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Ligas femininas da Europa se posicionam contra Copa do Mundo bienal: “Prejudicial ao desenvolvimento do futebol feminino”

Um conjunto de dez ligas, além da Uefa e da ECA, escreveu uma carta aberta à Fifa expressando suas preocupações com a ideia liderada por Arsène Wenger

Os planos da Fifa para realizar a Copa do Mundo masculina a cada dois anos, e talvez também a das mulheres, seriam prejudiciais ao desenvolvimento do futebol feminino, afirmou um conjunto de ligas femininas, assim como a Uefa e a Associação dos Clubes Europeus, em uma carta aberta à Fifa publicada nesta segunda-feira.

A Fifa começou uma revisão oficial da frequência dos seus torneios masculino, feminino e de categorias de base desde o seu congresso em maio deste ano, em que foi votado um estudo de viabilidade para explorar o impacto da realização dos Mundiais masculino e feminino a cada dois anos.

O francês Arsène Wenger está à frente do já conhecido plano para o futebol masculino de agrupar as janelas internacionais e realizar uma Copa do Mundo bienalmente. A ex-técnica da seleção feminina dos EUA, Jill Ellis, acabou de ser nomeada pela Fifa para desenvolver uma proposta similar para o jogo das mulheres.

A carta foi assinada pelas ligas de Dinamarca, Inglaterra (das duas principais divisões), Alemanha, Finlândia, Itália, Holanda, Romênia, Suécia e Suíça, além da Uefa e da ECA, entidade que representa mais de 230 clubes do continente europeu. Entre os principais campeonatos europeus, a ausência que se destaca é da liga espanhola.

“Os planos da Fifa para realizar as Copas do Mundo masculina e feminina a cada dois anos teriam impactos profundos prejudiciais no âmbito esportivo, econômico, social e muitos outros que alterariam fundamentalmente o curso e o desenvolvimento do futebol feminino”, disse a carta, que reclama também do processo de consulta acelerado da Fifa para avançar as suas ideias.

“A natureza acelerada do (até agora) muito seletivo processo de consulta e propostas que estão praticamente concordadas não permitiram uma reflexão cuidadosa sobre o que é melhor para o futuro desenvolvimento do futebol feminino ou avaliar adequadamente as possíveis consequências irreversíveis causadas por uma mudança dessas”.

“Para ficar claro, isto não é sobre a Europa defender a sua posição, nem uma questão de seleções versus futebol de clubes. Nossas preocupações giram em torno de nosso desejo por um desenvolvimento global equilibrado e inclusivo que dê a mulheres e garotas as melhores condições para jogar o jogo mais amado em todos os níveis e em todas as sociedades”, completou.

Em uma lista de preocupações, está o congestionamento de um calendário internacional feminino com mais torneios de grande importância; e o mesmo processo no calendário masculino acabaria prejudicando a visibilidade e o crescimento das competições de clubes, seleções e categorias de base do futebol feminino, além das ligas domésticas.

As ligas também citam maiores riscos às saúdes física e mental das principais jogadoras, devido à concentração de jogos de classificação, com períodos de preparação limitados, e o fardo maior colocado em cima de jogadoras durante as finais do torneio.

Elas acreditam que mudança interromperia o processo de profissionalização e investimento em andamento no futebol feminino e “portanto a ambição de criar empregos de tempo integral para jogadoras e estruturas que oferecem um ambiente de elite. Ainda há muito poucas ligas totalmente profissionais no mundo”.

Limitaria a expansão de campeonatos continentais de clubes e seleções e, ao contrário do que prega Wenger, também reduziria a oportunidade para países menores ou médios porque apenas os mais fortes teriam a capacidade e os recursos para competir tão regularmente, segundo a carta.

Por fim, as ligas estão preocupadas com a redução da exposição do futebol de seleções feminino ao longo da temporada, o impacto que isso teria em outros “grandes eventos esportivos”, como a Olimpíada, por exemplo, na qual o futebol feminino é uma das principais atrações e passaria a ter sempre a companhia da Copa do Mundo masculina, e da evasão de investidores por causa da saturações dos mercados, o que “prejudicaria a viabilidade financeira do futebol feminino”, criando ainda mais desigualdade em relação ao jogo masculino.

“Abordamos o futuro do desenvolvimento do jogo com uma mentalidade aberta e progressista, e agradecemos a intenção declarada de que a ideia da Copa do Mundo feminina a cada dois anos é para desenvolver o futebol e dar mais oportunidades para que ela seja disputada e sediada”.

“No entanto, uma proposta tão abrangente exige uma avaliação séria dentro do contexto em que ela está – o ecossistema do futebol feminino. Um ecossistema que está crescendo, mas não está totalmente maduro”.

“Um desenvolvimento maior do jogo que todos amamos pode acontecer apenas quando discutimos juntos, na mesma mesa, e com todos os impactados por uma decisão tão grande. É um equilíbrio delicado que precisa mostrar respeito e responsabilidade em todo o espectro de competições, jogadores, técnicos, torcedores, nações e cultura”.

“Tanta cooperação e abertura entre os envolvidos no futebol são a única solução de verdade para encontrar a melhor maneira para desenvolver o futebol feminino de uma maneira realmente global e que beneficie a todos”, encerrou.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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