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[Uma Saga de FM] Capítulo 26: Sobre moral, justiça, vitórias e derrotas

Uma Saga de FM conta a trajetória do nosso colunista Gabriel Dudziak no comando do Instituto no Football Manager. Para ver outros capítulos da série, clique aqui.

O ano de 2021 chegou e com ele mais uma oportunidade de tentarmos buscar o sonho de conquistar a Copa Libertadores da América. O time que começou a segunda metade da temporada foi praticamente o mesmo do período anterior, ou seja:

Sergi; Bogado (Tejera), Sarulyte, Valentini; Caro (Pavone), Viotti (Casamán) e Sánchez; Mastrángelo; Capobianco (Rabello), Acciari e Reboledo

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-Começamos com uma vitória por 3 a 0 contra o Lanús com um hattrick de Reboledo. Era isso que precisávamos do nosso camisa 10! Veio um triunfo contra o San Lorenzo por 2 a 0 e um empate com o Colón em 0 a 0 antes da estreia na Libertadores, contra o Barcelona de Guaiaquil.

– Nosso grupo, o G, tinha Barcelona, Universidad Católica e Pumas. Contra os equatorianos atropelamos! 7 a 0 com três gols de Reboledo, três gols de Acciari e um de Lamanna. A parceria de ataque! Era isso!

– De volta ao Clausura batemos o Arsenal de Sarandí por 4 a 0 e o Vélez por 3 a 0 antes de enfrentarmos a Católica no torneio continental. Vencemos! 3 a 1 com um gol de Acciari e dois de Capobianco.

– Depois de uma vitória por 1 a 0 contra o All Boys encaramos o Pumas do México em casa pela Libertadores. Mais um triunfo e mais um passo no nosso objetivo, sendo o primeiro deles ficar na ponta da classificação geral da competição. Nossa vitória no Monumental de Alto Córdoba foi por 3 a 1 graças a Sarulyte, Reboledo e Viotti.

– River e Rosario Central foram derrotados por 2 a 1 e 2 a 0 respectivamente antes de nos concentrarmos no duelo em solo mexicano contra o Pumas novamente. Mais uma boa atuação terminou com triunfo: 2 a 0 graças a gols de Reboledo.

– Na Copa da Argentina os pênaltis foram necessários para vencermos o Quilmes após um 2 a 2, enquanto no Clausura ganhamos do Racing por 2 a 0. De novo na Copa da Argentina batemos o Argentinos Juniors por 5 a 1 e no campeonato local passamos pelo Atlético Tucumán por 2 a 1.

– A Libertadores voltou com o confronto fora de casa contra a Universidad Católica. Ganhamos outra! Acciari, duas vezes! Depois desse jogo acabou-se uma das maiores invencibilidades da história do Instituto e do técnico Santiago Milasevan. Com a derrota para o Estudiantes por 3 a 1 findou-se uma série de 17 jogos sem perder, sendo 15 vitórias e dois empates.

– De volta à Libertadores, encerramos nossa participação na fase de grupos com um 5 a 1 no Barcelona. Reboledo, Sánchez, Acciari (2 vezes) e Sarulyte foram às redes para nos dar o melhor aproveitamento da primeira fase e, consequentemente, vantagens nos duelos seguintes.

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– No Clausura batemos o Chacarita Juniors por 3 a 1 e voltamos à Libertadores para duelar com o Deportivo Táchira pelas oitavas de final. O primeiro jogo não foi fácil: 3 a 1 com gols de Valntini, Ortigoza (que finalmente fazia algo na temporada) e Sánchez. O segundo jogo sim foi fácil. Em casa foram inapeláveis 7 a 0 com tentos de Martín (nosso centroavante da base), Valentini, Viotti, Sánchez (duas vezes), Capobianco e Tejera. Avançavámos às quartas de final para duelar com o Godoy Cruz.

– No Argentinão perdemos justamente para o Godoy Cruz por 2 a 1 e empatamos com o Boca por 1 a 1. Veio o duelo da Libertadores contra o mesmo Godoy… Fora de casa jogamos muito bem e ganhamos por 4 a 1 com gols de Mastrángelo, Capobianco, Sánchez e Rabello. Em casa fizemos um 2 a 0 tranquilo para chegar às semifinais. Do outro lado o Peñarol avançou! Era esta a semifinal.

– Em solo doméstico ganhamos do Olimpo por 3 a 0 na Copa da Argentina e depois vencemos o Lanús na mesma competição para chegar à decisão do torneio. Veio então um dos momentos mais bizarros da história do Football Manager…

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Momento palhaçada!

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Vejam a imagem acima…. Sim. Exatamente. Seis jogos em seis dias! Eu nunca tinha visto isso. Cadê o Buen Senso?!

Bom, perdemos o Campeonato Argentino por essa patacoada, mas ganhamos a Copa da Argentina! Era hora de enfrentar a Libertadores!

– Claro que o desgaste continuava… O primeiro confronto contra o Peñarol foi fora de casa e não teve bom resultado. Partida difícil e sofrida. Criávamos pouco, eles cruzavam muita bola na área. Em escanteios os uruguaios fizeram 2 a 0. Felizmente Acciari descontou! 2 a 1 pra eles e uma boa chance em casa. O que não estava bom era o nosso goleiro. Por isso, Danilo Lerda, aos 34 anos de idade voltou à nossa meta para o confronto decisivo.

