Novos contratos de TV, boicote das torcidas, explosão de casos no país: Como anda o clima na liga de Belarus

O Campeonato Belarusso iniciará sua quarta rodada neste final de semana. Única liga nacional que mantém a bola rolando na Europa, a competição atrai uma atenção descomunal ao redor do mundo e desfruta de certas benesses por sua exclusividade. No entanto, também lida com o receio dos jogadores e o boicote dos torcedores. Belarus, afinal, não é um país totalmente alheio à pandemia do coronavírus. Enquanto o governo faz pouco caso às medidas de contenção, o número de testes positivos cresce de maneira exponencial.
Quando a primeira rodada do Campeonato Belarusso começou, em 19 de março, o país havia confirmado 51 pacientes infectados pelo coronavírus. Três semanas depois, nesta quinta, o total de casos beira os 1,5 mil. O aumento ocorreu principalmente nesta semana, superando os 400 testes positivos diários. E se o número de vítimas fatais é comparativamente baixo, 16 ao todo, a média de doentes por milhão de habitantes supera a da Rússia – principal parceiro comercial dos belarussos, que criticou os vizinhos por conta da inação do governo local. Mesmo insatisfeitos com as políticas públicas dos belarussos, os russos doaram 10 mil exames aos vizinhos nesta semana, para que controlem melhor a situação.
Apesar de tudo, o governo continua lavando as mãos (no sentido figurado) para a pandemia. Presidente de Belarus, Alexander Lukashenko está à frente do país desde 1994. O ditador mantém o funcionamento praticamente normal das atividades, sem isolamento compulsório. No último final de semana, ordenou medidas preventivas voltadas somente a viajantes que entram no país. Além do mais, Lukashenko acumula declarações inacreditáveis. Recentemente, participando de um jogo de hóquei no gelo, afirmou: “Não há vírus aqui. Você viu algum voando ao redor do rinque?”.
Somente nesta quinta o governo de Belarus estabeleceu as regras de auto-isolamento para os cidadãos que testaram positivo, bem como àqueles que tiveram contato com os infectados. Estas pessoas só devem deixar suas residências em caso de emergência. Os demais seguem com a vida normal e medidas de higiene, segundo o governo. As ruas permanecem movimentadas e o comércio opera normalmente, embora as notícias mais recentes levem a população a tomar suas próprias medidas de mitigação.
A federação de Belarus reza na mesma cartilha do governo e continua bancando seu campeonato. No último final de semana, a entidade até resolveu suspender as competições de base no país. Ainda assim, a liga profissional não sofre qualquer interferência mais coerente e permanece até mesmo com portões abertos. Em entrevista à ESPN americana no último sábado, o secretário geral da federação declarou que “não havia razões” para mudar a postura. Desde então, o número de casos positivos no país se multiplicou por cinco.
“Analisamos a situação diariamente. Confiamos plenamente em nossos sistema de saúde e, atualmente, não há motivos para interromper a liga. Entendemos que a situação em alguns países é muito séria, mas, depois de consultar as autoridades correspondentes em Belarus, entendemos que nossa liga pode continuar”, afirmou Sergei Zhardetski. “Não pedimos esse rótulo de ‘última liga do planeta’, mas a situação não é tão crítica para suspendê-la. O futebol pode ser uma maneira de relaxar em meio às notícias alarmantes”.
O Campeonato Belarusso lucra com sua vitrine internacional. Segundo a federação, em informação publicada pela Reuters, a liga fechou contratos de transmissão com dez novos países até o final de março. Rússia, Israel, Índia e outros cantos do mundo passaram a transmitir ao vivo as partidas do Belarussão. Mesmo no Brasil é possível encontrar os jogos, através de serviços de streaming pagos.
Enquanto isso, clubes tomam suas medidas para ganhar um dinheiro a mais. Nesta semana, o Bate Borisov transmitiu seu compromisso pela Copa de Belarus na internet. Os interessados deveriam pagar €1,99 pela exibição. “Popularização é bom ao futebol belarusso. Logicamente, há um interesse em termos de direitos de TV, mas acho que não é o momento de olhar para isso a partir de uma perspectiva comercial”, complementou Zhardetski, à ESPN. Apostadores são outros que se deleitam com o Belarussão no momento e dão mais audiência ao torneio.
Do ponto de vista das arquibancadas, porém, o prejuízo dos clubes em Belarus é óbvio – e inescapável. A primeira rodada do campeonato já tinha registrado uma média de público relativamente baixa, com 1,3 mil espectadores por jogo. Na temporada anterior, a média tinha sido de 2,4 mil torcedores. E este público se reduziu ainda mais nas duas rodadas posteriores, com 1,1 mil pessoas por partida na segunda jornada e somente 327 na terceira. O maior público do último final de semana aconteceu na partida do Dynamo Brest, atual campeão. Se na campanha do título a equipe levava 8,8 mil por jogo, desta vez jogou para míseras 546 testemunhas.
Uma razão essencial para explicar a queda dos números é a postura dos ultras contra a federação e o governo. As torcidas organizadas do país passaram a boicotar os jogos, em protesto contra a falta de ação e a exposição ao risco consentida pela federação. Além disso, é natural que a maioria dos torcedores também sinta receio com a situação e evite os jogos. Nesta quarta, pela Copa de Belarus, o Dynamo Brest ocupou parte de seus assentos com manequins, usando camisas de diversos clubes e rostos impressos.
