França

15 momentos marcantes da trajetória de Ribéry em sua grandiosa carreira pelos gramados

Diante da aposentadoria de Ribéry, relembramos os diferentes marcos do francês em mais de duas décadas como profissional

Aos 39 anos, Franck Ribéry colocou um ponto final em sua trajetória como futebolista profissional. A queda do francês acontecia aos poucos, há alguns anos, das lesões à despedida do Bayern de Munique. Após defender a Fiorentina, o ponta assinou com a modesta Salernitana na temporada passada e teve um papel mais como liderança na salvação dos grenás na Serie A. Gostou do clube e ficará por lá, agora como membro da comissão técnica de Davide Nicola. O final apagado, entretanto, não diminui os muitos momentos de fascínio de Ribéry em mais de duas décadas de carreira. Abaixo, relembramos seus pontos altos e também alguns baixos, que marcam a história de quem sem dúvidas foi um dos pontas mais habilidosos deste século.

As cicatrizes da vida

Quando tinha apenas dois anos de idade, Franck Ribéry sofreu um grave acidente de carro. O menino teve lesões severas no rosto e precisou receber mais de cem pontos, em duas grandes cicatrizes do lado direito de sua face. Uma marca que, segundo as próprias palavras do francês, auxiliou em seu caráter: “De certa maneira, esse acidente me ajudou. Quando eu era criança, isso me motivou. Deus me deu essa diferença. As cicatrizes são parte de mim e as pessoas sempre precisarão me aceitar da maneira como sou”.

O talento das divisões de acesso

Criado na periferia de Boulogne-sur-Mer, no norte da França, Ribéry não foi daquelas promessas badaladas desde as categorias de base. Chegou a passar pelo Lille, mas acabou dispensado entre a indisciplina e a falta de estatura. Durante a adolescência, inclusive, o ponta auxiliava seu pai como pedreiro. A carreira profissional sem tantas expectativas começou nas divisões de acesso do Francesão. Primeiro defendeu o Boulogne, de sua cidade natal. Participou brevemente da campanha do acesso para terceirona em 2000/01, aos 18 anos. Quando ganhou espaço como titular, o time caiu de volta para a quarta divisão. Mudou-se depois para o Olympique Alès, onde também mostrou serviço na terceirona, mas o clube sofreu um rebaixamento por motivos financeiros para a sexta divisão. Trocaria de camisa mais uma vez na terceirona, rumo ao Brest, onde estourou na campanha do acesso à Ligue 2. Foi quando deu o salto direto à Ligue 1, contratado pelo Metz quando tinha 21 anos, em 2004. Seria lapidado por Jean Fernandez, treinador que anos antes havia promovido ao time profissional do Cannes ninguém menos que Zinédine Zidane. Logo no primeiro mês pelo clube, o jovem foi eleito o melhor jogador do Campeonato Francês em agosto de 2004. Ficaria pouco tempo, mas deixou boa impressão.

Eterno no Galatasaray x Fenerbahçe

Ribéry não chegou a completar um ano no Metz. Aceitou uma proposta do Galatasaray em fevereiro de 2005 e por lá terminou a temporada. Como a passagem do ponta por Istambul também foi curta, não dá para chamá-lo de ídolo dos Leões. Mas fez o suficiente para deixar sua marca no clássico contra o Fenerbahçe. A decisão da Copa da Turquia de 2004/05 reuniu exatamente os rivais ferrenhos. O Fener tinha uma equipe respeitável com Alex, Fábio Luciano, Rüstü Recber, Mehmet Aurélio, Mert Nobre e Tuncay Sanli, treinados por Christoph Daum. Do outro lado, o Gala dirigido por Gheorghe Hagi reunia figuras como Hakan Sükür, Hasan Sas, Flávio Conceição, Rigobert Song e Faryd Mondragón. Os aurirrubros ganharam com requintes de crueldade, em goleada por 5 a 1. Ribéry marcou o primeiro gol, deu o passe para o segundo e recuperou a bola no campo de ataque no lance que originou o terceiro. Já se tornou uma figura eterna na Turquia, independentemente da passagem meteórica.

