Futebol europeu

Volta da filosofia de Cruyff? O que esperar da era Xavi na seleção dos Países Baixos

Discípulo de Guardiola chega com missão de devolver à seleção uma identidade de posse, domínio e iniciativa

Xavi Hernández no comando os Países Baixos é quase poético. Cresceu dentro de uma escola de futebol influenciada por Rinus Michels e Johan Cruyff, tornou-se um dos maiores representantes daquela filosofia como jogador. Aprendeu com Pep Guardiola a transformá-la em uma linguagem ainda mais sofisticada e, depois, passou a reproduzir suas próprias interpretações do Jogo de Posição como treinador.

Agora, desembarca justamente onde foi moldada a maneira como ele entende o futebol. A própria federação de futebol do país (KNVB) tratou essa conexão como parte importante da escolha. A missão que recebeu também é explícita: recuperar uma seleção que volte a tomar a iniciativa, ser dominante, atraente e, ao mesmo tempo, adaptar esses princípios às exigências do futebol moderno.

A primeira convocação de Xavi já oferece algumas pistas sobre o que ele pretende fazer. Virgil van Dijk continua como capitão, Cody Gakpo permanece como uma das referências ofensivas, mas Memphis Depay ficou fora, enquanto jogadores mais jovens como Ruben van Bommel receberam suas primeiras oportunidades.

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Países Baixos vão de Michels a Cruyff, e de Guardiola a Xavi

Para entender o que Xavi pode fazer nos Países Baixos, é preciso voltar algumas décadas. O Futebol Total de Rinus Michels não era simplesmente uma formação em 4-3-3. Sua grande revolução estava na ideia de que o espaço poderia ser ocupado e desocupado constantemente pelos jogadores, permitindo que uma equipe preservasse suas relações coletivas mesmo quando as posições individuais mudassem.

Cruyff levou essa ideia adiante como jogador e treinador, transformando-a em uma filosofia que colocava a ocupação racional do campo, a superioridade numérica e a iniciativa com a bola no centro do jogo. Ele levou sua visão ao Barcelona, La Masia absorveu princípios que vinham do futebol neerlandês e uma geração posterior os desenvolveu.

Pep Guardiola, seu jogador, foi um dos grandes responsáveis por transformar aquela herança em um modelo ainda mais elaborado de controle espacial. Xavi, por sua vez, foi jogador de Guardiola e passou anos dentro daquele ambiente antes de tentar reproduzi-lo como treinador.

Xavi e Cruyff, em 2014
Xavi e Cruyff, em 2014 (Foto: Marca / Icon Sport)

Mas isso não é uma linha em que cada treinador copia o anterior. Xavi não é Michels 2.0, nem Cruyff ou Guardiola. Mas existe uma continuidade evidente de conceitos: dominar através da bola, criar superioridades, ocupar racionalmente o espaço, encontrar o homem livre e utilizar a circulação para controlar o adversário.

O próprio Xavi já descrevia essa lógica quando comandava o Al Sadd, do Catar. Em uma masterclass para o canal “Coaches' Voice”, explicou que sua equipe deveria encontrar o homem livre para progredir, gerar superioridades numéricas contra blocos baixos e, sem bola, pressionar individualmente para recuperar a posse o mais perto possível da área adversária. Porém, havia a mudança de mentalidade que ele queria provocar: os jogadores deveriam valorizar a bola, e não tratá-la como algo que precisavam evitar perder.

A diferença é que agora ele terá de aplicar esses princípios a uma seleção que não é formada diariamente e que passou pelos últimos ciclos alternando entre desenhos com três zagueiros, estruturas mais conservadoras e momentos de pressão mais agressiva. Xavi não terá tempo para construir tudo do zero.

O primeiro recado veio na convocação

Na lista de setembro, Xavi não tentou fazer uma revolução. Van Dijk, Gakpo, Denzel Dumfries, Nathan Aké e outros experientes estão entre os nomes. Ao mesmo tempo, Memphis Depay, maior artilheiro da história do país, ficou fora. Joey Veerman voltou à seleção depois de não ser escolhido por Ronald Koeman, enquanto Ruben van Bommel e Gjivai Zechiel foram chamados pela primeira vez.