“Estamos cientes que alguém está mentindo para nós e, devido à situação epidêmica no país, pararemos de assistir aos jogos de nossa equipe. Não é uma decisão fácil, deixar o time sem apoio, mas agora o mais importante é a saúde do nosso pessoal. Apelamos a todos os movimentos de torcedores em Belarus para que façam o mesmo. Vamos ficar em casa, reduzir os riscos de disseminar o coronavírus e nos proteger”, comunicaram os ultras do Neman Grodno, clube da primeira divisão, à imprensa local.
Ao menos, a federação toma algumas medidas preventivas em relação ao público. Os torcedores têm suas temperaturas medidas na entrada dos estádios, para detectar febre. Funcionários usam máscaras e há álcool em gel disponível aos espectadores. Além disso, há uma orientação para que os grupos se mantenham espaçados nas arquibancadas, com a sugestão de que apenas familiares fiquem mais próximos. De qualquer maneira, não parece suficiente para evitar de maneira tão contundente o contágio.
“Talvez o presidente tenha decidido que é melhor fingir que nada está acontecendo. Os italianos ignoraram e riram do vírus no começo. Então, ficou pior e pior. Agora, é uma catástrofe. Tenho medo que essa atitude das nossas autoridades e do nosso povo possa levar às mesmas consequências”, declarou Alexei Kalashuk, torcedor do Dynamo Minsk, à BBC. Os seguidores do clube lançaram uma campanha online para incentivar outras pessoas a ficarem em casa: “Decidimos abandonar as partidas, porque a situação piora a cada dia. É estranho quando o mundo todo entra em quarentena e somos o único país fingindo que nada ocorre”.
Mesmo quem vai ao estádio não concorda com a continuidade do campeonato. Está claro que a situação expõe os torcedores e também traz desvantagens aos clubes. “Não quero deixar meu clube sem apoio. Quero mostrar meu amor e seguir com eles até o fim. Talvez seja loucura, mas é minha escolha. Mas seria melhor parar o campeonato, é lógico. Deveriam fazer isso para que todos possam ir ao estádio depois, não como agora, com arquibancadas quase vazias e públicos pequenos. Os torcedores estão com medo”, opinou Alexander Bubnov, torcedor do Dynamo Brest, também à BBC.
Os jogadores, igualmente, ficam receosos. Existe até uma recomendação ou outra para evitar a disseminação da doença. Ainda assim, a rotina de treinamentos permanece e nos jogos é praticamente impossível evitar o contato. Nem todos os atletas, aliás, tomam a precaução devida. Cenas de futebolistas se abraçando e comemorando a vitória até mesmo com a torcida foram comuns nestas primeiras rodadas da liga.
“É como se estivéssemos em outro planeta. Algo acontece no mundo, mas aqui a vida continua. Seguimos treinando e os dias são normais, então nada muda. A única coisa diferente é que não apertamos as mãos”, contou o russo Sandro Tsveiba, jogador do Isloch Minsk, ao Telegraph. “Cresci em Moscou e minha família está na Rússia, onde as pessoas cumprem quarentena. Minha mulher está muito, muito preocupada e também triste porque não pode me visitar. Meu pai disse que eu deveria ficar em casa durante as folgas. Aos jogadores, são dois lados. Estamos felizes por fazer nosso trabalho, mas não podemos ignorar o resto do mundo. É terrível ver o noticiário. A saúde das pessoas é o mais importante. A nossa também”.
Sete brasileiros atuam na primeira divisão de Belarus. Obviamente, compartilham a preocupação geral na pandemia. No entanto, sob contrato, se veem obrigados a seguir as orientações dos clubes. “Todos os dias a minha família me liga, perguntam como estou me sentindo. Eles têm essa preocupação, acham que aqui também deveria parar. Eu também acho isso, mas sou funcionário do clube. Quando cheguei não havia esse medo todo. Estamos correndo riscos, querendo ou não, mas precisamos não pensar nisso”, declarou o brasileiro Gabriel Ramos, do Torpedo Zhodino, à Folha de S. Paulo.
Diante do aumento exponencial de casos, a pressão pela paralisação do campeonato também cresce. O risco de algum jogador ser infectado é outro fator a pesar contra a postura da federação, como ocorreu em algumas ligas na Europa. Mas, enquanto o futebol belarusso puder tirar proveito da situação excepcional, parece disposto a lucrar – mesmo que a saúde de muita gente e a própria capacidade de tratamento do país esteja em jogo. Com a condescendência de uma ditadura, fica mais fácil negar o tamanho do erro.
Além de Belarus, as ligas nacionais de Burundi e Nicarágua também não interromperam suas atividades até o momento. Ambas estão na reta final de suas temporadas, em países com números oficiais de infectados baixos – apesar das acusações da ONU contra a falta de transparência e a negligência do governo nicaraguense. Já no Tadjiquistão, o pontapé inicial do novo campeonato aconteceu nesta semana, após a realização da supercopa local no final de semana anterior. O país ainda não registrou casos oficialmente, mas organiza os jogos sem público. Também há críticas contra a postura autoritária do governo, que encobriria a situação.
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— FC Dynamo Brest (@dynamobrest) April 8, 2020