(BORIS HORVAT/AFP via Getty Images/One Football)

Sensação no Olympique de Marseille

Ribéry deixou o Galatasaray rapidamente, ao final da temporada. Alegava salários atrasados e até ameaças de agressão de dirigentes contra si, em caso que parou na Fifa. O francês ganhou o imbróglio, inclusive a apelação posterior no Tribunal Arbitral do Esporte. E não demorou a se juntar ao Olympique de Marseille, onde se reencontrou com Jean Fernandez. Por sua ligação com os marselheses, muitas vezes Ribéry parece nascido no sul da França. Poucos jogadores são tão amados no Vélodrome quanto o ponta, de dribles e lances fantásticos pelos celestes. A primeira temporada já seria expressiva, com o camisa 7 eleito o melhor jovem da Ligue 1. O novato ainda venceu três vezes naquela campanha o prêmio de “jogador do mês” e faturaria até a votação de gol mais bonito da competição. O Olympique, todavia, terminou a liga em quinto e ainda seria vice da Copa da França, em decisão perdida diante dos rivais do PSG.

(PATRICK HERTZOG/AFP via Getty Images/One Football)

A Copa do Mundo de 2006

O mundo conheceu Ribéry durante a Copa de 2006. O meia ainda fazia parte da seleção sub-23, quando virou uma aposta de última hora do técnico Raymond Domenech. Entretanto, não demorou para o prodígio justificar seu espaço. Entrou bem nos últimos amistosos preparatórios e ganhou a posição para a estreia no Mundial. Seria uma sensação na Alemanha. O elenco da França era muito experiente, cheio de remanescentes do título de 1998. Cinco jogadores da base titular passavam dos 30 anos e mesmo alguns abaixo disso eram bastante experimentados, a exemplo de Thierry Henry. Ribéry oferecia um frescor no 11 inicial e uma dose de imprevisibilidade. Seus dribles conquistaram muita gente naquela campanha, com o novato valorizado inclusive por medalhões como Zidane. Seu único gol veio nas oitavas contra a Espanha, no jogo que impulsionou os Bleus na competição, com direito a drible em Iker Casillas e tudo. A medida de seu sucesso, de qualquer maneira, estava nas jogadas mágicas e incisivas. O vice contra a Itália não diminuiu seu status como novo xodó do país.

O melhor da França

Ribéry tinha propostas graúdas depois da Copa de 2006. Clubes da estatura de Real Madrid e Arsenal tentaram contratá-lo. O ponta, entretanto, preferiu continuar no Olympique de Marseille. A temporada de 2006/07 teve seus percalços, com períodos de lesão, em que a ausência do camisa 7 atrapalhou os marselheses. O time seria vice-campeão da Ligue 1, longe de competir com o dominante Lyon, e de novo vice da Copa da França, derrotado nos pênaltis em decisão contra o Sochaux. Ribéry, por outro lado, foi eleito o melhor jogador francês do ano – quebrando uma sequência de quatro troféus entregues a Henry. O atacante era venerado no Vélodrome e teria uma cena marcante de despedida, quando deu uma volta olímpica dirigindo um pequeno trator no gramado do estádio. Era puro carisma.

Craque de imediato numa constelação bávara

Manter Ribéry em Marselha era quase impossível, diante do assédio crescente de outros clubes. O Bayern de Munique fez uma contratação que mudaria sua história no verão de 2007, ao desembolsar €25 milhões no negócio, recorde do clube até então. Seria uma janela bastante movimentada na Baviera, em que o ataque ainda ganhou os reforços de Miroslav Klose e Luca Toni. Ribéry ainda assim conseguiu se sobressair no meio de tantas feras. A equipe treinada por Ottmar Hitzfeld dominou a Bundesliga de ponta a ponta, com a conquista da Salva de Prata, além da Copa da Alemanha de lambuja. O novo camisa 7 apresentou suas credenciais com uma campanha brilhante, em que anotou 11 gols e ainda deu oito assistências na liga. Seria eleito o melhor jogador do Campeonato Alemão e de novo o Jogador Francês do Ano.

As seguidas quedas

Ribéry continuou rendendo bem no Bayern, apesar dos problemas do clube. Foi eleito para a seleção da Bundesliga na desastrosa temporada de 2008/09, sob as ordens de Jürgen Klinsmann. Recusou propostas para sair e teve problemas de lesão, mas ainda assim contribuiu na reconquista da Bundesliga em 2009/10 sob as ordens de Louis van Gaal. O amargor viria na Champions, numa decisão perdida diante da Internazionale que sequer disputou, suspenso ao ser expulso na semifinal contra o Lyon. O momento também estava longe de ser favorável na seleção, com a fraca campanha na Euro 2008 e o caos que imperou na Copa de 2010. Ribéry se via no centro dos holofotes, ao encabeçar o boicote após a expulsão de Nicolas Anelka do elenco. Não rendeu nos jogos e nem era a liderança que muitos imaginavam. Como se não bastasse, na mesma época, o atacante foi investigado por transar com uma prostituta menor de idade – em caso do qual acabou inocentado por não saber que a garota tinha 16 anos. O questionamento era óbvio, dentro e fora de campo.

