Europa

Uefa estuda teto salarial e “taxa de luxo” para substituir o Fair Play Financeiro, mas parece pouco

Sistema similar é usado pela NBA e visa mudar a abordagem do controle financeiro da entidade, mas há muitas questões sobre a eficiência da medida

A Uefa estuda criar um teto salarial com uma “taxa de luxo” a ser paga por aqueles que o violarem. O sistema substituiria o Fair Play Financeiro, que é alvo de muitas críticas atualmente. A proposta está em discussão e pode ser apresentada no próximo mês, segundo o jornal The Times. O sistema criaria um teto salarial em uma taxa fixada conforme a sua receita, em uma porcentagem provavelmente de 70% do total da receita do clube.

LEIA MAIS: Como fica o PSG no Fair Play Financeiro da Uefa com a contratação de Messi

Atualmente, o Fair Play Financeiro usa algo similar: limita os gastos com salários a 70% das receitas A diferença é que o novo sistema criaria um teto salarial baseado nisso, com um olhar apenas na temporada vigente, não nas contas como um todo. Os clubes que infringirem o teto pagariam uma “taxa de luxo”, que seria proporcional ao que passou do teto.

O desenho inicial da ideia é que se passar até 20% do teto, o valor seria o mesmo infringido. Ou seja: caso o clube esteja € 50 milhões acima do teto, pagaria uma multa de € 50 milhões. Esse dinheiro seria redistribuído entre os clubes participantes do torneio. Caso o valor da infração seja acima de 20%, a multa também aumentaria para 1,5 ou 2 vezes o valor. Com isso, se a infração for, por exemplo, de € 80 milhões, poderia pagar até € 160 milhões de multa.

Caso o clube seja reincidente em violar o sistema, o valor da multa será mais alto, já começaria em 1,5 ou 2 vezes o valor acima do teto. Em caso de mais nova reincidência, haveria punição esportiva, como limitação de inscrição de jogadores até o clube ser excluído de competições europeias. Algo, aliás, que já é previsto no Fair Play Financeiro, mas não foi feito contra PSG e Manchester City, dois que descumpriram a regra.

Teto salarial baseado nas receitas

Uma das mudanças é que o sistema de teto salarial limitado às receitas seria analisado apenas no ano vigente, e não mais com análise de até quatro anos passados, como é o Fair Play Financeiro. Além disso, haveria um teto salarial máximo, independente de receitas, que seria bastante alto, algo na casa de € 600 milhões anuais. A folha salarial do PSG, por exemplo, é de aproximadamente € 364 milhões. O Real Madrid tem folha aproximada de € 342 milhões.

O relatório Deloitte Money League 2021, publicado em janeiro, mostra a receita dos clubes na temporada 2019/20, já com efeito da pandemia, mas ainda com um efeito reduzido, já que o impacto maior veio depois, em uma temporada sem público.

Emulamos aqui a aplicação da regra. O Barcelona, por exemplo, teve receitas em 2019/20 de € 715,1 milhões. Pela nova regra, o teto do clube seria de € 500 milhões. O clube, porém, já anunciou que as receitas caíram em cerca de 40%. Isso significa que a receita caiu para algo em torno de € 429 milhões. Ou seja, a folha salarial teria teto como de € 300 milhões.

A projeção da folha do Barcelona atualmente, sem Messi, é de € 273 milhões. Com Messi, passaria dos € 300 milhões. Por isso, o clube não podia registrar o contrato do craque, já que o sistema de La Liga analisa previamente as projeções para avaliar o teto do clube.

Mudança agrada Comissão Europeia

Segundo informações do Times, a Comissão Europeia gosta da ideia de um teto salarial baseado em receitas, porque estaria de acordo com as leis europeias. O teto salarial, mesmo sendo em um patamar alto, de € 600 milhões, teria mais dificuldade para ganhar a aprovação da Comissão Europeia.

O sistema seria um substituto para o Fair Play Financeiro, criado há 11 anos. O FFP (Financial Fair Play, na sigla em inglês) exige que os clubes tenham ao menos o chamado “break even”, ou seja, não tenham prejuízo e nem lucro, em períodos de três anos. Há limites de prejuízo desde a sua implementação. Em 2020, a Uefa anunciou um afrouxamento do sistema para amenizar as perdas em decorrência da pandemia da Covid-19.

A ideia é que a proposta seja levada à convenção da Uefa no próximo mês na Suíça, que envolve federações nacionais, ligas, clubes, jogadores e empresários, segundo informou The Times. Além de discutir a possível nova proposta de controle financeiro, a Uefa deve discutir medidas para evitar novas tentativas de criação de uma Superliga Europeia de clubes, como aconteceu em abril.

O plano de ter teto salarial e multas por quem descumprir é visto como mais transparente com o atual sistema de Fair Play Financeiro. Permitiria que os donos riscos de clubes gastassem além do limite, mas que tivessem que pagar a mais por isso e o dinheiro tivesse alguma forma de redistribuição com a “taxa de luxo”. Deixa, porém, algumas questões importantes no ar.

O modelo mais rígido da NBA

Esse sistema existe na NBA, por exemplo, mas as multas são muito mais altas do que a ideia da Uefa parece planejar. O clube que mais ultrapassa o limite salarial da NBA, por exemplo, é o Golden State Warriors, que supera em cerca de US$ 41 milhões o teto. Por isso, tem que pagar US$ 184 milhões de multa – um valor maior que a própria folha salarial da equipe, de cerca de US$ 177 milhões.

A Uefa teria que pensar em algo assim para realmente valer a pena e tornar pouco atraente fazer isso. A ideia da Uefa não parece ser um incentivo a não fazer, pelo contrário. Na verdade, os clubes comandados por nações, como o Manchester City e o PSG, teriam passe livre para gastar à vontade, já que o dinheiro não é problema. Pagam-se as multas e vida que segue.

Além disso, há motivos para desconfiar que a Uefa não terá coragem de expulsar clubes das suas competições, mesmo que descumpram o teto salarial seguidamente. Até porque o que vimos acontecer foi justamente a Uefa ser leniente com os clubes mais ricos.

Do jeito que está modelado nas informações do jornal Times, as medidas seriam insuficientes, ao menos se a intenção é impedir que a gastança desenfreada aconteça e o endividamento dos clubes diminua. Parece não mais do que um afrouxamento que permitirá aos donos bilionários e os estados-nação continuem despejando dinheiro com ainda menos restrições. Veremos como será a proposta final.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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