Como questão sobre impostos pode pressionar Uefa a suspender Israel?
Entidade abortou decisão em setembro, após cessar-fogo na Faixa de Gaza
A Uefa volta a estar sob pressão em meio à escalada dos conflitos no Oriente Médio. Pela primeira vez desde setembro, a entidade se vê diante da possibilidade de debater a suspensão da Associação de Futebol de Israel (IFA, na sigla em inglês) por causa dos parlamentares do Cantão de Vaud, na Suíça, que votarão uma revogação da isenção de impostos da Uefa.
Votada em dezembro, a resolução “As condições da isenção fiscal da Uefa ainda estão satisfeitas?”, criada pelos parlamentares de esquerda, entrou na ordem do dia na próxima terça-feira (17). Se votada e aceita, ela força o Conselho de Estado da Suíça a prestar esclarecimentos sobre a ausência de sanções e punições a Israel no âmbito esportivo.
— Como federação internacional, há muito tempo goza, apesar da importante atividade comercial que realizou, de uma isenção fiscal, concedida com base nos fundamentos específicos de que as federações esportivas internacionais desempenham um papel importante na promoção da paz, bem como na luta contra o racismo e a discriminação — diz um trecho da resolução.

Elaborada pelos parlamentares Vaud Théophile Schenker, Oriane Sarrasin, Elodie Lopez e Sébastien Humbert, a resolução sofreu forte influência de líderes da campanha “Game Over Israel”, que mantiveram conversas com a Uefa ao longo do último ano a respeito do cenário no Oriente Médio.
Escalada do conflito entre Israel e Irã amplia pressão sobre a Uefa
Como destacado pelo jornal francês “L’Équipe”, a esquerda, que elaborou a resolução, conta com 64 votos dos 150 possíveis, o que projeta uma decisão apertada. A expectativa é de que, por envolver uma questão de ordem econômica além de humanitária, a direita também force a Uefa a prestar esclarecimentos.
Uma possível revogação da isenção dos impostos para a entidade, que tem sede em Nyon, na Suíça, resultaria em um prejuízo milionário — cerca de 5 bilhões de euros (R$ 30,3 bilhões) são arrecadados pela confederação europeia anualmente.

— Por meio desta resolução, convida o Conselho de Estado a estabelecer um prazo para que a Uefa justifique a compatibilidade da manutenção da IFA como membro da Uefa e a ausência de sanções impostas pela Uefa contra a IFA com os objetivos de promoção da paz e de combate ao racismo e à discriminação, que justificam sua isenção fiscal — conclui o texto da proposta.
Quando foi elaborada, a resolução mirava o conflito entre Israel e Palestina, mas ganhou força com os últimos bombardeios de Israel, em apoio aos Estados Unidos, nas bases do Irã. Diferentemente da Rússia, que está suspensa pela Fifa e pela Uefa desde a invasão à Ucrânia, em 2022, a IFA ainda permanece entre os países-membros da entidade europeia.
- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
Votação para suspensão de Israel foi cancelada em setembro
No último ano, as acusações de genocídio de Israel sobre o povo palestino fizeram com que a Uefa, sob a liderança do presidente Aleksander Ceferin, organizasse uma votação para suspender a federação israelense. Em setembro, no entanto, Israel e Palestina chegaram a um cessar-fogo, mas que não tem sido respeitado em sua totalidade.
Caso seja aprovada a resolução, fontes ouvidas pelo “L´Équipe” entendem que a Uefa pode se ver pressionada a recolocar em pauta a suspensão de Israel. Ceferin é o único, no entanto, que pode organizar a votação, que deve ter a aprovação de 11 dos 21 membros do conselho da Uefa (Israel não tem poder de voto, por estar envolvido) para a suspensão.
Cessar-fogo não encerrou discussões sobre o banimento de Israel
Uefa e líderes de movimento pró-Palestina se reuniram no final de 2025, após o cessar-fogo na Faixa de Gaza, para discutir um possível banimento de Israel. A mesma “Game Over Israel” dialogou com representantes da Uefa a respeito dos próximos passos em meio ao conflito.
As reuniões seguintes, que ocorreram mesmo com o fim temporário do conflito, discutiram as circunstâncias e os mecanismos legais que poderiam permitir o banimento de Israel das competições organizadas pela Uefa. A entidade recebeu pressão de atletas, clubes e federações nacionais da Europa ao longo do último ano, mas manteve uma postura de neutralidade, sem adotar uma posição no conflito.

Movimentos contrários à guerra em Gaza pedem que as entidades tomem decisão semelhante, em virtude das Nações Unidas terem classificado a ação do governo de Benjamin Netanyahu como genocida desde setembro deste ano.
Uma das cartas enviadas à Uefa foi assinada por jogadores como Paul Pogba (Monaco) e Hakim Ziyech (Wydad Casablanca). Aleksandr Ceferin, presidente da entidade europeia, também se mostrou favorável à defesa dos interesses da Palestina ao longo dos últimos meses.
A Fifa, por sua vez, se mostrou próxima a Israel em meio ao conflito, dada a relação que Gianni Infantino mantém com Donald Trump desde a reeleição do presidente dos Estados Unidos, um dos principais aliados de Israel. Além disso, o republicano também chegou a declarar, antes do cessar-fogo, que tomaria as medidas necessárias para evitar a exclusão de Israel das Eliminatórias da Copa do Mundo.