(CHRISTOF STACHE/AFP via Getty Images/One Football)

A rivalidade que virou uma fusão indissociável: Robbéry

Ribéry levou um tempo a se reerguer. O ponta mantinha um bom rendimento no Bayern de Munique, como principal garçom do clube. Chegou a garantir 17 assistências na Bundesliga em 2010/11 e mais 21 em 2011/12. Entretanto, os bávaros emendavam vices em tempos nos quais o Borussia Dortmund mandava na Alemanha. A Champions guardaria outra frustração em 2012, com a derrota para o Chelsea na decisão em Munique, em noite na qual o francês saiu lesionado na prorrogação. Como se não bastasse, a França passou vergonha novamente na Euro 2012. E outro problema envolvendo Ribéry aconteceu na semifinal da Champions, mesmo com a classificação sobre o Real Madrid. Segundo relatos da época, dentro dos vestiários, o camisa 7 acertou um soco no outro grande talento do time, Arjen Robben. Recebeu uma multa e deu uma declaração de que “não eram melhores amigos”. Entretanto, Jupp Heynckes faria ambos se entenderem dentro de campo em pouco tempo. Quando os ânimos se apaziguaram, ficou difícil de imaginar o sucesso dos bávaros sem a dupla Robbéry voando pelos flancos. Nutririam realmente uma amizade e uma admiração mútua, além de um fator de imprevisibilidade com dois lados tão fortes no time.

Aquela temporada de 2012/13

O Bayern lavou a alma em 2012/13. Depois do tri vice na temporada anterior, a equipe se consagrou com a Tríplice Coroa – com direito ao fim do jejum de 12 anos na Champions. O timaço de Jupp Heynckes tinha feras como Manuel Neuer, Philipp Lahm, Bastian Schweinsteiger, Toni Kroos, Thomas Müller e Arjen Robben. Mesmo assim, é inegável que Ribéry foi o melhor do time. Seus números até foram piores que na temporada anterior. Contudo, bastava assistir aos jogos dos bávaros para saber a diferença que o camisa 7 fazia. Não eram poucas as vezes que ele devastava as defesas adversárias com suas arrancadas e dribles. O Barcelona sofreu com isso nos 7 a 0 agregados da semifinal da Champions. Já na decisão em Wembley contra o Dortmund, o francês deu a assistência para o gol do título, num toque de calcanhar. Quis o destino que o herói fosse Robben, que vinha numa temporada pessoalmente conturbada e carregava uma dura fama de “amarelão”. A percepção sobre a carreira do holandês mudou naquele momento, assim como a efetividade da dupla Robbéry. A combinação dos craques parecia a única maneira de fazer frente a Lionel Messi e Cristiano Ronaldo naqueles tempos. Tanto é que Ribéry chegou a ser cotado para a Bola de Ouro e ficou em terceiro em 2013, embora tenha sido o mais votado pelos jornalistas.

(AP Photo/Petr David Josek)

A ligação forte com a torcida

Ribéry é um jogador muito valorizado no Bayern de Munique. O tempo de clube e as inúmeras conquistas garantem seu lugar na história. Mesmo assim, a idolatria passa também pela magia que o camisa 7 oferecia em campo e pela dedicação à camisa. O francês se sentia mais um na Baviera e não escondia essa sintonia. Uma prova disso aconteceu na Supercopa Europeia de 2013, logo após o ponta ser eleito o melhor jogador europeu da temporada anterior. Com a vitória nos pênaltis sobre o Chelsea, Ribéry pegou o megafone e puxou os cânticos da torcida alvirrubra nas arquibancadas em Praga. Estava em estado de graça. E isso permaneceu com constantes provas de carinho, de um reconhecimento pela grandeza que construiu com seu talento.

