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O contraste gritante entre os Faraós e as Cleópatras: futebol feminino do Egito é prejudicado pelo machismo

Enquanto os homens vão em busca do oitavo título da Copa das Nações Africanas, a seleção de futebol feminino do Egito sequer se classificou para o torneio devido à falta de organização e investimento

A falta de estímulo ao futebol feminino é um problema mundial. Não à toa, isso também acontece no Egito. Enquanto os Faraós – apelido dado à seleção masculina – vão em busca do oitavo título da Copa das Nações Africanas, as Cleópatras – como são conhecidas as mulheres da seleção feminina – sequer se classificaram para o torneio.

E o que explica o contraste gritante entre os jogadores e jogadoras do país é o machismo, que prejudica o desenvolvimento do esporte para as mulheres devido à falta de organização, investimento e interesse. Os egípcios são os maiores campeões da Copa das Nações da África e vão em busca de fazer história na Costa do Marfim- sede do próximo torneio – em janeiro. Já as egípcias ficaram de fora da Copa Africana de Nações Feminina de 2024, que será disputada em Marrocos.

A seleção egípcia feminina perdeu para Senegal por 4 x 0 no agregado, na fase final do classificatório à Copa das Nações Africanas Feminina, na última semana. Uma das partidas foi disputada no Al Salam, que tem capacidade para 30 mil pessoas. Contudo, cerca de apenas 1000 pessoas, a maioria em idade escolar, compareceram ao estádio para assistir à decisão das Cleópatras.

Em entrevista ao The Guardian, Inas Mazhar, um dos maiores jornalistas esportivos do Egito, o país não tem o costume de apoiar o futebol feminino. Para ele, isso é justificado pelo preconceito dos egípcios com as mulheres praticando o esporte. Ou seja, o machismo é uma das grandes barreiras para o país mais populoso do norte da África:

“As pessoas geralmente não se importam com o futebol feminino no Egito. Muitos pensam que o futebol não é um jogo para mulheres e têm essa visão arcaica de que aquelas que jogam futebol não estão em sintonia com a nossa feminilidade e cultura. É uma grande barreira para o crescimento do jogo aqui”.

As dificuldades do futebol feminino no Egito

A Copa das Nações Africanas Feminina foi criada em 1998. De lá para cá, as Cleópatras disputaram apenas duas edições da competição, sendo a última em 2016. A seleção comandada por Mohamed Kamala terá que esperar mais alguns anos para participar do principal torneio feminino do continente. E o fracasso em se classificar é um resultado das dificuldades do futebol feminino no Egito.

Ninguém da seleção egípcia feminina falou com a imprensa após não garantir vaga na Copa das Nações da África. As Cleópatras foram procuradas pelo The Guardian para opinarem sobre a situação do futebol feminino no país, mas não teceram qualquer comentário. O porta-voz da equipe, Mohamed El-Sayegh, explicou o motivo:

“Todas se recusaram nesse momento a realizar qualquer entrevista, devido à proibição da mídia na equipe (por não ter se qualificado para a Copa Africana de Nações Feminina). Serão impostas multas financeiras se falarem com a imprensa”.

Em resumo, elas foram vetadas de se posicionar sobre a situação do futebol feminino no Egito. A liga feminina do país começou em 2000 e conta com 16 equipes. Wadi Degla são as atuais campeãs, porém, o interesse dos torcedores é baixo e não há patrocínio para a competição.

A Confederação Africana de Futebol (CAF) tornou a formação e propriedade ativa de equipes femininas uma condição para os clubes serem elegíveis à disputa da Champions League Africana. Agora, os gigantes Al Ahly e Zamalek, por exemplo, são obrigados a desenvolver seus times femininos.

Só que o problema não será resolvido somente com isso. Se a Federação Egípcia de Futebol não desenvolver um plano diretor para o crescimento do futebol feminino, a realidade não irá mudar. E exemplos de sucesso não faltam.

Com investimento e organização, Marrocos alcançou a final da Copa das Nações Africanas Feminina em 2022 e se tornou o primeiro país árabe a chegar à Copa do Mundo Feminina neste ano, quando inclusive avançou até às oitavas de final. O crescimento sistêmico e organizado do futebol feminino egípcio precisa de atenção e disciplina para ser implementado. Agora, resta saber se tudo isso será realizado no futuro.

Foto de Matheus Cristianini

Matheus Cristianini

Jornalista formado pela Unesp, com passagens por Antenados no Futebol, Bolavip Brasil, Minha Torcida e Esportelândia. Na Trivela, é redator de futebol nacional e internacional.
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