Futebol europeu

As transferências mais caras do mercado da bola europeu deixam um recado claro sobre posições

Janela mostra uma tendência clara: estão pagando mais por jogadores que vencem duelos e ocupam diferentes espaços do campo

Há algo curioso na lista das 15 transferências mais caras da janela de verão europeia de 2026. Entre os jogadores que movimentaram as maiores cifras do mercado, é possível notar ausências cruciais do meia clássico que joga atrás do atacante e do próprio centroavante de referência.

Dos 15 negócios mais caros, apenas dois jogadores fogem do perfil dominante. Morgan Rogers, contratado pelo Chelsea junto ao Aston Villa por 138 milhões de euros, é essencialmente um meia-atacante, um jogador capaz de atuar como camisa 10 ou partindo de zonas mais abertas. Gonçalo Ramos, que trocou o Paris Saint-Germain pelo Milan por 70 milhões de euros, é o único centroavante de origem entre os nomes mais caros.

Os outros 13 são majoritariamente volantes, meio-campistas de diferentes características ou pontas. Enzo Fernández, Elliot Anderson, Sandro Tonali e Mateus Fernandes foram alguns dos mais caros. Do outro lado, Bradley Barcola, Yan Diomande e Savinho.

O resultado é um retrato bastante interessante de como os clubes estão enxergando o jogador mais valioso do mercado. Não é mais necessariamente quem marca mais gols. É quem consegue fazer o jogo acontecer.

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O meio-campo virou o grande mercado no futebol

A primeira conclusão salta aos olhos: os grandes clubes estão dispostos a pagar cifras absurdas por meio-campistas. Fernández, Anderson, Tonali, Mateus Fernandes, Ayoubb Bouaddi, Bruno Guimarães e Carlos Baleba estão entre os 15 negócios mais caros. Sete jogadores de meio-campo.

E não são sete jogadores iguais. Enzo é um organizador capaz de jogar mais recuado ou avançar para a área. Anderson é um meio-campista físico, versátil e agressivo na pressão. Tonali combina intensidade, passe e chegada. Mateus Fernandes oferece mobilidade e capacidade de progressão. Bouaddi é um projeto de volante de elite. Bruno é um meio-campista completo, enquanto Baleba se destaca pelo poder físico, condução e capacidade de cobrir grandes espaços.

São jogadores diferentes, mas com uma característica em comum: eles conseguem participar de várias fases do jogo.

Isso explica por que o meio-campista moderno se tornou tão caro. O futebol de elite exige que um jogador não seja bom apenas com a bola.

Enzo Fernandez trocou o Chelsea pelo Manchester City. Foto: IMAGO / Pro Sports Images

Ele precisa saber o que fazer quando a equipe tem a posse, quando perde a posse, quando precisa pressionar, quando precisa defender espaço, quando precisa acelerar e quando precisa controlar. É a valorização do jogador funcional em todas as fases.

Existe uma característica técnica que conecta vários dos nomes da lista: progressão. Durante anos, uma das principais maneiras de medir o valor de um jogador ofensivo era perguntar quantos gols ele fazia.  Agora, outra pergunta ganhou importância: Quantas vezes ele consegue levar a bola de um lugar para outro?

Pode ser através do passe, pode ser conduzindo, driblando ou atacando o espaço. Enzo é excelente no primeiro caso. Anderson e Baleba podem fazer isso conduzindo. Barcola, Savinho, Gordon e Summerville fazem isso principalmente através do drible e da aceleração. Rogers combina condução, força física e capacidade de jogar entre linhas.

São diferentes respostas para o mesmo problema. Defesas de alto nível estão cada vez mais organizadas para impedir passes fáceis. A marcação individual, a pressão alta e a redução dos espaços interiores obrigam os atacantes a eliminar adversários individualmente.

Se é cada vez mais difícil construir vantagens coletivas, a capacidade individual de criar uma vantagem se torna ainda mais valiosa. Um ponta que consegue receber aberto, atrair o lateral, acelerar e deixá-lo para trás cria uma superioridade que nenhuma estrutura defensiva consegue eliminar completamente.

O ponta virou uma espécie de ‘camisa 10′ moderno

Yan Diomandé durante amistoso entre Schalke 04 x Real Madrid (Foto: Imago/Laci Perenyi)
Yan Diomandé durante amistoso entre Schalke 04 x Real Madrid (Foto: Imago/Laci Perenyi)

O mercado não abandonou completamente o camisa 10, mas há alguns anos, esse jogador mudou de lugar. Em vez de necessariamente receber a bola centralizado atrás do centroavante, o criador moderno muitas vezes parte de uma faixa lateral.

É o que acontece com diversos dos jogadores mais caros da lista. Barcola pode começar aberto e atacar o espaço interior. Rogers, que é o mais próximo do meia tradicional na lista, pode atuar aberto, mas também aparecer por dentro.

São jogadores que não precisam ficar presos a uma posição: futebol contemporâneo quer atacantes capazes de trocar de lugar. O ponta deixou de ser apenas o jogador que corre até a linha de fundo para cruzar. Ele pode ser o responsável por criar a superioridade, conduzir, entrar na área e atacar o espaço nas costas da defesa. 

Quanto mais funções um atacante consegue cumprir sem perder qualidade, maior tende a ser seu valor.

Rogers não é exatamente um camisa 10 clássico, mas é o jogador da lista que mais se aproxima dessa definição. Sua contratação pelo Chelsea seria justamente como uma tentativa de recuperar esse tipo de talento, mas em uma versão moderna.

Rogers não é um meia que simplesmente recebe entre as linhas e distribui passes. Ele carrega a bola, ataca espaços, dribla, finaliza e até pode jogar como ponta. Na última temporada, teve 10 gols e seis assistências na Premier League.

Ou seja: até o meia-atacante que custa 138 milhões de libras precisa ser dinâmico. O mercado não parece interessado em um jogador que só cria. Por isso, o camisa 10 não desapareceu — ele simplesmente precisou aprender a correr.

Onde foram parar os grandes centroavantes?

Gonçalo Ramos em atuação pelo Milan (Foto: IMAGO / NurPhoto)
Gonçalo Ramos em atuação pelo Milan (Foto: Imago/NurPhoto)

A presença de apenas Gonçalo Ramos simboliza o único centroavante da lista. O futebol evidentemente continua precisando de jogadores capazes de transformar volume ofensivo em gols, mas o perfil do centroavante valorizado mudou.

Hoje, não basta ser um finalizador. Ele precisa pressionar, atacar profundidade, participar da construção, combinar com pontas e, em muitos sistemas, sair da área para criar espaço para quem vem de trás. O problema é que esse tipo de jogador é menos comum.

Talvez por isso os clubes tenham encontrado outra maneira de investir seu dinheiro: comprar jogadores que criam as condições para o centroavante finalizar. A lista das maiores transferências dessa janela conta justamente essa história. De um lado, a maioria composta por jogadores capazes de criar vantagem. Do outro, apenas um cuja principal função é ocupar a área.

Existe, portanto, uma palavra que talvez defina melhor a lista inteira: versatilidade. Não necessariamente no sentido de jogar em cinco posições diferentes, mas de conseguir solucionar mais de um problema.

Até Diomande, que pode ser visto como um ponta mais tradicional e unidimensional, representa essa busca por explosão e capacidade de criar vantagens em zonas abertas. É uma consequência direta da evolução tática: quanto mais os sistemas se tornam sofisticados, mais importante fica ter jogadores capazes de escapar do sistema.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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