola” esteja cada vez mais maleável, no sentido tático do futebol, ainda é possível apontar a essência da “escola brasileira”, da “escola argentina”, da “escola italiana”, da “escola alemã” etc. A questão é que todos esses países, em algum momento, puderam mesclar a essência aos avanços táticos naturais – aliás, mesclaram tanto que isso foi até danoso em alguns casos, como no brasileiro. Sem contar a maior possibilidade de gastos com preparações e transferências que a Europa tem, possibilitando um salto de desempenho impossível de ser igualado.

Pois bem: na hora de particularizar o desenvolvimento das escolas táticas ao redor do mundo, é que se vê como a Holanda ficou defasada. Enquanto Alemanha e Espanha despontaram, por exemplo, misturando o melhor do Futebol Total (a velocidade, a verticalidade no ataque, o esforço coletivo na marcação, aceitação da marcação incessante na saída de bola) com os avanços na preparação física, os holandeses ainda apostam em variações preguiçosas do 4-3-3, em que só há troca de passes e, vez por outra, uma jogada mais aguda de ataque.

Exemplos assim campeiam no Campeonato Holandês. Talvez o maior deles seja o Ajax, que repetiu domesticamente a história da seleção holandesa; enquanto ganhou o tetracampeonato nacional entre 2010/11 e 2013/14, os erros na concepção do time eram relevados. Neste 2015, a Eredivisieschaal não veio. E a participação continental foi indefensável, com as eliminações na terceira fase preliminar da Liga dos Campeões e na fase de grupos da Liga Europa.

E a equipe seguia apostando no 4-3-3, que tocava e tocava a bola no meio esperando um espaço na defesa adversária para criar as jogadas e fazer os gols. Contra a maioria dos adversários na Eredivisie – também com a defesa desacelerada e espaçada -, isso até é possível, como se vê em muitas rodadas. Não à toa, os Ajacieden lideram o torneio após as 17 rodadas do turno. Já nos torneios continentais, contra adversários mais capacitados, o que se viu foi uma exasperante ineficiência, uma assustadora falta de criatividade. Também não é à toa que essa disputa entre o pragmatismo e o apego à velha tradição provocou o racha na diretoria do Ajax.

Enquanto isso, o PSV mostrou um estilo bem mais conservador no 4-3-3. Uma defesa dedicada, que conta com o apoio de Andrés Guardado e Jorrit Hendrix na marcação, já desde o meio-campo. E que tem pelas pontas ajuda mútua entre os atacantes, que marcam a saída de bola, e os laterais, que podem avançar vez por outra. Jogando assim, os Eindhovenaren mostraram consistência elogiável na temporada. E foram premiados com a primeira classificação de um holandês às oitavas de final da Liga dos Campeões desde 2006/07.

Há outros bons exemplos. Vários clubes “médios” mostraram esse estilo de jogo que trouxe mais pragmatismo ao futebol holandês, sem tirar totalmente sua essência ofensiva. E obtiveram bons resultados: o Groningen foi campeão da Copa da Holanda 2014/15, e faz boa campanha no Holandês, junto de Heracles Almelo, Vitesse, NEC e Zwolle, todos modificando ou até “desafiando” o 4-3-3. Paralelamente, ao olhar para o que Bayern e Barcelona fazem, nota-se: a “escola holandesa” de jogar bola ainda vive. Só não está mais na Holanda. E nem parou no tempo, como ainda se acredita nos Países Baixos.

E 2015 mostrou isso de modo incontestável, com os desempenhos vexatórios dos holandeses na Liga Europa, a ausência na Euro… resta olhar os bons exemplos que ainda surgem e esperar que sejam a luz no fim do túnel. Só assim, o péssimo ano do futebol holandês terá servido de algo.

(E a piada segue: que os leitores tenham tantas alegrias quanto as decepções da seleção holandesa. Um bom 2016 a todos – e a coluna segue no 1º de janeiro!)

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