Ligue 1

A França está banindo torcedores visitantes e provando que não consegue domar a violência antes dos Jogos Olímpicos

Faltando menos de sete meses para o início dos Jogos Olímpicos de Paris, a França tem banido torcedores visitantes como resposta aos muitos casos de violência no futebol

Os episódios de violência no futebol francês (e em qualquer lugar onde o futebol é o esporte mais popular) não são novidade. No entanto, o aumento do número de agressões nos últimos tempos, junto com viralização da imagem do rosto de Fabio Grosso ensanguentado e a notícia da morte de um torcedor do Nantes, fizeram com que o poder público do país passasse proibir torcedores visitantes em jogos considerados um risco potencial para a segurança.

A justificativa pode até ser a diminuição de casos do tipo em partidas de torcida única, mas decisões assim apenas empurraram o problema para debaixo do tapete e comprovam a incapacidade das autoridades locais em lidar com grande multidões — especificamente nesta situação, nas vésperas dos Jogos Olímpicos de Paris.

Os casos de violência na França

A recente onda de violência no mais alto nível do futebol francês na temporada 2023/23 começou no início de outubro, no duelo entre Montepellier e Clermont pela oitava rodada da Ligue 1, no Stade de la Mosson. Nos acréscimos da partida, quando os donos da casa venciam por 4 a 2, um rojão foi lançado das arquibancadas e explodiu próximo ao goleiro Mory Diaw, que caiu no gramado com a mão no ouvido e precisou ser retirado de maca. O jogo foi interrompido e disputado novamente no fim de novembro com portões fechados. Desta vez, terminou empatado em 1 a 1.

Ainda em outubro, um torcedor do Lens ficou gravemente ferido após uma briga com vários torcedores do Le Havre nos arredores do Stade Océane, onde as duas equipes empataram em 0 a 0 pela nona rodada da Ligue 1. No fim do mês, o ônibus do Lyon sofreu um ataque antes da partida contra o Olympique de Marseille no Vélodrome. Um dos vidros se quebrou, e os estilhaços atingiram o rosto do técnico Fabio Grosso, que recebeu 13 pontos.

Dentro do estádio do OM, alguns torcedores do Lyon ainda fizeram saudações nazistas e entoaram cantos racistas. O confronto, outro também válido pelo Campeonato Francês, foi adiado para o dia 6 deste mês, quando os donos da casa venceram por 3 a 0 mesmo sem a presença da torcedores visitantes nas arquibancadas.

Por fim, o episódio mais recente foi no início de dezembro. Um torcedor do Nantes foi esfaqueado e morreu após a vitória dos Canários sobre o Nice por 1 a 0, pela 14ª rodada da Ligue 1. Segundo o jornal francês L'Équipe, o adepto fazia parte do grupo de torcedores organizados do clube, chamado Brigada Loire, e  morreu após embate com a torcida adversária nos arredores do Estádio Beaujoire.

As proibições e a imagem da França antes dos Jogos Olímpicos

Em entrevista à rádio France Inter dois dias depois do confronto entre Nantes e Nice, a ministra dos Esportes da França, Amélie Oudéa-Castéra, falou sobre a necessidade de medidas rápidas e defendeu a ideia de proibir a entrada de torcedores visitantes nos estádios.

– Eu penso que sim (proibir torcedores visitantes é a solução). Para o momento, poderíamos focar nas viagens dos torcedores (para verem seus times). Quando o jogo apresenta risco, devemos, por enquanto, parar a movimentação de torcedores. Acho que é fundamental ter um tempo para voltar a uma situação de menos violência. Não é possível ter agentes da lei tão sobrecarregados, bens destruídos, carros apedrejados, agora uma pessoa morta. Basta! É o bastante — declarou Amélie.

Para a 15ª rodada da Ligue 1, um decreto do ministro do Interior, Gérald Darmanin, proibiu a presença de torcedores visitantes em cinco partidas. A justificativa foi que havia “risco de confrontos entre torcedores”, num contexto de “violência cada vez mais grave observada desde o início da época futebolística”. Desde então, jogos pela França considerados um risco potencial para a segurança (seja pela rivalidade entre torcidas específicas ou necessidade de alocar forças policiais para outros eventos próximos) têm sido afetados decisões do tipo.

De acordo com o The Guardian, os decretos são emitidos pelas autoridades policiais locais ou pelo Ministério do Interior, visam qualquer pessoa que atue como apoiante da equipa visitante e na maioria das vezes acabam publicados somente alguns dias antes das partidas. O uso generalizado de proibições tem sido criticado pela Associação Nacional de Torcedores da França, que conseguiu recorrer ao Conselho de Estado (o mais alto tribunal administrativo do país) e anular quatro dos impedimentos.

No último domingo (10), Gérald Darmanin anunciou a proibição de torcedores do Sevilla na última rodada da fase de grupos da Champions League diante do Lens, no Stade Bollaert-Delelis. A equipe espanhola, que foi notificada do decreto faltando menos de 48 horas para a bola rolar, obviamente não ficou satisfeita. No fim, a decisão foi suspensa pelo Conselho de Estado.

— Lamento a decisão, especialmente tendo em conta o atraso da informação. Como vamos gerir os Jogos Olímpico, se não pudermos receber 300 torcedores do Sevilla em solo francês? Há um grande problema — afirmou Franck Haise, técnico do Lens, em entrevista coletiva quando a proibição ainda estava em vigor.

Ao contrário do que o poder público francês tentou explicar, impedir torcedores do Sevilla de comparecerem ao jogo contra o Lens parece ser muito mais uma forma de garantir a qualquer custo que nenhum caso de violência será notícia no dia seguinte, e não uma proibição por rivalidade entre torcidas, necessidade de alocar forças policiais em outro lugar ou algo do tipo.

Faltando menos de sete meses para os Jogos Olímpicos de Paris de 2024, não parece a melhor forma das autoridades garantirem a segurança em eventos esportivos internacionais de enorme porte, mas ao menos não repercute negativamente na mídia. Ao curto prazo pode funcionar, mas a decisão (além de não resolver o verdadeiro problema) prejudica o espetáculo esportivo e ainda vai contra o “espírito olímpico”, tão mencionado a cada quatro anos para falar de ética, profissionalismo e união dos povos, mas tão pouco lembrado na hora de impactar rodadas quaisquer da Ligue 1.

Foto de Felipe Novis

Felipe Novis

Felipe Novis nasceu em São Paulo (SP) e cursa jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Antes de escrever para a Trivela, passou pela Gazeta Esportiva.
Botão Voltar ao topo