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PSG volta a permitir a presença de ultras no Parc des Princes, após seis anos de proibição

Esqueça o discurso proferido tantas vezes no Brasil sobre os torcedores do Paris Saint-Germain. Ele não diz muito sobre a real história vivida nas arquibancadas do Parc dos Princes desde a década de 1970. Nem de longe o PSG era um clube ‘sem torcida’ em seus tempos menos abastados. Pelo contrário, os grupos de ultras do clube estavam entre os maiores da França, mas também entre os mais temidos da Europa. No final da década passada, o derramamento de sangue levou à extinção forçada pela polícia das duas principais facções, enquanto os dirigentes passaram a proibir a presença de organizados a partir de 2010 – ou seja, um ano antes da chegada dos catarianos. Neste momento, entretanto, a reconciliação parece próxima. E, após a iniciativa do próprio presidente Nasser Al-Khelaifi, a polícia da prefeitura de Paris deu seu sinal verde para que os ultras retornem à curva do Parc des Princes, desde que atendam condições estritas de segurança.

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A forte presença dos hooligans nos jogos do Paris Saint-Germain tem origem na própria história do clube. Fundado em 1970, como união de outros times na tentativa de se tornar a principal potência do futebol parisiense, o PSG encontrou dificuldades para atrair público em seus primeiros anos. No entanto, a popularização da equipe não se desenvolveu apenas em torno do futebol. Alguns grupos nascidos nas periferias de Paris e inspirados nas firms britânicas passaram a ser cada vez mais sentidos no Parc des Princes. Eles se reuniam não apenas para ver os jogos, mas também para espalhar a violência e defender bandeiras extremistas.

A partir dos anos 1980, inúmeros foram os episódios de intolerância envolvendo os chamados Boulogne Boys. O segregacionismo marcava muitas das ações da facção, especialmente pela xenofobia contra imigrantes da periferia parisiense e torcedores do interior. A maior rixa se formou contra o Olympique de Marseille, o clube mais popular do país, de forte caráter regional, apoiado por uma massa considerável de imigrantes e de uma cidade com rivalidade histórica com a capital. Barril de pólvora mais do que evidente, tornando comum os clássicos com torcida única entre ambos.

Nos anos 2000, os incidentes chegaram a extremos. O PSG passou a contar com outros grupos de ultras formados por imigrantes de Paris, o que impulsionou os conflitos entre as diferentes facções do próprio clube. Em 2006, um membro dos Boulogne Boys morreu, ao ser baleado por um policial que saiu em defesa de um torcedor do Hapoel Tel-Aviv, agredido antes de partida pela Copa da Uefa. Já em 2008, a firma acabou dissolvida, após exibir faixas na decisão da Copa da Liga Francesa chamando os torcedores do Lens de “vagabundos pedófilos e incestuosos”. O que não encerrou necessariamente a violência. Meses depois, a guerra voltou a se intensificar até que, em 2010, antes de um clássico contra o Olympique de Marseille, um membro do Supras Auteuil (uma das facções rivais, formada por imigrantes) assassinou um dos líderes do Boulogne Boys. O estopim para o banimento dos ultras.

Desde então, o PSG não ofereceu mais trégua aos antigos ocupantes da curva. Apesar da redução nos episódios de violência, o que também se sentiu foi um impacto da atmosfera do estádio. Querendo ou não, os ultras também cumpriam o seu papel como torcedores, empurrando a equipe e promovendo algumas ações nas arquibancadas, como mosaicos e bandeirões. Neste sentido é que Al-Khelaifi vislumbrou a reconciliação. Porém, a polícia parisiense já deixou bem claro que dará poucas concessões. O retorno não precisa significar, necessariamente, a volta das batalhas, e o próprio presidente afirmou que vetará os organizados novamente, caso qualquer incidente seja registrado.

Em enquete organizada pelo site da France Football, 75% dos leitores aprovam a volta dos grupos de ultras, dentro de medidas restritas. E o primeiro teste acontece já neste domingo, em partida contra o Bordeaux. O clube permitirá a entrada de 100 a 150 membros do Collectif Ultras Paris no Parc des Princes. Todos eles comprarão os ingressos individualmente e, por isso, serão identificados, na tentativa de controlar qualquer incidente. É ver como se dará o teste. Se for para voltar apenas com o barulho e a festa nas arquibancadas, não com a violência e a intolerância, a iniciativa do PSG é mais do que válida, é necessária.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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