França, Ramadã e futebol: proibição de jejum diz muito sobre intolerância
Mahamadou Diawara deixou a delegação da França sub-19 na última semana após não poder jejuar por proibição
A Federação Francesa de Futebol (FFF) adotou um cronograma quase que escolar para todas as categorias de seleções. Os atletas devem seguir horários estabelecidos para as atividades diárias, incluindo os períodos de alimentação, e não há brecha nisso. Então, como um jogador muçulmano, que observa o jejum durante o Ramadã (nono mês do calendário islâmico baseado nos ciclos da Lua), pode se adaptar a isso? Na verdade, não há adaptação, e o atleta precisaria abdicar do jejum para jogar à serviço do selecionado francês. Com isso, o meio-campista Mahamadou Diawara, muçulmano descendente de malineses, abandonou o time sub-19 do país na última semana e reacendeu uma polêmica sobre liberdade religiosa e intolerância na França.
Não é o primeiro problema envolvendo FFF, que afirma buscar “neutralidade na prática esportiva”, segundo o presidente Philippe Diallo em entrevista ao jornal Le Figaro, e atletas muçulmanos. No ano passado, a federação proibiu paralisar as partidas na França para os muçulmanos quebrarem o jejum (chamado de iftar) durante o mês sagrado do Ramadã — em direção contrária, a Premier League permite o interrompimento dos jogos desde 2021. Como no caso de Diawara, justificaram a ação porque o estado francês é laico, ou seja, não possui uma religião e nem se opõe a qualquer fé. Ainda em 2023, a federação e o técnico da seleção principal, Didier Deschamps, pediram aos jogadores muçulmanos convocados que adiassem o jejum do Ramadã, medida não obrigatória.
É uma história que não se vê apenas no futebol local, mas na sociedade francesa. Para entender mais dessa polêmica, a Trivela ouviu especialistas no assunto para entender o Ramadã e a importância disso para os muçulmanos, além de nutricionistas para entender se é possível praticar futebol de alto rendimento durante o jejum.
O que é o Ramadã e como essa proibição é intolerante?
Existem cinco pilares na fé muçulmana e o Ramadã é um deles, sendo um período sagrado no qual os adeptos ao islã permanecem sem ingerir alimentos (ou até líquidos) entre o nascer e o pôr do sol durante cerca de um mês, alterado a cada ano. Em 2024, o jejum iniciou em 11 de março e seguirá até meados de 9 de abril.
— O Ramadã é o quarto pilar da fé muçulmana, então é algo muito importante para a religião. É um mês inteiro no qual os muçulmanos têm que observar o jejum, que significa não se alimentar do nascer ao pôr do sol, e, dependendo do rigor, mesmo beber água é algo que deveria ser evitado. É uma forma de se conectar com Allah e de refletir acerca da sua condição como muçulmano. O jejum tem essa função. Para os muçulmanos, principalmente os mais praticantes, é algo muito, muito importante na vida deles — explicou Tanguy Baghdadi, professor de política internacional, à Trivela.
Além de jejuar, os muçulmanos leem o Alcorão, o livro sagrado do Islã, e realizam orações diárias para se livrar dos pecados.
Hoje, a França tem cerca de 10% de muçulmanos em sua população e, pautado na postura laica, tem adotado medidas para evitar representações de religiões. Por exemplo, mulheres e meninas muçulmanas não podem usar o hijab ou a abaya (vestido que cobre todo o corpo, com exceção de cabeça, pescoço, mãos e pés) em repartições públicas, como escolas, e o uso também é proibido na prática do futebol feminino.
— Existem visões bastante diferentes na sociedade francesa sobre o islã. Existe naturalmente uma parte muito tolerante, uma parte que aceita, que gosta do elemento multicultural e considera que o islã, os muçulmanos de uma forma geral, contribuem e enriquecem a sociedade francesa. Mas claro que há setores mais conservadores que consideram que o islã começou a se tornar um problema na França pelo fato de que gera uma série de tensões e de demandas, inclusive afetando a capacidade que o estado laico tem de funcionar. Por exemplo, os muçulmanos querem usar o véu, mesmo em repartições públicas, o que tornaria, portanto, um problema para eles. É claro que nisso entra também uma abordagem preconceituosa. Acaba abrindo espaço também para argumentos bastante preconceituosos com relação ao islã e os muçulmanos em geral — afirmou Baghdadi.
O professor, também comentarista de política internacional no canal GloboNews, não acredita que a medida seja intolerância religiosa da Federação Francesa porque vê a alimentação como fundamental para prática esportiva.
Por outro lado, a pesquisadora Camila Zambo, integrante do podcast Ponta de Lança, especializado em política, cultura e esporte no continente africano, considera que a proibição do jejum, somado a outras medidas restritivas do Estado Francês em relação às expressões religiosas, é mais um capítulo de intolerância na França.