– No Monumental de Alto Córdoba o Instituto pressionou do início ao fim. Fez o gol logo no início com Pavone, mas tomou a igualdade. Era necessário mais dois gols pra resolver a parada no tempo normal! Cruzamentos daqui, chutes de longe dali, gols perdidos em profusão… Mas ele veio. Com Mastrángelo. 2 a 1 e pênaltis!  Tensão demais. Escolhi os melhores batedores (sempre fico em dúvida sobre isso, pois sempre um deles perde). Bom, desta vez ninguém perdeu e Lerda, nossa aposta, usou a experiência para defender duas. Ganhamos! Estávamos na final! Contra o Corinthians… Outra vez o Corinthians.

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O dilema ético

Bom, senhores e senhoras… Esse é o momento em que a narração da saga dá espaço a uma questão moral. Vou contar as linhas a seguir me privando de julgamentos, mas narrando pensamentos. Demorei a decidir o que falar e o que não falar aqui e espero que compreendam. Tudo isto ocorreu em uma madrugada…

No dia 12 de junho de 2021, às vésperas do jogo contra o Corinthians fora de casa, veio a bomba: Reboledo e Sánchez foram convocados para a seleção Argentina que disputaria a Copa das Confederações. Não houve nem como pedir dispensa.

Dois desfalques por seleção, seis jogos em seis dias e um gol do Corinthians com menos de partida. Não deu. Saí do jogo. Dei quit game… Desliguei o computador…. Foi o impulso.

Foram cinco minutos de sangue fervendo e cuidados extremos para não acordar ninguém em casa. Era só um jogo afinal não?  Que patético tamanha irritação… Não era possível manter isso assim.

O computador foi ligado novamente. O jogo carregado. Era antes da partida com o Corinthians, aquela que eu tinha desistido. Não havia mais o que fazer. Era moralmente reprovável, mas joguei de novo. Desta vez disposto a não sair nem se eu tomasse um 7 a 0.

A única mudança que fiz em relação ao jogo que não houve foi mandar o time todo pro ataque desde o início, com Mastrángelo avançando pra posição atrás dos atacantes e Viotti passando ao meio de campo. Começou com o meu time com a bola e eles se defendendo bem. O nosso 3-3-1-3 mais ofensivo enfrentava um inusitado 3-2-4-1. Os corintianos tinham três zagueiros, dois volantes, dois alas com mais dois meias recuados e só um atacante. Era natural que nós tivéssomos a bola e eles o contragolpe. O que não foi natural pra mim foi ver Mastrángelo invadir a área e abrir o placar fora de casa. Tal qual foi surpreendente que Acciari fosse às redes mais duas vezes em cobranças de escanteio. 3 a 0 no primeiro tempo. Que coisa! Veio a segunda etapa e com ela uma acomodação natural do nosso time. O Corinthians marcou, mas felizmente foi só um. 3 a 1 para nós.

Aquilo, porém, não estava certo… Eram os ecos do 1 a 0 pra eles que não terminou. Salvei o jogo com outro nome. Voltei àquele save. De novo contra o Corinthians. Decidi dar mais uma chance a nós dois – eu e máquina. Escalei o mesmo time. Mandei a campo a mesma estratégia, mas desta vez não veria o jogo. Deixei só em melhores momentos. Não mudaria nada. Queria ver o que dava… Deu 3 a 1 a nosso favor. Eu tinha dado a “nega” ao Football Manager com até certa vantagem ao meu algoz. Voltei ao save anterior com o 3 a 1 original. Havia eu atingido a redenção moral? Não. Mas era o que tinha… Deixei assim.

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O jogo de volta aconteceu no dia 23 de junho de 2021. Em casa nós poderíamos perder até por 2 a 0 que ainda assim seríamos campeões da Libertadores. E isso realmente aconteceu. Em menos de 45 minutos dois chutes de fora da área venceram Lerda. O time ficou nervoso e eu então nem se fala… Felizmente antes mesmo do apito final do primeiro tempo o nosso rapidíssimo Pavone apareceu dentro da área para descontar. 2 a 1 pro Corinthians.

Veio a segunda etapa… Acciari tinha a companhia de Rabello e Capobianco no ataque e resolveu aproveitar os passes laterais dos nossos ponteiros. Ele não só igualou o jogo como virou a nosso favor com daus boas finalizações cara a cara com o goleiro. 3 a 2! O título estava muito próximo!

O Corinthians, no entanto, queria briga. Que time complicado de enfrentar! Jogadores melhores que os meus e uma organização tática muito maior. Gol deles aos 70 minutos de jogo. 3 a 3 no placar…. Gol deles aos 80 minutos de jogo, 4 a 3 no placar…

4 a 3… Um gol corintiano daria o título a eles e uma frustração capaz de atravessar o coração de um homem à frente de seu computador numa madrugada silenciosa. Não havia mais o que fazer. Era aguentar jogando da mesma forma. Um chute dos meus adversários pegou no travessão e Sarulyte afastou do jeito que deu. A bola foi para o lado direito do gramado onde Rabello dominou e caminhou com convicção para o gol. Na saída do goleiro Jefferson (sim, aquele), o chileno tocou para as redes. 4 a 4!

O Instituto era campeão da Libertadores!

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Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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