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Crônicas da Copa #17: Press, a imprensa e o que emociona

Sem Megan Rapinoe? Como um dos pilares desta seleção pode iniciar a partida no banco em uma semifinal de Copa do Mundo? Seria uma opção tática de Jill Ellis? Poupando por questões físicas? O que pode ter acontecido? Lesionada? Ou ela está sendo conservada para ser lançada no momento certo? Foi diante destes questionamentos, de mistério e um mar de hesitação por parte de torcedores dos Estados Unidos, imprensa americana e todos nós que esperávamos um duelo particular entre Rapinoe e Lucy Bronze pelos flancos do campo que Christen Press começou jogando no lugar da camisa 15 contra a Inglaterra.

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No fim, tudo foi esclarecido. E deu certo. Rapinoe não estava em suas melhores condições. Na última preparação da seleção americana antes de encarar as adversárias, ela treinou com uma fita médica na coxa, indicando uma lesão na parte posterior. Como sua substituta, Press foi impecável. Pela esquerda, deu um trabalho danado à excelente lateral-direita, campeã da última Champions League com o Lyon, e sufocou a defesa inglesa.

A ótima performance da atacante foi condecorada com um dos dois gols que fizeram os Estados Unidos superarem o solitário marcado pelas europeias. Não foi falta de oportunidade, mas as inglesas simplesmente não conseguiram empatar o confronto depois de sofrerem 2 a 1 para, quem sabe, tentar uma sobrevida na prorrogação. Com o pênalti desperdiçado pela capitã Stephanie Houghton, o baque foi sentido por ela e por todas. O caminho da bola entre os pés de uma e outra era interrompido com facilidade quando a posse era da Inglaterra. Não dava mais para as atletas de Phil Neville.

Cheguei em casa do trabalho para assistir à partida com ela já em andamento. Perdi, no total, uns cinco minutos de jogo. Mas, para a minha sorte, a televisão da sala já estava sintonizada no SporTV logo quando abri a porta. Meu avô estava à frente dela, vendo duas seleções femininas se enfrentando. E prestando atenção a todos os detalhes, tanto é que ele narrou para mim o que havia acontecido nos minutos iniciais arriscando até a pronunciar o nome de uma ou outra jogadora.

Isso era inimaginável em 2015, quando comecei a olhar para o futebol feminino com mais carinho. Sentar ao lado do meu avô no sofá enquanto rola um clássico paulista, uma briga por primeiras posições em alguma liga europeia ou um confronto sem perspectiva para nenhum dos times pelo Campeonato Português sempre foi comum. Mas ele nunca gostou de me acompanhar nos jogos das Sereias da Vila em casa, mesmo me surpreendendo com ingressos para ver o Santos masculino jogar em diversas quartas-feiras à noite. E olha que de santista ele só tem o gentílico.

Christen Press marca gol dos EUA (divulgação/Fifa)

Mas muita coisa mudou da Copa do Mundo no Canadá para a da França, não é? Foi ao lado do meu companheiro de futebol no sofá da casa que moramos há quase 24 anos que não consegui conter as lágrimas durante a abertura do Mundial deste ano. Não sei, eu só me emocionei em escutar duas mulheres juntas, Ana Thais Matos e Nadja Mauad, comentando com aprofundamento as ações de outras mulheres em França x Coreia do Sul. Pode parecer tolo para alguns, mas para quem cresceu com pouquíssimas referências de mulheres no futebol, isso é muito.

Nem sempre quis ser jornalista. Por alguns anos da minha vida, pensei que trabalharia na ONU. Era um sonho. Na minha jovem e ingênua cabeça, eu imaginava que poderia erradicar todos os conflitos do Oriente Médio e da África diplomaticamente, como se não fossem questões de alta complexidade. Em 2016, eu migrei oficialmente de Relações Internacionais para Jornalismo. Mas mesmo antes de entrar na minha atual faculdade, meus olhos já brilhavam com o trabalho exercido por algumas mulheres no esporte, como Glenda Kozlowski, que aparecia diariamente na minha televisão para falar com tamanha propriedade e conhecimento sobre futebol e as modalidades olímpicas.

De uns tempos para cá – e eu não sei precisar quando, exatamente – foram aparecendo várias repórteres e apresentadoras e algumas comentaristas e narradoras esportivas. Ou elas sempre estiveram ali e nunca tiveram a visibilidade que merecem. Já não eram mais “Glendas” surgindo, e cada uma delas eu sabia nome e sobrenome. Hoje o que não faltam são espelhos e inspirações, mas uma, em si, merece a menção por fazer parte desse movimento e por ter uma grande parcela de influência em escolhas que fiz e rumos que tomei na vida profissional: Roberta Nina, uma das cabeças por trás das dibradoras. Sou grata a ela e a tenho como exemplo.

A ampla cobertura jornalística desta Copa do Mundo feminina por parte de profissionais mulheres tem fortificado a esperança de que o cenário para as que desejam viver do e no esporte no Brasil só tende a melhorar e ficar ainda maior, onde caibam todas que sonham com isso e se esforçam para garantir um lugar ao sol. Como mulher, me deixa extremamente emocionada ver colegas de profissão impulsionando não só a modalidade a se desenvolver e ganhar, cada vez mais, notoriedade, mas também ajudando outras mulheres a crescerem dentro do futebol, dando voz e rosto a elas. Me sinto representada.

Pode ser repetitivo, mas este Mundial de 2019 já era histórico antes mesmo da bola rolar. Para nós, brasileiras, ainda mais. Ter uma coletiva de imprensa para divulgar quem seriam as jogadoras que iriam para a França representar a Seleção, empresas interessadas em patrocinar o futebol feminino, a transmissão de todas partidas do Brasil, no horário que fossem, pela Globo e pela Band, veículos enviando repórteres para a Europa para cobrirem o dia a dia da seleção brasileira e o torneio em geral, análises táticas sobre como joga a equipe de Vadão, discussões embasadas sobre as atletas e opções dos treinadores. Tudo isso foi e está sendo especial.

Que Press, assim como Rapinoe, desfrute da quinta decisão de Copa da história para os Estados Unidos, e que o nível técnico, os recursos oferecidos e o apoio à modalidade se mantenham em uma crescente. Que mídias independentes especializadas, como o pioneiro Planeta Futebol Feminino e o mais recente na praça Jogadelas, fiquem cada vez maiores, e que possamos, emocionadas, ouvir, ler e ver mulheres falando de futebol feminino também fora dos períodos olímpicos e de data Fifa. Afinal, ele não para.

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Nathalia Perez

Jornalista em formação trabalhando a favor de um meio esportivo mais humano. Meus heróis sempre foram jogadores de futebol, mas hoje em dia são muito mais heroínas.

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