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Momento excepcional de Benzema e necessidades da seleção abriram o caminho para a reconciliação do jogador com Deschamps

Atacante do Real Madrid foi novamente convocado para a seleção francesa depois de mais de cinco anos e meio sem defender a equipe

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Mais de cinco anos e meio após a sua última partida pela seleção francesa, Karim Benzema foi enfim convocado novamente para defender os Bleus. O técnico Didier Deschamps incluiu o atacante em sua lista de 26 nomes para a disputa da Eurocopa, que começa em 11 de junho. A reconciliação, que por muito tempo pareceu impossível, acontece em um momento de “necessidade recíproca”, como bem definiu Deschamps, e em que a potência de Benzema e o valor que ele poderia trazer à equipe já não podiam mais ser ignorados.

Desde a saída de Cristiano Ronaldo para a Juventus em 2018, Karim Benzema assumiu o posto de líder técnico do Real Madrid e acumulou grandes atuações e muito protagonismo nos melhores momentos da equipe merengue no período.

Enquanto parceiro do português, o camisa 9 havia desenvolvido a sua contribuição coletiva ao se sacrificar para o sucesso do antigo camisa 7, sobre quem estava naturalmente concentrado o jogo ofensivo madridista. Após a saída de Ronaldo, Benzema acrescentou ao seu jogo mais gols, já que havia se tornado o ponto focal ofensivo. Multiplicou seus tentos, indo de 19 em 2016/17 e 12 em 2017/18 para 30, 27 e 29 gols marcados nas últimas três temporadas.

À medida que foi acumulando estas campanhas bem-sucedidas, a pressão foi crescendo pelo retorno de Benzema à seleção francesa, mas a reconciliação com Didier Deschamps parecia impossível. Desligado dos Bleus em 2015 após o escândalo da sextape de Mathieu Valbuena, seu então companheiro de seleção e vítima de uma chantagem por parte de um amigo de infância de Benzema, o atacante do Real Madrid havia complicado a sua situação ao conceder uma entrevista ao Marca em 2016, falando de sua ausência na Eurocopa sedeada na França e sobre como o selecionador havia “cedido a uma parte racista do país” ao tirá-lo da equipe. Como consequência da fala, Deschamps teve o muro de sua casa pichado com a palavra “racista”, e o que a imprensa francesa relata é que desde então os dois não se falaram – até cerca de um mês atrás.

Na última data Fifa, em março deste ano, enquanto Benzema vivia um dos pontos altos de sua temporada, a seleção francesa fazia jogos pelas eliminatórias europeias para a Copa do Mundo de 2022. O saldo daquela sequência de partidas, positiva nos resultados, foi preocupante para Didier Deschamps. Um empate contra a Ucrânia por 1 a 1 foi acompanhado de duas vitórias nada convincentes contra Cazaquistão (2×0) e Bósnia (1×0).

A movimentação ofensiva e a qualidade no terço final, em especial, reforçaram ao técnico a insuficiência de suas opções de momento para o posto de atacante, impactadas por suas circunstâncias em seus respectivos clubes. Olivier Giroud havia perdido espaço desde a chegada de Thomas Tuchel no Chelsea, Anthony Martial vivia temporada decepcionante pelo Manchester United e sofria também com problemas físicos, enquanto Wissam Ben Yedder nunca foi o nome imaginado pelo treinador para ocupar o posto.

O contraste desta insatisfação com o brilho das atuações de Benzema foi um primeiro caminho para a mudança de direção no pensamento de Deschamps, mas faltava uma etapa importante, e ela veio nos meses seguintes: o reestabelecimento do contato entre jogador e técnico. Em sua entrevista coletiva de anúncio da lista de convocados, Deschamps se recusou a entrar em detalhes sobre o diálogo com o atacante, mas afirmou que tirou o tempo necessário para “pensar, sentir e analisar o que havíamos conversado. (…) A partir do momento em que a necessidade era recíproca, estava feito. Sem esta etapa, não teria sido possível”.

O jornal L’Équipe informa que, antes do diálogo, Deschamps se viu confrontado por aquilo que havia observado especialmente na data Fifa de março e compartilhou sua ideia de reaproximação com Benzema com Guy Stéphan, seu assistente, e Noël Le Graët, presidente da Federação Francesa. Deschamps então teria recebido a benção do último, que sempre manteve o desejo de ver o atacante novamente com a camisa da seleção. “Conversamos sobre isso (retorno de Benzema) há um mês. Evidentemente, eu imediatamente dei meu apoio. Sempre desejei que a história terminasse assim, vocês sabem bem”, contou Le Graët ao jornal francês.