Ribéry puxa a fila na festa pela Copa em Saint-Denis (AP Photo/Michel Euler)

O ponto de virada da França em 2013

É curioso notar como o final da trajetória de Ribéry pela seleção francesa foi abrupto, mesmo no ápice da forma do ponta. Quando Didier Deschamps chegou, em 2012, o camisa 7 era imprescindível aos Bleus. Carregou o time em diversos jogos das Eliminatórias para a Copa de 2014, apesar de uma campanha insuficiente para superar a Espanha no grupo, o que levou os franceses à repescagem. As chances de uma eliminação contra a Ucrânia eram reais, ainda mais depois da derrota por 2 a 0 em Kiev. O ponto de virada para a França aconteceu no jogo de volta contra os ucranianos, num momento em que o time deixou os conflitos recentes para trás e se uniu para a ascensão que culminou na reconquista do Mundial em 2018. Ribéry fez a diferença naquele duelo dramático no Stade de France, com participação direta em dois gols. Infelizmente, o ponta seria desfalque para a Copa de 2014, lesionado. Deixaria as convocações depois disso, mesmo que ainda pudesse agregar pelo que jogava no Bayern. Foram 16 gols e 25 assistências em 81 aparições pelos Bleus.

(CHRISTOF STACHE/AFP via Getty Images/One Football)

Tratado feito uma lenda, apesar do peso do tempo

Depois da Tríplice Coroa em 2012/13, Ribéry não deixou de ganhar títulos com o Bayern de Munique. A Champions não se repetiu no seu tempo, mas ele passou a experimentar a hegemonia na Bundesliga ao lado de um brilhante Robben. Acumulou novas glórias com Pep Guardiola, com Carlo Ancelotti, na volta de Jupp Heynckes e até mesmo com Niko Kovac. Porém, seu físico se tornou mais frágil e as lesões passaram a se acumular. A partir de 2013/14, o francês não disputou mais do que 25 partidas numa mesma edição da Bundesliga e sua minutagem também se tornou significativamente mais baixa do que naqueles seis primeiros anos até 2012/13. Inclusive em duelos vitais da Champions essas ausências também afetaram. Os bávaros sabiam como Ribéry poderia arrebentar quando estivesse em campo, mas nem sempre ele estava saudável. De qualquer maneira, a torcida aproveitava bem os momentos em que sua lenda estava à disposição.

A despedida inesquecível

O ato final de Ribéry no Bayern de Munique aconteceu na temporada 2018/19, quando conquistou seu nono título na Bundesliga, o sétimo consecutivo. O veterano já nem era mais titular, geralmente utilizado no segundo tempo, mas contribuía com seus golzinhos. E o último jogo seria apoteótico. Naquele ano oscilante com Niko Kovac, os bávaros só confirmaram a Salva de Prata na rodada final. Dois pontos à frente do Borussia Dortmund, a equipe precisava fazer sua parte na Allianz Arena contra o Eintracht Frankfurt, na partida que marcava não apenas o adeus de Ribéry, mas também de Robben. Seria uma despedida à altura da mística de Robbéry: goleada por 5 a 1, com os dois últimos gols anotados exatamente pelas lendas. O tento de Ribéry, o quarto do time, seria fantástico. O camisa 7 partiu para cima da marcação, passou no meio de dois e deu um toque por cobertura na saída de Kevin Trapp. Caberia a Robben fechar a conta. Ao lado de Rafinha, outro de saída, o trio ergueu a Salva de Prata. Ribéry era o mais emocionado, após 425 jogos, 124 gols e 182 assistências em 12 anos inesquecíveis de clube.

A conexão com a Itália nos últimos anos de carreira

Ribéry ainda não tinha se despedido do futebol. E, se quisesse, poderia encher mais os bolsos com propostas de mercados como a China e os Estados Unidos. O veterano, entretanto, estava disposto a “viver o futebol” numa liga relevante da Europa. Experimentaria a paixão da Itália, levado para ser uma liderança na tentativa de reconstrução da Fiorentina pelos novos donos. A Viola não fez grandes campanhas enquanto Ribéry esteve lá e de novo o veterano precisou lidar com as limitações físicas. Mesmo assim, os lampejos do velho craque vieram e renderam alguns momentos de brilho, a ponto de ser até eleito o jogador do mês na Serie A em setembro de 2019, logo em seu início. Já quando a Fiorentina optou por não renovar com Ribéry, ele não se mostrou vaidoso ao escolher seu destino. As grandes conquistas não o impediram de aceitar a proposta da Salernitana, um clube recém-promovido, que se via em uma situação complicada pela necessidade de procurar novos proprietários. O francês não marcou um gol sequer e não evitou o péssimo início de campanha. Por outro lado, usou a braçadeira de capitão e, mesmo sem jogar sempre como titular, foi uma referência importante nos vestiários durante a espetacular fuga do rebaixamento com Davide Nicola. O veterano virou até um personagem folclórico nas ruas de Salerno. E ficará por lá para iniciar a nova etapa de sua carreira, agora na comissão técnica.

(Francesco Pecoraro/Getty Images/One Football)
Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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