Uma mãozinha de Rehaggel

Estava claro que Otto Rehaggel, técnico da seleção grega, não ficou contente com a postura de seu time na estreia do Mundial da África do Sul, contra a Coreia do Sul. Nas entrevistas posteriores à partida, o alemão deixou claro que era preciso realizar alterações no time que enfrentaria a Nigéria. Somente a vitória contra os africanos poderia deixar os gregos ainda com chances de classificação.
Através da escalação, já era possível perceber as mudanças que Rehaggel gostaria de imprimir em sua equipe. A defesa, que havia jogado durante a preparação ao Mundial com cinco homens e que se enrolou com apenas quatro na estreia, voltou a contar novamente com cinco jogadores. Visando melhorar a linha de zaga, o treinador promoveu a entrada de Avraam Papadopoulos no lugar do experiente Georgios Seitaridis, que, contudo, apareceu mal posicionado em vários momentos durante a partida de estreia.
Já Sotirios Kyrgiakos, que vinha se recuperando de contusão nos meses anteriores à Copa, retomou sua posição no time titular. Dando lugar ao defensor, Georgios Samaras foi ao banco de reservas. E ocupando o lugar do atacante no campo, Georgios Karagounis, muito mal na primeira partida, foi adiantado à meia esquerda.
Além da saída de Samaras, outra mudança no ataque da equipe mostrou-se providencial. Angelos Charisteas pouco fez atuando como ponta direita da equipe na partida ante a Coreia. O centroavante de ofício deu pouca mobilidade ao ataque e, quando era necessário que ele se apresentasse à área, o camisa 9 quase sempre chegava atrasado para concluir. No seu lugar, Rehaggel apostou em Dimitrios Salpingidis, herói da classificação à Copa e que, apesar de começar no banco de reservas o jogo de estreia, teve uma ba participação a partir do segundo tempo.
Com mais qualidade no passe a partir da intermediária e uma defesa que se demonstrava mais protegida, os gregos foram a campo em um 5-4-1, no qual os laterais Vyntra e Torosidis faziam bastantes incursões ao ataque. Mais à frente, o centroavante Gekas era apoiado por Salpingidis e Karagounis, que avançavam em diagonal em direção ao gol nigeriano. Karagounis, aliás, parecia muito diferente em relação ao jogo contra os coreanos. Antes sumido em campo, o camisa 10 chamou a responsabilidade para si e conduzia o controle de bola dos gregos a partir da intermediária.
A nova postura, contudo, apesar de mais balanceada, ainda não era suficientemente agressiva. E aos 15 minutos de jogo, em mais uma falha defensiva dos gregos, as Super Águias abriram o placar. Assim como no primeiro gol marcado pela Coreia, a defesa não cortou lançamento alçado na área após cobrança de falta na lateral do campo. E, diante de nova indecisão de Tzorvas, a bola entrou sem que ninguém tocasse nela.
Da mesma forma como aconteceu na estreia, o gol durante os primeiros minutos de jogo pareceu esfriar o ânimo dos gregos, que cadenciavam a bola e apenas se arriscavam em chutes longos e em alguns poucos cruzamentos. A situação melhorou apenas aos 33 minutos, quando, depois de falta boba, Kaita foi expulso e os gregos ficaram com um homem a mais em campo. E neste momento, mais decisivo do que nunca ao time, Rehaggel soube como converter tal vantagem numérica em placar favorável.
Imediatamente após o lance, o alemão tirou o Papastathopoulos do miolo de zaga e colocou no gramado Samaras, reforçando assim sua linha de frente com mais um homem. Com a entrada do atacante, o Navio Pirata passou a atuar em um 4-3-3, novamente com quatro homens de defesa e com Salpingidis agora mais enfiado dentro da área. Karagounis retornou mais ao centro do campo e Katsouranis, que igualmente ao camisa 10 havia tido atuação ruim no primeiro jogo, passou a jogar encostado nos três avantes.
Os efeitos da mudança surgiram quase que imediatamente. Com Karagounis criando as melhores oportunidades, a Grécia pressionava o gol defendido por Enyeama, que fazia grande partida. Dois minutos depois da substituição, Katsouranis deu belo passe e deixou Salpingidis em boas condições para marcar, mas o goleiro nigeriano impediu o tento.
A pressão grega tornou-se constante e Haruna precisou tirar chute de Samaras de cima da linha antes que os europeus abrissem o placar. Em mais um bom lance de Katsouranis, que agora atuava de costas para o gol adversário, Salpingidis recebeu o passe e arriscou. A bola ainda precisou desviar em um defensor antes de matar Enyeama por completo e cair no fundo das redes. Veloz pelo lado direito do campo, Salpingidis aparecia bem em infiltrações à área.
No segundo tempo, o Navio Pirata não alterou seu ímpeto ofensivo e continuou fazendo com que Enyeama trabalhasse bastante. Ao contrário do restante do time, porém, Gekas continuava pouco presente e, quando aparecia para concluir, não fazia lembrar que fora o artilheiro das Eliminatórias européias. Samaras, em contrapartida, posicionava-se bem dentro da área e reforçou o jogo aéreo grego, principalmente.
Também no início do segundo tempo, Tzorvas interveio bem quando exigido. Apesar de os nigerianos não aparentarem muita confiança no arqueiro do Panathinaikos, arriscando sempre ao gol, o camisa 12 fez ao menos duas defesas difíceis na segunda metade do jogo.
O bombardeio grego foi mantido até que, aos 26 minutos, a virada aconteceu. Tziolis, bem durante todo o jogo na proteção da defesa e na saída de jogo, finalizou de fora da área e Enyeama, que fazia partida impecável até então, não segurou. Torosidis, dando provas da efetividade dos laterais durante os 90 minutos, surgiu dentro da área e completou para as redes.
A dez minutos do fim da partida, Rehaggel demonstrou mais uma vez a consciência tática ao tirar Gekas e promover a estreia do prodígio Ninis, adicionando mais velocidade ao ataque. E foi exatamente em um contra-golpe que, por pouco, os gregos não ampliaram a vantagem.
Após a partida, a imprensa grega exaltou a performance de Rehaggel e seu papel fundamental na vitória grega. Além disso, Salpingidis, destacado pela vontade demonstrada em campo, foi eleito herói após ter marcado o primeiro gol do Navio Pirata em Copas do Mundo.
A vitória anima, mas os gregos ainda têm consciência de que o desafio é enorme na próxima partida. Mais que garantir a classificação, é preciso evitar uma possível goleada ante o rápido ataque argentino. Que, ao menos para isso, Rehaggel não mude a postura de seu time, apresentando um futebol mais vistoso tal qual contra os nigerianos.