Por mais que a reação geral da opinião pública na França seja de êxtase pelo acréscimo de um dos melhores jogadores do mundo a um conjunto já campeão e bem-sucedido, existe uma pequena parcela que suscita preocupação com como a volta de Benzema poderia afetar o equilíbrio de um vestiário bem estabelecido. Vale lembrar, afinal, que um dos pontos fortes do trabalho de Didier Deschamps desde que assumiu a equipe em 2012 foi criar uma unidade e um sentimento de instituição à frente dos indivíduos, colocando fim à propensão da seleção francesa a problemas internos como os ocorridos na Copa do Mundo de 2010, com uma greve do elenco, e na Eurocopa de 2012, com múltiplos problemas de indisciplina, o principal deles o “cala-boca” de Samir Nasri ao jornal L’Équipe e seus insultos a um jornalista da agência de notícias AFP.

Se levarmos em consideração algumas das reações de atuais representantes dos Bleus após o anúncio da convocação de Benzema, no entanto, tudo aponta para um clima cordial e uma recepção calorosa ao atacante. Em entrevista à emissora BFMTV, Kingsley Coman, do Bayern de Munique, destacou a “carreira extraordinária” de Benzema e afirmou que “todo amante do futebol está contente de vê-lo no grupo. (…) Será uma oportunidade de aprender a conhecê-lo, é um grande acréscimo ao time”. À rádio RMC, Tolisso, companheiro de Coman no Bayern, acrescentou: “Estou muito feliz, é um jogador que eu via jogar quando estava no centro de formação (do Lyon), quando ia ao estádio com o meu pai”. O veterano Steve Mandanda foi outro a expressar sua felicidade, ressaltando que, “visto o nível que ele tem demonstrado há vários anos, será claramente uma vantagem (para o time)”.

Nenhuma dessas reações, no entanto, repercutiu tanto quanto a de Kylian Mbappé. Como um garoto que ganha a chance de jogar com uma estrela que acompanhou enquanto crescia, o atacante do PSG publicou uma montagem em seu Instagram em que aparece celebrando um gol com Benzema, acrescentando a legenda “KB x KM”, acompanhada de vários emojis de chama, na melhor expressão de expectativa pelo que a dupla pode fazer junta que poderíamos pensar nos dias atuais.

De volta à seleção, o momento agora é de imaginar como Benzema pode se encaixar nesta equipe e como isso deverá potencializar o jogo francês. Com um elenco repleto de estrelas, Didier Deschamps tem inúmeras possibilidades, mas, olhando para o padrão recente da seleção francesa, as preferências do treinador e os testes que já realizou, três sistemas principais se destacam.

O esquema mais provável a ser adotado é o 4-2-3-1. O próprio Deschamps afirmou em entrevista recente à Bein Sports que o sistema é o seu preferido por permitir que a equipe seja mais sólida “seja em termos de largura, profundidade ou de intervalos, e quando digo sólida não penso especialmente no aspecto defensivo”. Neste esquema, Benzema assumiria o posto normalmente ocupado por Giroud, à frente de Griezmann, com Mbappé e Coman ou Dembélé abertos pelas pontas.

Levemente diferente, mas parecido nas peças que seriam utilizadas, temos o 4-3-3. Nele, Griezmann seria levemente deslocado para um dos lados, mais provavelmente o direito, com Benzema no comando de ataque e Mbappé pela esquerda. Isso possibilitaria maior solidez no meio de campo, com Kanté e Pogba ganhando a contribuição de um terceiro homem, possivelmente Adrien Rabiot ou Tolisso.

Por fim, testado no ano passado, o 3-4-3 também aparece como opção. Pavard e Hernández seriam empurrados para as posições de alas, garantindo a largura e possibilitando uma atuação um pouco mais centralizada de Mbappé e Griezmann ao lado de Benzema no ataque.

Independentemente da escolha de esquema de Deschamps, a expectativa será grande sobre o que Benzema pode entregar no auge de sua carreira e sobre o nível que esta seleção poderá apresentar, com um teto de potencial tão alto. O grande palco da Eurocopa é a oportunidade perfeita para colocar isto à prova.

Paralelamente a este lado esportivo, no entanto, o escândalo da sextape de Valbuena que desencadeou toda a crise entre jogador e seleção não teve seu desfecho, e isso pode condicionar o futuro de Benzema na seleção. Para sua sorte, o desenrolar da história acontecerá apenas após a Euro.

Em janeiro, o Ministério Público de Versalhes anunciou que o jogador seria julgado no tribunal criminal de Versalhes em outubro deste ano. Benzema é acusado de “tentativa de chantagem”, suspeito de ter incitado Valbuena a pagar seus chantageadores, e pode ser condenado a até cinco anos de prisão e a uma multa de € 75 mil. Além do atacante, outras quatro pessoas também serão julgadas no caso por tentativa de chantagem, com uma delas também respondendo por abuso de confiança.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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