Sim, é mais do que justo que o futebol masculino pare por causa da Copa do Mundo Feminina
Brasil vai sediar a Mundial de 2027 em edição que busca fazer as pazes com a modalidade no país
Ao longo das últimas semanas, o fato do futebol feminino paralisar as atividades do futebol brasileiro masculino durante a Copa do Mundo de 2027, que terá o Brasil como sede, repercutiu intensamente na internet em um (não) debate marcado especialmente pela onda de ódio e machismo por parte de quem não acompanha a modalidade.
As falas contrárias a paralisação não vieram apenas de torcedores comuns, mas também partiram de alguém que comanda um dos maiores clubes do país. Na última semana, Luiz Eduardo Baptista, presidente do Flamengo, lamentou a interrupção do calendário masculino, indo publicamente contra algo que já era dado como certo no futebol brasileiro.
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A falta de argumentos esbarra até mesmo nos exemplos com o futebol masculino recente. Durante o Mundial de Clubes de 2025, as atividades no Brasil também foram suspensas durante um mês por causa da competição disputada nos EUA, que envolvia quatro clubes brasileiros (Flamengo, Fluminense, Botafogo e Palmeiras). Não houve reclamação alguma vinda de torcedores ou dirigentes.
Obviamente, no mês passado, a Copa do Mundo de 2026 foi o foco do mundo do futebol como sempre acontece e, por consequência, também interrompeu as atividades e o calendário do futebol nacional. Mais uma vez, diversos calendários em todos os continentes precisaram ser interrompidos. Mais uma vez, as pessoas seguiram com a sua vida sem demonstrar indignação.
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E o que aconteceu com a onda de ódio sobre o futebol de mulheres parece ser baseado em uma falta de inteligência seletiva já que, obviamente, um país que recebe um torneio de seleções de grande proporções necessita, obrigatoriamente, cumprir com diversos protocolos.
O primeiro deles consiste na utilização dos estádios. A Copa do Mundo 2027 terá a participação de 32 seleções em 64 jogos, espalhados por oito cidades (Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Fortaleza, Salvador, Brasília e Porto Alegre). Muitos dos estádios selecionados para receber a modalidade recebem jogos de clubes da Série A do Campeonato Brasileiro.
Uma das exigências da Fifa pede que os locais que vão receber os jogos tenham capacidade mínima de 20 mil lugares sentados para partidas da fase de grupos e até as quartas de final, com exceção da abertura do torneio.
Já para jogos de semifinais, a capacidade mínima de assentos é de 40 mil lugares. Nos casos da abertura e da final a exigência da capacidade mínima é de 65 mil lugares. Para que sejam utilizados no torneio de seleções, os espaços ficarão fechados e à disposição da Fifa com semanas de antecedência, como sempre ocorre nos torneios da entidade ao redor do planeta.
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Vale salientar que nenhum estádio precisará ser construído para receber o evento, como foi o caso da Copa do Mundo do Brasil, em 2014. Segundo o levantamento do “ge”, para construções, reformas e modernizações de estádios daquela edição do torneio houve gastos estimados em R$ 27,1 bilhões.
Para além das questões dos locais para os jogo, não se trata apenas de ceder ou não estádios ou centros de treinamentos. A logística de um torneio disputado em diferentes regiões de um país continental é complexa, e envolve demanda por acomodação e transportes, além de outros serviços (outro ganho para o Brasil, já que a competição movimenta a economia em diferentes setores).
Fifa também exige estratégias detalhadas para desenvolvimento do esporte no país-sede
O uso dos estádios já existentes que foram construídos na Copa do Mundo de 2014 está diretamente ligado a outra exigência da Fifa para sediar o Mundial 2027: um plano detalhado para desenvolvimento do esporte no país, o chamado “plano de legado”.
Segundo a própria entidade, esse plano “visa apoiar o desenvolvimento econômico e o bem-estar humano, com foco em segurança, sustentabilidade, acessibilidade e inclusão”.
Em 2022, após a Copa do Mundo do Catar, a agência “Reuters” noticiou que a Fifa lançou o fundo de legado para iniciativas com orgãos como Organização Mundial da Saúde, Organização Mundial de Comércio e Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados).
A ideia consiste em que parte das receitas de Copas do Mundo anteriores sejam colocadas em fundos disponíveis para o país anfitrião utilizar num desenvolvimento posterior do esporte local.
E é justamente sobre desenvolvimento da modalidade que toca especialmente o Brasil, um país que por 40 anos proibiu a prática do futebol de feminino. A decisão de paralisar os jogos –fato que não ocorreu na última edição, em 2023, quando o Mundial foi disputado na Austrália e na Nova Zelândia –, para além das questões burocráticas, tem como objetivo fazer com que a modalidade ganhe toda a visibilidade que merece.
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A Copa do Mundo de 2027 se apresenta como uma forma de reescrever os próximos passos da modalidade no Brasil. A edição deve ser histórica para a seleção brasileira, que vive um momento de transição em campo com uma Marta que, mesmo veterana mostrou recentemente que pode fazer a diferença para a equipe, caso seja convocada, representará exatamente esse momento de mudança de gerações.
Além da histórica atacante, o país deposita a esperança em nomes que estão em alta nas maiores ligas do mundo, como é o caso de Kerolin, que acaba de ser protagonista de uma transação histórica que a levou ao Barcelona.
Por tudo isso, há a expectativa de que a seleção brasileira, já com um trabalho sólido do técnico Arthur Elias, possa brigar pelo título inédito dentro de casa, algo que tornaria o torneio ainda mais marcante para a história da modalidade.
O Mundial de 2027 chegará para, finalmente, dar protagonismo a uma história de luta por direitos iguais e por uma possibilidade de fazer com que uma nova geração de meninas e mulheres voltem a sonhar, mas também para que o país reconheça a sua própria história, conheça as pioneiras, como jogavam, os desafios das primeiras competições, mas também as suas conquistas e glórias.
Aliás, para aqueles que dizem que “ninguém liga” para o futebol feminino, vale informar que mais de 730 mil pessoas já se inscreveram para adquirir ingressos para o torneio, sendo metade desse montante constituído por brasileiros, de acordo com o diretor de operações da Copa de 2027 da FIFA, Thiago Jannuzzi.
Com tudo isso dito, é sim mais do que justo que o futebol pare por causa da Copa do Mundo Feminina.