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Gamepédia do Futebol – #9 Goal!

Com um nome que aparece repetidamente na história, a série de títulos da Jaleco inicia nuances importantes para os games serem de fato simuladores de futebol

Depois de chegar a era dos 8 bits, a Gamepédia caminha para o final dos anos 80, década de ouro para os videogames. Como registrado nos episódios anteriores, não há uma linguagem dominante nos simuladores de futebol até o momento e os experimentos são recorrentes para tentar arrebatar o público. O título Goal! – conhecido também como Gol de Craque – que comanda o nono episódio da enciclopédia, traz algumas inovações que foram marcantes para a evolução dos jogadores de futebol – como a câmera em diagonal – e atualiza a forma de competição dos games em gramados virtuais, trazendo o impedimento.

Fundada em outubro de 1974, a Japan Leisure Corporation iniciou as suas atividades produzindo máquinas de fliperama. No começo dos anos 80, a empresa japonesa passou a também desenvolver os jogos para as suas máquinas e, posteriormente, no final da década e início dos anos 90, para o NES e outros consoles. Durante esta evolução, a empresa criou um nome mais familiar, reunindo as sílabas de seu nome original: Jaleco. A empreitada de desenvolver games para outros consoles não foi um grande sucesso, mas a parceria com a Nintendo teve momentos importantes para a história dos games de futebol.

Com o sucesso da Copa no México, em 1986, e a iminência da disputa da competição na Itália, em 1990, a Jaleco desenvolveu em 1988 seu primeiro jogo de futebol: Goal!, para o NES, o Nintendinho. Lançado inicialmente no Japão e, no ano seguinte, para o ocidente, o título aproveitava muito da temática da competição de seleções. Tanto que um dos três modos de jogo era o World Cup, com 16 seleções separadas em 4 grupos – Argentina, Holanda, Dinamarca, Estados Unidos, Inglaterra, Itália, Japão, França, Brasil, Espanha, Argélia, União Soviética, Alemanha Ocidental, Polônia, Bélgica e Uruguai.

Além do modo Copa do Mundo, havia outros dois formatos de jogo: Tournament e Shootout. O primeiro deles funciona com um chaveamento a partir das quartas de final com clubes de uma suposta liga americana – sem licenciamento, mas fazendo referência a cidades como Chicago e Nova Iorque. Já o Shootout, diferentemente do que o nome sugere, não é a disputa de um jogador de linha frente ao goleiro para anotar o gol. Depois de escolher entre um dos três craques imaginários – Hansen, Roko e Juarez – o controlador recebe o passe de um companheiro e precisa passar por dois defensores e o goleiro para tentar fazer o gol. Como a jogabilidade não era simples, este modo era uma ótima forma de se preparar para os outros dois modos de jogo mais competitivos.

Curiosidade sobre os craques virtuais: eles foram repaginados entre a versão japonesa e a ocidental. A feição dos jogadores foram alteradas e também os seus nomes, pois eles eram claramente inspirados em 3 lendas do esporte: Pelé e Maradona eram Roko e Juarez, respectivamente. O terceiro deles e também o menos certeiro na referência, Hansen, aparenta ser Franz Beckenbauer. Para não ter problemas com o uso da imagem, a Jaleco deu este drible na adaptação para o lançamento nos Estados Unidos e na Europa.

Goal! é um jogo de câmera diagonal, com visão parcial do campo e a dinâmica vertical de jogo. As partidas consistem em dois tempos de 15 minutos simulados, durando pouco mais de 6 minutos reais cada, e os únicos indicadores na tela são o tempo de jogo e um número abaixo, mostrando o número da camisa do jogador que está controlando a bola. Como a tomada de câmera é parcial, os jogadores tendem a se amontoar na parte que aparece do campo, facilitando as roubadas de bola, mas também impedindo um jogo mais tático e os lançamentos conscientes. Neste aspecto, faz muita falta um gráfico do campo mostrando onde todos estão. Inovação que apareceu pela primeira vez no simulador da Jaleco, Goal! trouxe aos gramados virtuais o impedimento. Eles foram marcados erroneamente muitas vezes no jogo, mas trouxeram a dinâmica real do futebol para os videogames pela primeira vez.