Xavi não parece interessado em montar uma seleção baseada apenas em hierarquia ou experiência. Quer jogadores que possam executar uma determinada ideia de jogo. O fato de Van Bommel e Zechiel estarem entre os estreantes é significativo não porque eles necessariamente serão titulares, mas porque demonstra que a porta está aberta para jogadores que podem se encaixar no projeto.

Ao mesmo tempo, a convocação não permite uma conclusão definitiva sobre o time que Xavi pretende montar. Frenkie de Jong está lesionado, assim como Xavi Simons, e ambos seriam peças relevantes para a equipe. A ausência dos dois deixa a primeira experiência do treinador incompleta.

Isso torna a Data Fifa de setembro como um laboratório. O jogo contra a Alemanha será especialmente interessante por isso. Xavi já avisou que pretende uma equipe intensa, competitiva e disposta a tomar a iniciativa, mas terá pouco tempo para implementar todos os seus mecanismos. Na coletiva antes da estreia, ele afirmou que quer um time com intensidade, paixão, bom ritmo e iniciativa.

O meio-campo será o coração do novo Países Baixos

O Jogo de Posição depende das relações entre os meio-campistas. O Barcelona de 2022/23 oferece um bom exemplo. Embora a equipe fosse registrada como um 4-3-3, Xavi utilizava frequentemente Busquets e Frenkie de Jong como uma espécie de dupla de pivôs. À frente deles, Pedri e Gavi alternavam entre o corredor central e a faixa esquerda, criando um quadrado no meio-campo. O lateral-esquerdo avançava e o jogador que começava aberto podia entrar por dentro, transformando a estrutura em uma espécie de 3-2-4-1 ou 2-3-5 durante a posse.

O objetivo não era ter quatro jogadores no meio simplesmente para “ter mais gente”, mas gerar superioridade onde a bola estava. Essa lógica pode encontrar terreno fértil nos Países Baixos. Gravenberch, por exemplo, tem capacidade para transportar a bola e aparecer em diferentes alturas. Tijjani Reijnders é confortável recebendo e conduzindo por dentro. Teun Koopmeiners pode participar da construção e atacar espaços.

E ainda existe Frenkie de Jong. Quando estiver saudável, sua presença pode mudar completamente o desenho do time. Xavi conhece o jogador profundamente, trabalhou com ele no Barcelona e sabe como utilizá-lo para criar linhas de passe, atrair pressão e carregar a bola para zonas mais avançadas.

Xavi Hernández durante apresentação como técnico dos Países Baixos (Foto: IMAGO / ANP)
Xavi Hernández durante apresentação como técnico dos Países Baixos (Foto: IMAGO / ANP)

Nos lados, Dumfries e Jeremie Frimpong são jogadores que podem mudar completamente o desenho de uma equipe dependendo de onde começam e onde terminam as jogadas. Se um ponta permanecer aberto, o lateral pode fechar por dentro. Se o lateral der amplitude, o ponta pode entrar no meio-espaço. Se o interior ocupar o corredor central, o lateral pode avançar. A posição inicial deixa de determinar a posição final.

Foi esse tipo de flexibilidade que Xavi utilizou no Barcelona. Nos Países Baixos, isso pode produzir uma equipe agressiva pelos lados. Essa é uma das ideias fundamentais do Jogo de Posição: quando um jogador sai de uma zona, outro precisa entender qual espaço foi criado. O sistema não é uma fotografia, é uma rede de relações.

O contexto da chegada também importa.

Ronald Koeman deixou o comando depois da eliminação para o Marrocos na Copa do Mundo, e sua equipe havia sido criticada pela abordagem excessivamente defensiva. Xavi evitou transformar o antecessor em antagonista e disse que não pretende ficar falando sobre o passado, mas foi explícito ao afirmar que haverá uma maneira diferente de jogar.

Uma equipe pode tocar a bola entre os zagueiros durante minutos sem jamais controlar verdadeiramente uma partida. Xavi quer que a circulação movimente o adversário, crie homens livres e permita progressão. É por isso que sua obsessão por superioridades é tão importante. É um futebol que exige coragem porque a equipe precisa permanecer organizada enquanto se movimenta.

O objetivo de Xavi não será reconstruir o time de 1974 ou repetir o Barcelona de Guardiola. Ele terá de descobrir como os princípios daquela escola podem funcionar com Van Dijk, De Jong, Gravenberch e os jovens que ainda vão aparecer.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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