— É muito notável que todas as proibições acabam sendo, de certa forma, moldadas para afetar a comunidade muçulmana. A proibição do hijab é muito específica, da abaya nas escolas e a proibição do jejum também são. Então, eu acredito que seja intolerância. Vale citar que as medidas também afetam muito a comunidade judaica, porque a proibição de símbolos ostensivamente religiosos vai afetar, por exemplo, judeus que usam kippah.
Obviamente, essa representatividade de muçulmanos na sociedade francesa se reflete no futebol. O caso de atleta mais conhecido é o descendente de argelinos Karim Benzema, ex-Real Madrid e hoje na Arábia Saudita (onde, inclusive, diz se sentir bem por conta da religião), que já revelou várias vezes que não interrompe o jejum do Ramadã enquanto joga futebol. Em 2023, à época como o melhor jogador do mundo pela Bola de Ouro, marcou dois hat-tricks seguidos no mês sagrado do islã.
Isso mostra como é possível praticar o esporte de alto rendimento ao mesmo tempo do jejum. No entanto, isso não quer dizer que não tenha questões nutricionais a serem colocadas, conforme explicaram especialistas entrevistadas pela Trivela.
O Ramadã se inicia hoje e Karim Benzema e Antonio Rüdiger seguem a risca esse período.
O Ramadã é um período sagrado para aqueles que seguem o islamismo e exige um jejum rigoroso para os seus praticantes. São 30 dias sem alimentos e bebidas desde o amanhecer até o entardecer do… pic.twitter.com/QHX8RGgkJH
— MADRIDISTAS 🇧🇷 (@MADRlDISTAS) March 23, 2023
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Jejum e a prática do futebol: há maléficios ao físico do atleta?
Como aponta a nutricionista Fernanda Gerheim, da empresa Conexa, o jejum durante o dia “pode apresentar desafios importantes” aos jogadores de futebol no ponto de vista nutricional. Isso porque pode haver uma quebra no ciclo circadiano (conhecido como relógio biológico), que regula as principais atividades no organismo, seja o metabolismo, períodos de sono, dentre outros, e a produção de hormônios.
— Tudo isso acaba prejudicando o desempenho dos jogadores que dependem de um ciclo regular para se recuperarem dos treinos e jogos. Além disso, há riscos de falta de energia, desidratação e deficiências de vitaminas e minerais essenciais para a saúde e o desempenho — expôs Gerheim.
— Quando a dieta está adequada as necessidades do esportista ou do atleta, ele estará em melhores condições para se adaptar ao estímulo do exercício e apresentar menores riscos a lesões e enfermidades. Atletas que restringem o consumo alimentar por muito tempo, que consomem alimentos em quantidade abaixo do que necessitam ou que eliminam de suas refeições algum grupo de alimentos, que restringem a ingestão calórica seja por motivo religioso, ou outro, sem qualquer orientação de um profissional especialista, como o nutricionista esportivo, estão em maior risco de inadequação nutricional e mais susceptíveis a problemas de saúde — reiterou a nutricionista esportiva Jamille Magalhães.
A Dr.ᵃ Juliana Saldanha, nutricionista do Departamento de Cardiometabolismo da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), traz ainda o ponto mais importante: o impacto no sono. Ao efetuar o jejum e se alimentar durante a noite, o atleta pode ter uma piora no sono. Isso foi comprovado por estudos com jogadores de futebol muçulmanos durante o Ramadã.
— Ao jejuar de dia, mantendo as atividades diurnas normais, e comendo durante a noite, quando deveria estar descansando, o atleta pode ter seu sono prejudicado e isso pode comprometer seu rendimento durante o dia. Nesse sentido, alguns estudos já mostraram esse efeito do jejum do Ramadã sobre o sono de atletas do futebol. Em 2022, uma meta-análise e revisão sistemática do Journal of Sleep Research mostrou que atletas de futebol que continuavam a treinar durante o Ramadã tinham redução na duração do sono e piora da qualidade do mesmo. Tendo sido relatado anteriormente (em 2020) pelo British Journal of Sports Medicine um resultado semelhante quando os autores dessa meta-análise observaram uma redução no tempo total de sono de atletas que treinavam pelo menos 2 vezes por semana durante o Ramadã.
No entanto, apesar dessas questões, há formas dos jogadores, clubes e federações se adaptarem ao Ramadã e os especialistas nos explicam.
Adaptações ao Ramadã são possíveis – no aspecto nutricional, religioso e esportivo

Foi unanime entre as três nutricionistas ouvidas pela reportagem: com o acompanhamento de um profissional nutricional, é possível adaptar as dietas e cuidados no período do Ramadã. Um estudo da Fifa, de 2012, apontou que não houve problemas bioquímicas, nutricionais, de bem-estar subjetivo ou de desempenho em jogadores que faziam o jejum do Ramadã em um ambiente controlado, no entanto, o estudo não incluiu atletas de elite e não mediu o desempenho do jogo.
