Situação no Barcelona mostra que futebol segue punindo as mulheres para priorizar os homens
A potência espanhola tornou-se um dos principais times da elite do futebol feminino europeu e mundial na última década, mas agora corre riscos
Se o conselho é “em time que está ganhando não se mexe”, o Barcelona não conhece — ou preferiu ir na contramão. A equipe espanhola decidiu desmontar a equipe de futebol feminino, que acumulou várias conquistas e grandes públicos ao longo dos últimos anos, devido à crise financeira que afeta todas as áreas do clube.
O Barcelona feminino tornou-se um dos principais times da elite do futebol feminino europeu e mundial na última década, passando também a se tornar um movimento símbolo da potência da modalidade.
Nos últimos 10 anos, chegou à final da Champions League seis vezes, somando três troféus. Ao longo da década, também foi campeão espanhol seis vezes consecutivas e conquistou a Copa da Rainha e a Supercopa da Espanha ao longo do caminho.
A lista de prêmios também tem conquitras individuais, já que o plantel profissional conta com algumas das melhores jogadoras do mundo, fruto também do desenvolvimento das categorias de base, como foi o caso de Aitana Bonmatí e Alexia Putellas, ambas vencedoras da Bola de Ouro.

Entretanto, o que parecia ser uma equipe formada para permanecer no topo da modalidade por longos anos agora enfrenta uma realidade difícil de acreditar, com o desmonte em larga escala de um dos times mais vencedores do futebol feminino nos últimos anos.
As dívidas do Barcelona
De acordo com o “The Athletic”, o clube (incluindo os times feminino e masculino) opera na janela de transferências com uma dívida de 1 bilhão de euros (R$ 6 bilhões) e tem gastado consistentemente mais do que o permitido em salários, quebrando o limite salarial de LaLiga calculado para cada clube de acordo com sua renda.
Para 2024/25, o Barcelona orçou 319 milhões de euros (R$ 2 bilhões) em salários para a equipe masculina, em comparação com os 11 milhões de euros (R$ 69 milhões) para a feminina. Já o departamento de futebol de base recebeu R$ 107 milhões.
Enquanto a situação financeira do Barcelona continua a se entrelaçar de forma complexa fora de campo, o time permanecia se destacando e brigando pelos principais títulos. No entanto, a equipe feminina anunciou a saída de 17 jogadoras que foram essenciais nas últimas temporadas para a construção da potência da modalidade, o que chamou a atenção do mundo para as movimentações e gerou questionamentos sobre a gestão do clube.

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Prioridade para o masculino
Apesar dos diferentes motivos para as saída das jogadoras, o tópico em comum seria a necessidade do Barcelona em economizar dinheiro, já que as regras de fair play financeiro de LaLiga incluem a equipe feminina, a masculina e todas as outras categorias do clube.
Contudo, enquanto a equipe masculina enfrentou um problema semelhante, o clube, ainda assim, não mediu esforços para contratar Marcus Rashford por empréstimo até o final da temporada, além da chegada do goleiro Joan García, em manobra que consistiu no uso espaço salarial devido à lesão de Marc-André ter Stegen.
Como estão gastando mais com salários do que LaLiga permite (o teto salarial de cada clube é calculado de acordo com sua receita), para se adequar às regras, eles precisam aumentar a receita ou cortar sua folha de pagamento.

De imediato, os espanhóis optaram pela segunda opção. Ainda assim, é difícil tentar entender o foco do desmonte ter acontecido na equipe feminina, já que as possibilidades para a ação poderiam ser caso o projeto não estivesse mais funcionando a nível esportivo ou se não estivesse gerando lucro. O primeiro não é o caso e o segundo também.
O Barcelona investiu pesado em sua equipe feminina e compete em alto nível todos os anos, gerando grandes conquistas ao longo das temporadas, além de ter tornado a equipe em uma grande força comercial em todo o mundo.
Em 2025, completa dez anos desde que clube assumiu o compromisso com a modalidade com a profissionalização do time feminino. O outro comprometimento aconteceu em 2019, quando decidiu fazer do Barcelona o melhor time da Europa, feito que conseguiu em apenas dois anos.
No entanto, as atitudes do Barcelona reforçam que a prioridade — que sempre foi, mas agora ainda mais — é o time masculino, mesmo que os números estejam a favor das mulheres.
Essa escolha reforça a misoginia e mostra que futebol segue punindo as mulheres para priorizar os homens, mesmo quando os resultados estão do lado delas.
O “The Athletic” destacou que o pior cenário seria que a equipe feminina do Barcelona fosse afetada em termos esportivos e, como resultado, se tornasse menos competitiva nesta temporada.
Uma queda nos recursos e no desempenho também poderia levar à perda de talentos do clube, já que muitas jogadoras permaneceram no Barcelona por causa do projeto oferecido pelo clube, e não pelas ligas disputadas.
Um dos fatores que acenderam um alerta foi a derrota na final da Champions League de 2024/25 para o Arsenal. Jogo, inclusive, que ficou marcado pela despedida de atletas que fizeram história com o clube durante a disputa de grandes torneios e conquista de títulos.
Como lembrou o veículo, nenhuma jogadora-chave foi vendida, mas elas não podem passar a temporada inteira apenas com um grupo principal de jogadoras. As peças reservas também serão importantes durante a temporada para lidar com a quantidade de jogos, lesões ou outras situações comuns do esporte.

Quais jogadoras saíram e quais estão com contrato perto de expirar
Durante a janela que antecede o início da temporada, Fridolina Rolfö, Ellie Roebuck e Jana Fernández saíram devido a rescisões contratuais, enquanto Ingrid Engen encerrou seu contrato e foi para o Lyon.
Também estão de saída as jovens Martina Fernández, que estava emprestada ao Everton, e Bruna Vilamala, que foi para o América do México. Somam-se a isso jogadores jovens como Judit Pujols, Alba Caño (que segue emprestada pelos próximos seis meses), Ona Baradad, Onyeka Gamero e Noa Ortega.
Outras jogadoras que seguem no risco da não renovação de contrato é Salma Paraluello e Mapi León, ambas com acordo até junho de 2026.
No mesmo período, há a expiração de contrato da atual jogadora símbolo do clube, Alexia Putellas. Aitana, a outra grande destaque, tem vínculo com o Barcelona até 2028. No caso de Putellas, há opção de renovação por mais um ano.

As despedidas do elenco se tornaram comuns, já que em 2023/24, doze jogadoras deixaram o plantel, incluindo o técnico Jonatan Giráldez, que comandou o time rumo aos seus maiores sucessos.
Atualmente, apenas 15 jogadoras que participaram das conquistas históricas permanecem no clube: Cata Coll, Gemma Font, Irene Paredes, Ona Batlle, Mapi León, Torrejón, Patri Guijaro, Aitana Bonmatí, Alexia Putellas, Caroline Graham Hamsen, Salma Paraluello, Brugts, Pina, Vicky e Corrales.
Como pontuou o “The Athletic”, as próximas a renovar seus contratos são peças-chave para esta equipe. As decisões de permanecer ou deixar o clube (especialmente das jogadoras históricas da equipe, como Aitana e Alexia) podem moldar o futuro da modalidade.
Caso as saídas sejam decididas, aí que o futuro realmente começará a se complicar para o Barcelona, em uma jogada que preteriu o futebol feminino — que segue em ascensão em todo o mundo –, devido à uma má gestão que sempre priorizou o futebol dos homens.