Em termos de gameplay, o jogo suporta até dois jogadores locais ou confrontos com a inteligência artificial, com comandos muito simples e baseiam-se basicamente em passar ou chutar. Cabe a você definir se consegue uma ligação curta com um companheiro ou se terá que despachar a redonda em uma direção. Na fase sem bola, limite-se a correr ou dar um carrinho para recuperar a posse. O fator diagonal muda muito a dinâmica e é necessário um centro treino para dominar a gameplay. Quando o jogador carrega a bola nos sentidos vertical e horizontal, a velocidade do jogo é uma. Ao alternar a direção para as diagonais, o jogador fica mais lento, possibilitando quebras de ritmo e dribles. Nestes movimentos, se tornava possível buscar batidas cruzadas ao gol muito perigosas. Inclusive, uma delas é um absurdo: um bug recorrente que, ao chutar próximo à trave pela rede lateral da baliza, a bola entrava e contava como gol. É como se o sensor ficasse na parte do fundo da rede e não na linha da meta – o redator sofreu com isso e também se aproveitou em alguns momentos para vencer.

 

Em termos estéticos, Goal! apresentava uma inovação gráfica notável para a época: a visão superior diagonal trazia uma isometria avançada, com a proporção entre jogadores e o campo muito reais. O tempo de evolução no gramado para chegar à meta adversária era considerável. Além disso, o título trazia cortes de câmera com cenas específicas para situações do jogo – impedimento, comemoração de gol marcado, placar no intervalo e no fim da partida. Nestas animações, inclusive, era o único momento possível para visualizar o árbitro, que não aparecia na gameplay. Quando a bola saía pelas laterais, aparece do nada um assistente bandeirando para sinalizar a marcação. Estas cenas inovadoras trazem muito da linguagem dos anos 90, mas ainda num simulador lançado na década anterior.

Continuação e mais avanços

O título lançado em 1988 pela Jaleco, por si só, merece o capítulo na Gamepédia, mas a história de Goal! não terminou por aí. Em 1992, a continuação Goal! 2 adicionou faltas, regulagem no tempo de duração de cada jogo, definição de esquema tático, escalação e disputa de cara-ou-coroa inicial, trazendo a escolha entre bola ou campo. Em termos de configurações, era possível inclusive definir se o goleiro seria manual ou automático.

Dentro da dinâmica do jogo, ambos os títulos eram similares, mas a segunda edição se destaca por uma cena em específico. Se você jogou alguma vez, vai se lembrar agora: um dos comandos era o lançamento e, ao chutar a bola para cima, a câmera abria em panorâmica mostrando quase o campo inteiro, 11 para cada lado, enquanto você se posicionava para tentar vencer na disputa aérea. Uma das graças das crianças da época – inclusive o redator – era ficar chutando a bola para cima para ver a alternância entre as câmeras.

Pensando nos títulos da Jaleco, Goal! ainda teve outras produções, inclusive para Super Nintendo. Entretanto, é importante não confundir com outro jogo homônimo, produzido em 1993 pela Virgin Games, assinado por Dino Dini, para Commodore. Este título retrata outro momento da evolução dos games de futebol, com times licenciados, replays, escolha de árbitro e outras importantes adições que serão comentadas mais à frente na nossa Gamepédia. Por isso, cabe a desambiguação.

E você, tinha um Nintendinho em casa ou por perto? Chegou a jogar o Goal! ou conhecia ele por Gol de Craque? Comente com a gente sobre a sua experiência e, principalmente, sobre as melhores memórias sobre essa época que já mexe com a infância de tanta gente!

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João Belline

Jornalista de formação, louco dos esportes por opção. Depois de muito escalar Cartola, jogar Winning Eleven, escrever escalação dos sonhos no caderno e topar o dedão na rua, falar sobre futebol virou uma necessidade. É mais um leitor que buscou espaço no time da Trivela e entende que futebol está acima do clube.

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