Europa

A volta dos que não foram: Superliga europeia terá (mais um) episódio decisivo na semana que vem

No que se espera ser um episódio decisivo (mais um?), a Superliga europeia vai ouvir veredito sobre a UEFA e monopólio em julgamento no próximo dia 21

O dia 21 de dezembro de 2023 pode ser histórico para o futebol da Europa — principalmente para Real Madrid, Barcelona e La Liga. Isso porque a Superliga europeia (sim, novamente ela) terá um dia judicialmente decisivo para saber se ela poderá, um dia, quem sabe, deixar de ser um sonho — hoje sonhado muito mais pelas cabeças de Florentino Pérez, presidente madrilenho, e Joan Laporta, presidente culé.

A European Super League Company terá neste dia o veredito dado pela Corte Europeia de Justiça sobre seu processo contra a UEFA. Nele, alega que a federação que cuida das competições de futebol europeias pratica monopólio na organização e comercialização do esporte no continente. E, por mais que não seja o mais usual, ambos os lados envolvidos parecem bem otimistas com a decisão que será tomada.

A UEFA, que organiza Champions League, Liga Europa e Conference League entre clubes da Europa, acredita que a corte manterá a decisão de dezembro passado, quando deliberou a favor da federação. Já a Superliga acredita piamente que a lei está ao seu lado e, por isso, poderá derrubar o que considera um monopólio secular. Esperando essa decisão com ansiedade, então Real Madrid e Barcelona — além de La Liga, a entidade que rege o campeonato espanhol.

Real Madrid e Florentino, os principais defensores da Superliga — mas por quê?

Não é novidade para ninguém que Florentino Pérez e o Real Madrid, através da imagem de seu presidente, são os maiores entusiastas da Superliga, desde que ela surgiu do nada em abril de 2021 e morreu com a mesma velocidade que nasceu. Desde então, quase todos os clubes envolvidos na quase-fundação deixaram o campeonato de lado. Mas Florentino não o fez.

O presidente do Real Madrid enxerga a Superliga como uma solução esportiva e economicamente viável para o futebol europeu de clubes na atualidade. Para ele, a fundação deste campeonato abriria diversas portas no Oriente Médio (leia-se petrodólares) e nos Estados Unidos, dois mercados que, segundo ele, além de trazerem muito dinheiro, ainda são mal explorados pela UEFA com suas competições.

Não a toa que Florentino tomou a linha de frente da batalha judicial contra a UEFA. As primeiras movimentações jurídicas aconteceram justamente na Espanha, onde fica a sede da European Super League Company — e isso não acontece a toa. O envolvimento de Pérez é tão relevante que até mesmo os conselheiros legais da instituição, da Clifford Chance, têm vasta experiência com ele, através do Grupo ACS, de engenharia civil e que Florentino comanda desde 1997.

Mas por que tanto interesse? Dinheiro, claro. O The Athletic reporta que Florentino precisaria da Superliga para suprir o empréstimo bilionário — literalmente — que fez pelo Real Madrid para a reforma do Santiago Bernabéu. Internamente, haveria preocupação de que a pedida por dinheiro de banco drenaria todos os recursos do Real Madrid no próximo ano, o que impediria o clube de investir em jogadores.

Além disso, falando pessoalmente de Florentino, a cartada da criação da Superliga o colocaria lado a lado com Santiago Bernabéu, não o estádio, mas o presidente madrilenho que dá nome ao local. Foi ele, nos anos 1950, que bateu de frente com os magnatas do futebol europeu à época e ajudou na criação do que hoje é a Champions League. Pérez enxerga que sua contribuição para a história do futebol, com a criação e efetivação da Superliga, seria semelhante.

E o Barcelona, por que está tão interessado na Superliga?

A resposta é a mesma que a do rival Real Madrid: dinheiro. Joan Laporta era ferrenho opositor da Superliga e de qualquer ideia neste sentido antes de virar presidente do Barcelona. Chegou a falar que um campeonato nestes moldes seria “destruidor para a essência do futebol”. Mas mudou de opinião muito rapidamente ao assumir o clube e perceber que ali há uma dívida de um bilhão de euros que precisa de novas fontes de receita para que seja sanada. Virou defensor da antes banalizada Superliga.

Não demorou, então, para que Pérez e Laporta unissem as forças gigantescas de Real Madrid e Barcelona para manterem a ideia da Superliga viva, mesmo com basicamente todos os clubes fundadores tendo abortado a ideia com medo de sanções da UEFA — e também com receio da opinião pública, que foi completamente desfavorável à época que o conceito da Superliga foi lançado publicamente.

Por fim, La Liga, completamente contrária à Superliga

Num terceiro lado espanhol nessa história está La Liga, que acompanha preocupada a movimentação em torno da Superliga. O que a organizadora do Campeonato Espanhol acredita é que, com toda essa defesa do novo campeonato, Real Madrid e Barcelona, as duas principais peças esportivas e comerciais que ela tem, podem prejudicar o desenvolvimento comercial do torneio nos próximos anos.

La Liga atualmente tem diversos acordos comerciais que basicamente dependem muito da presença de Real e Barça, que seriam obviamente prejudicadas com a possível aceitação judicial da Superliga. Além disso, a entidade espanhol crê que tal decisão na Justiça seria um baque em sua própria força e na da UEFA, o que acarretaria diversos problemas de médio e longo prazo para a instituição.

O cenário colocado na mesa torna mais decisivo do que nunca o julgamento de 21 de dezembro e, por isso, esse poderá ser um dia que mudará para sempre o futebol europeu — e, claro, de todo o mundo.

Foto de Felipe Novis

Felipe Novis

Felipe Novis nasceu em São Paulo (SP) e cursa jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Antes de escrever para a Trivela, passou pela Gazeta Esportiva.
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