FrançaLigue 1

A supremacia do PSG evidencia um abismo, mas também uma fome ainda maior no tetra avassalador

Não havia muitas dúvidas, antes mesmo do início do campeonato, de que o Paris Saint-Germain faturaria o tetracampeonato da Ligue 1. No entanto, os parisienses trataram de garantir a taça da maneira mais emblemática possível. E estabelecendo uma marca de raros precedentes. A conquista se sacramentou com a maior goleada de um visitante na história do Francês: 9 a 0 sobre o Troyes, superando a marca que durava 80 anos A atuação impiedosa da linha ofensiva comandada por Ibrahimovic também registrou a maior goleada na liga nacional desde 1986. E ainda marcou o maior massacre do PSG ao longo do tetra, superando os 6 a 0 sobre o Guingamp em maio de 2015.

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Nunca, na história das cinco grandes ligas europeias, um campeão ergueu a taça com tamanha antecipação. Ainda restam oito rodadas do Francês, mas o PSG já colocou a faixa de campeão. Superou, e muito, as cinco rodadas de antecedência do Lyon em 2006/07 – e, no calendário, bateu em um mês a melhor marca anterior, baixando de 15 de abril para 13 de março. Já olhando para os países vizinhos, o recorde era o Bayern de Munique, que faturou a Bundesliga em 2013/14 na 27ª de 34 rodadas. Ou seja, 79,4% do campeonato completado, contra 78,9% do PSG na 30ª rodada.

A explicação para a supremacia, todavia, não vai apenas a uma direção. Eles apontam tanto para a força do timaço que os parisienses montaram, mas também para a diferença em relação aos demais adversários. Quando se sagrou campeão na Bundesliga 2013/14, o Bayern tinha um assustador aproveitamento de 95% dos pontos na 27ª rodada. Bem maior que os 85,5% do PSG desta vez. Contudo, o segundo colocado naquele Alemão, o Borussia Dortmund, tinha aproveitamento de 64,2% àquela altura, à frente dos 57,7% do Monaco desta vez. A diferença dos parisienses para os monegascos é de 25 pontos. Enquanto isso, o Toulouse, antepenúltimo na tabela, está a 26 pontos dos vice-líderes.

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Em um campeonato historicamente equilibrado como a Ligue 1, o emparelhamento no miolo da tabela não surpreende. A diferença está nas pontas, justamente onde aparecem o PSG e o Troyes – de apenas duas vitórias e 14 pontos anotados em 30 rodadas. Não à toa, a partida deste domingo terminou de maneira tão avassaladora. Dono da segunda defesa menos vazada das cinco grandes ligas europeias, o PSG agora tem o terceiro melhor ataque e igualou o Barcelona com o maior saldo de gols. Já Ibrahimovic empatou com Cristiano Ronaldo, ambos com 27 gols nas ligas nacionais – mas duas assistências a mais para o sueco, 11 a 9.

Além disso, há outro fator importante que a diferença nos números da tabela ou nos investimentos (cerca de € 500 milhões nas últimas cinco temporadas, o dobro de Lyon, Olympique de Marseille, Lille e Saint-Étienne juntos) não explica sozinha. Algo bem mais sutil, que se percebe apenas assistindo aos jogos: a real evolução do time de Laurent Blanc. Para quem já acumula quatro títulos consecutivos, este crescimento pode passar batido – por mais que os parisienses ainda persigam os recordes de pontos e vitórias estabelecidos na temporada passada. A qualidade aumentou, e não apenas pela chegada de Ángel Di María ou Kevin Trapp ao time titular.

Há também um amadurecimento coletivo do Paris Saint-Germain. Se as vitórias acontecem com maior frequência, se a defesa aparece bem mais confiável e se o ataque tem mais fome de gols, é também pela ascensão do trabalho de Laurent Blanc. E o maior símbolo disso é o próprio Ibrahimovic. Nenhum outro jogador foi mais emblemático no tetra da Ligue 1 que o sueco, com 100 gols em 115 partidas desde que chegou ao torneio. Todavia, se parecia carregar o time nas costas em outras ocasiões, desta vez o camisa 10 despontou como o protagonista de um ótimo conjunto. Aos 34 anos, Ibra já teve uma forma física melhor em outros momentos na França. Ainda assim, nunca foi tão produtivo. Somando gols e assistências, ajudou a produzir 1,58 tentos por partida que esteve em campo, sua melhor marca no clube. Igualou o seu recorde de assistência e está a três do seu recorde de gols.

A partida contra o Troyes, aliás, é emblemática neste sentido. Obviamente, a zaga dos lanternas abusou dos erros e evidenciou a sua fragilidade. Ainda assim, o PSG engoliu os anfitriões. Seis jogadores diferentes contribuíram com gols ou assistências. Ibra, sozinho, balançou as redes três vezes e ainda deu um belíssimo passe de calcanhar para Pastore marcar. De qualquer maneira, a excelência do time de Laurent Blanc não se prova somente nos massacres do Francês. Ela depende muito mais do desempenho na Champions para obter maior reconhecimento. E é este o objetivo que os parisienses perseguem para engrandecer ainda mais os seus feitos dentro de casa.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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