‘O futebol feminino enfrenta um conflito de interesses que não pode ignorar’
Envolvimento da empresa da magnata Michele Kang com a Fifa é considerado alarmante na opinião de jornalista, mas também reflete outro problema na modalidade
A empresa Kynisca foi anunciada pela Fifa como parceira da primeira Copa das Campeãs, que ocorre entre 28 de janeiro e 1º de fevereiro de 2026. O acordo é fundamentado em “criar novas oportunidades para o futebol feminino e aumentar a visibilidade a atletas”, segundo o comunicado da entidade. No entanto, há controvérsia.
A companhia pertence a Michele Kang, magnata do futebol feminino que tem participação em três clubes: Washington Spirit (Estados Unidos), Lyon (França) e London City Lionesses (Inglaterra). Tom Garry, jornalista do jornal “The Guardian” especializado na categoria, argumentou que o envolvimento da Kynisca em torneios acende alerta na modalidade.
— Por mais bem intencionada que seja a parceria, o futebol feminino agora tem um conflito de interesses que não se pode ignorar — escreveu ele em coluna no jornal.
Por que investimentos da Kynisca, de Michele Kang, pode ser um problema no futebol feminino?
Kang é uma empresária sul-coreana que sempre proporcionou incentivos ao futebol feminino. Tudo começou com interesse filantrópico e evoluiu ao longo dos anos até que ela se tornasse grande nome em investimentos da modalidade.
Fontes próximas à magnata disseram ao colunista que acreditam que a parceria com a Fifa é “totalmente inocente” e seu foco sempre foi a ascensão mundial do futebol de mulheres.

Segundo Garry, a Fifa justificou que a parceria firmada com a Kynisca na Copa das Campeãs é válida apenas para 2026 e ocorreu porque nenhum dos clubes de Kang disputa a competição. Arsenal, ASFAR, Corinthians e Gotham FC estão na briga pelo título em Londres.
— Isso é como dizer que é adequado a empresa de produção de Ryan Reynolds se torne parceira da Premier League nesta temporada porque o Wrexham ainda não conquistou a promoção à elite — comparou.
— As percepções importam, e mesmo que isso seja acordo para um único torneio, o risco de clubes rivais acusarem a Fifa de parcialidade no futuro agora é provavelmente irreparável. Se o Washington Spirit estiver na próxima Copa das Campeãs e receber um sorteio favorável, torcedores vão ficar desconfiados por causa desse acordo comercial. Para alguns, o estrago já está feito– complementou ele.
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Alerta deve ir além de torneios da Fifa, segundo Garry
Garry também fez comparações para explicar como o envolvimento de Kang no futebol feminino dos Estados Unidos pode gerar problemas. A sul-coreana proprietária do Washington Spirit, da NWSL, acertou em 2024 “doação histórica” de 30 milhões de dólares (R$ 158,6 milhões) à categoria ao longo de cinco anos. É a maior recebida pela US Soccer, federação do país.
Em 2025, a entidade lançou a “Kang Women’s Institute”, plataforma focada em acelerar avanços no futebol feminino por meio da “ciência, inovação e boas práticas”.
— Dá para imaginar o colapso que ocorreria nas redes sociais se Stan Kroenke (dono do Arsenal), Todd Boehly (dono do Chelsea) ou a família Glazer (dona do Manchester United) firmassem parceria com a FA (federação inglesa)? (…) De modo geral, o futebol feminino em todo o mundo celebrou a generosidade da empresária ao invés de questionar o acordo.
Isso remeteu a outro ponto de reflexão principalmente no elo entre Kynisca e Fifa: escassez de investimentos. “É triste que haja poucos financiadores para o futebol feminino que os organizadores têm que recorrer a proprietários dos clubes para investir ao invés de fontes imparciais”, escreveu o jornalista.