— Seria possível encontrar uma forma de adaptar a rotina de treinos e, principalmente, a dieta dos atletas nessa situação que dura um mês durante o ano e não o ano todo. Para isso, no entanto, uma equipe multidisciplinar especializada, precisaria estar mais envolvida com o atleta nessa condição, acompanhando-o de forma individualizada e mais próxima, ainda sem a certeza de que o atleta responderá no mesmo nível dos demais atletas — afirmou Juliana Saldanha, que também é PhD em Ciências Médicas pela Universidade Federal Fluminense e pela Université Claude Bernard em Lyon, na França.
A adaptação em treinamentos é o que está sendo feito pelo zagueiro Antonio Rüdiger neste momento no Real Madrid, como contou ao jornal Marca, ao lado do jovem Arda Güler, de apenas 19 anos, ambos muçulmanos. O defensor alemão, com raízes em Serra Leoa, afirmou ser difícil adequar e aposta na mentalidade para cumprir o Ramadã, além de fazer um acompanhamento com uma nutricionista — como aconselha Fernando Gerheim.
— Durante o período do Ramadã, a alimentação dos jogadores pode variar de acordo com suas necessidades individuais. No entanto, é possível oferecer algumas diretrizes gerais que podem auxiliar os atletas a manter uma alimentação adequada e sustentável durante o jejum religioso. A quebra do jejum deve incluir alimentos leves e hidratantes. […] Cada jogador possui necessidades específicas, como intolerâncias alimentares, metas de treinamento e características metabólicas únicas. Portanto, é crucial um planejamento individualizado com o acompanhamento de um nutricionista esportivo, que poderá ajustar as recomendações de acordo com essas particularidades, garantindo assim uma alimentação que atenda às demandas específicas de cada atleta durante o Ramadã.
Além dos aspectos nutricionais, também é possível adaptar o Ramadã segundo o Alcorão, como conta o professor Tanguy Baghdadi.
— O que o Alcorão diz é que a pessoa deve observar o jejum sempre que possível, então não há uma obrigação no Islã da pessoa observar o jejum em qualquer situação. Por exemplo, não deve ser observado por pessoas doentes, que eventualmente precisem se alimentar por uma questão vital. Se houver essa abertura, atletas podem entrar nesse caso. É exatamente no caso de que o atleta pense: ‘vou jogar uma competição importante, pode ser a competição da minha vida, pode ser algo muito importante para mim e, portanto, eu estaria autorizado a não observar o jejum’. É claro que uma visão mais rígida da coisa vai dizer que não é possível e a pessoa não vai se alimentar, mas existe a possibilidade de se abrir uma brecha caso haja uma necessidade maior.
Camila Zambo também explica haver outras formas de “substituir” o período de jejum do islã: “Vamos supor que o jogador perdeu 15 dias de jejum, então ele vai ter que ficar outros 15 dias, em algum momento do ano, jejuando para repor. Também pode fazer uma doação financeira para alguma instrução de caridade, pela caridade ser um dos cinco pilares do islã, assim como o jejum no Ramadã, ou ele doa comida para quem não tem. Inclusive, entender que algumas pessoas que estão em vulnerabilidade social e que passam, por exemplo, por insegurança alimentar, é um dos sentidos do Ramadã. É possível e seria totalmente compensável.
Porém, como Rüdiger, alguns jogadores não querem abdicar do Ramadã pela importância ao Islã, como citado no início da reportagem. Neste cenário, a medida de proibição da Federação Francesa pode afastar talentos, como entende Zambo, e eles deveriam se adaptar ao invés de restringir. A pesquisadora utilizou como exemplo o atacante Amine Gouiri, que esteve na seleção francesa sub-20 no último ano e, segundo o jornal L’Equipe, iria fazer uma greve junto de outros atletas pressionados por dirigentes a abandonar o jejum do Ramadã — à época, o craque Kylian Mbappé teve que intervir para impedir a rebelião. Poucos meses depois, Gouiri optou por defender a Argélia ao invés dos Les Bleus.
— E se eles [França] têm interesse em manter esses talentos [adeptos ao Islã] jogando pela seleção francesa, eles precisam repensar essas políticas. Porque o que vai acontecer é que muitos desses jogadores vão procurar as seleções de sua origem, na África ou Ásia, pois eles estão se sentindo isolados, talvez até acuado. A pessoa não pode ser muçulmana, ela não pode acreditar em determinadas coisas, não pode seguir determinadas coisas. Provavelmente não vai mudar [na Federação Francesa], enquanto do outro lado uma seleção africana ou asiática vai ter pessoas com a mesma forma de pensar, às vezes que vieram até do mesmo país, e estão livres para praticarem o Islã da forma que eles pensam ser a melhor e que eles acreditam — finalizou Zambo.
(2/2) Mes années passées en équipe de France resteront à jamais gravées en moi. Merci pour tout. L’heure est venue d’entamer un nouveau chapitre.
💚🤍 تحيا الجزائر
AG
— Amine Gouiri (@aminegouiri) September 26, 2023


