França

‘Quando converso com Luis Enrique sobre contratações, a primeira coisa que ele me pergunta é isso’

Dirigente do PSG, Luis Campos detalha critério central de Luis Enrique para avaliar jogadores no clube francês

Em um futebol cada vez mais atravessado por dados físicos, rankings de intensidade e discursos sobre potência e transição, há um detalhe básico que frequentemente fica em segundo plano: o que o jogador faz quando a bola chega. Receber bem, decidir rápido, entender o jogo a partir do contato com ela. Para alguns clubes, isso virou apenas mais um item na lista. Para outros, é o ponto de partida de tudo.

No Paris Saint-Germain, que se reorganiza sob a influência de Luis Enrique, essa hierarquia é clara. Antes de discutir velocidade, força ou capacidade de vencer duelos, a pergunta essencial passa pelo conforto com a bola — um conceito que atravessa modelo de jogo, treino e, sobretudo, o processo de recrutamento. É a partir dessa lógica que Luís Campos, diretor esportivo do clube, explica como nascem muitas das conversas internas sobre contratações.

— A relação do jogador com a bola é fundamental. No fim das contas, são jogadores com uma bola e precisam se sentir confortáveis ​​com ela. Quando converso com Luis Enrique sobre o perfil de um jogador para contratar, a primeira coisa que ele me pergunta é se ele se sente confortável com a bola — disse em entrevista ao jornal espanhol “Marca”.

Essa resposta não surge como preferência estética. Ela dialoga diretamente com a pergunta feita ao dirigente e ajuda a delimitar o tipo de jogador que o PSG passou a priorizar: alguém capaz de sustentar o jogo com a bola, e não somente sobreviver sem ela.

Ao falar de conforto, Campos aponta para gestos simples — a recepção, o primeiro toque, a escolha seguinte — que, no modelo de Luis Enrique, organizam o coletivo e determinam se a equipe consegue, de fato, controlar as partidas.

— Ele se refere ao controle de bola, à tomada de boas decisões com a bola. É muito importante ter uma boa relação com a bola, não apenas ser rápido, cobrir muito terreno ou ganhar duelos. Porque isso ajudará muito mais a equipe.

Como é trabalhar com Luis Enrique?

Luis Enrique e Luís Campos
Luis Enrique e Luís Campos (Foto: Imago)

Essa lógica relacionada às contratações, porém, não se limita ao perfil técnico dos jogadores ou ao mercado. Ela se estende ao cotidiano, à rotina e à forma como o trabalho é conduzido internamente no PSG.

A exigência com a bola é apenas a face mais visível de um padrão mais amplo, que passa por intensidade, envolvimento e compromisso diário. Ao ser questionado sobre como é conviver com Luis Enrique no dia a dia, Luís Campos descreve um treinador cuja energia e obsessão por evolução moldam todo o ambiente do clube.

— Ele deve dormir com os dedos na tomada porque tem uma energia incrível. Todos os dias ele chega com o desejo de evoluir, de progredir.

E esse nível de intensidade vai além do discurso — se expressa também na maneira como o projeto é apresentado a quem pensa em vestir a camisa do PSG. Segundo Campos, há uma clareza quase brutal desde o primeiro contato: o clube não abre mão da rotina exigente e não há espaço para acomodação. A ideia de “projeto” envolve tanto o coletivo quanto o indivíduo, mas sempre condicionada a um pré-requisito inegociável.

— Quando você conversa com um jogador sobre trazê-lo para o nosso projeto, primeiro você apresenta o projeto esportivo coletivo, o que o PSG representa, e depois o projeto individual para o jogador. São duas coisas diferentes e ambas são importantes. Luis Enrique me pede para dizer uma coisa a um jogador quando converso com ele: “Se você não vier treinar no seu máximo todos os dias, não venha, porque se você não treinar no seu máximo todos os dias, Luis Enrique vai te ‘matar’ rapidinho. Você tem que saber que cada treino é como uma partida contra o melhor time do mundo, e você vai ter que dar tudo de si diariamente.”

Com o tempo, essa exigência deixou de ser uma cobrança do treinador para se tornar um filtro estrutural do clube. O padrão imposto por Luis Enrique passou a orientar decisões, conversas e até advertências preventivas no mercado. Mais do que contratar talento, o PSG passou a buscar jogadores capazes de sustentar, todos os dias, o nível de intensidade que o técnico considera indispensável — sob pena de sequer entrar em campo.

— No final da sua primeira temporada, ele me disse um dia: “Luis, ou melhoramos o nível dos nossos treinos diários, com todos os jogadores dando tudo de si, ou eu vou embora”. Ele incutiu esse alto padrão em mim. Então, hoje, quando procuramos um jogador que nos interesse contratar, a primeira coisa que digo é: “Nós te conhecemos muito bem, mas se você não treinar ao máximo todos os dias, esquece, porque você não vai jogar um minuto sequer”. E é a pura verdade.

Contratado em julho de 2023 pelo time parisiense, Luis Enrique impôs um modelo sustentado por controle, ocupação racional dos espaços e protagonismo com a bola, mesmo em um ambiente historicamente moldado por individualidades e soluções rápidas.

A mudança veio acompanhada de resultados expressivos: o PSG conquistou a Supercopa da França em 2023, 2024 e 2025, venceu a Ligue 1 nas temporadas 2023/24 e 2024/25, levantou a Copa da França em 2023/24 e 2024/25 e alcançou o ponto mais alto do projeto com o título da Champions League 2024/25. Depois disso, ainda faturou a Supercopa da Uefa 2025 e a Copa Intercontinental da Fifa 2025.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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