Liga Europa

De volta às copas continentais após 58 anos, a Union St. Gilloise faz uma campanha fantástica na Liga Europa e estará nos mata-matas

A Union St. Gilloise permanece invicta na Liga Europa, mesmo num dos grupos mais duros do torneio, e se confirmou por antecipação na liderança

A Bélgica escreve algumas das melhores histórias da temporada europeia. O sucesso do Club Brugge na Champions League, naturalmente, ganha enorme destaque e merece aplausos. Paralelamente na Liga Europa, também é gigante a jornada da Union St. Gilloise. A tradicional equipe não disputava competições continentais desde 1964/65, quando a Copa das Cidades com Feiras era um protótipo da atual Liga Europa. Esse hiato de quase seis décadas inclui 48 anos fora da primeira divisão belga e uma passagem até pela quarta divisão local. Apesar disso, o retorno da USG é imponente. A equipe brilha num dos grupos mais duros da LE e não apenas se confirmou nos mata-matas, como também já se garantiu na primeira colocação, que dá a vaga diretamente nas oitavas de final. A comemoração aconteceu na Suécia, onde os auriazuis bateram o Malmö por 2 a 0.

A Union St. Gilloise é o terceiro clube com mais taças na história do Campeonato Belga. O primeiro troféu foi conquistado em 1904 e o time se impôs como principal potência do país naquela primeira década do século passado. A fama inclusive atravessava fronteiras, a ponto de render títulos internacionais em competições amistosas e até mesmo um convite para participar do amistoso que formalizou a criação da Fifa, em maio de 1904. Num duelo contra a seleção francesa, os auriazuis ganharam por 3 a 1 e confirmaram sua reputação continental precoce.

Contra clubes, a Union St. Gilloise também construía seu legado. Uma das competições dominadas pela equipe no início do século era o chamado “Challenge International du Nord”, torneio internacional embrionário que reunia representantes de Bélgica, Holanda, França e Suíça. A agremiação também teve seus títulos na Coupe Van der Straeten Ponthoz e na Coupe Jean Dupuich, que incluíam times alemães e os fortes amadores ingleses. Posteriormente, outro momento histórico aconteceu na década de 1930, quando os auriazuis sustentaram uma invencibilidade de 60 partidas que valeu o tricampeonato belga. Contudo, o último dos 11 títulos da USG aconteceu em 1935. A bonança já tinha passado quando as competições europeias passaram a ser organizadas pela Uefa na década de 1950.

Isso não diminuía a importância da Union St. Gilloise no cenário nacional, ainda assim. A equipe participou das edições inaugurais da Copa das Cidades com Feiras, que se desenvolveu ao absorver os times que não estavam na Copa dos Campeões e na Recopa Europeia. A melhor participação aconteceu na edição inaugural do torneio, em 1958/60. A USG eliminou o combinado de Leipzig e a Roma, sucumbindo ao vice-campeão Birmingham City na semifinal. As campanhas seguintes seriam mais curtas, mas os belgas jogaram outras quatro edições do torneio. Eliminaram o Olympique de Marseille em 1962/63, quando até venceram um dos confrontos na queda diante do Dinamo Zagreb. A despedida aconteceu em 1964/65, com duas derrotas apertadas para a Juventus. Nome importante da seleção, Paul van den Berg era o destaque do clube na época.

A Union St. Gilloise ainda era o clube belga com mais títulos nacionais até 1966, quando acabou ultrapassada pelo Anderlecht. Os auriazuis perdiam fôlego no período, com o inédito rebaixamento em 1963 respondido por um acesso imediato, mas outra queda na sequência da década de 1960. Em 1973, a USG amargou mais um descenso, quando era dirigida por Guy Thys – futuro treinador da seleção em três Copas do Mundo e grande responsável pela geração brilhante do país nos anos 1980. A partir de então, o clube perderia relevância e vagaria pelas divisões de acesso, com o fundo do poço na quarta divisão de 1981 a 1983.

A reconstrução da Union St. Gilloise seria delicada. Um pouco mais de estabilidade aconteceu em 2015, quando o time voltou de vez à segunda divisão, depois de passar grande parte das décadas anteriores na terceirona. E o jogo mudou em 2018, quando a agremiação foi comprada por Tony Bloom, empresário inglês que também é dono do Brighton. Foi quando a administração melhorou a olhos vistos e os auriazuis tiveram sua grandeza resgatada. Com um trabalho louvável principalmente na observação de jogadores, a USG comemorou o acesso em 2020/21 e encerrou a seca de 48 anos fora da primeira divisão. Já o retorno à elite saiu muito melhor que a encomenda. A equipe liderou o Campeonato Belga durante a maior parte da temporada 2021/22. Apresentou um futebol ofensivo e saltou rapidamente à ponta. A derrocada aconteceu apenas na fase final da liga, quando o Club Brugge ultrapassou e conquistou o tricampeonato nacional. O vice não era tão ruim, de qualquer maneira.

A segunda colocação da Union St. Gilloise, afinal, valeu uma vaga nas preliminares da Champions. Pela primeira vez em sua história, o clube disputaria a principal competição do continente – algo mais do que justo a uma história repleta de taças. Alçada diretamente à última fase qualificatória, a USG venceu o Rangers por 2 a 0 na Bélgica, num resultado fantástico, mas sucumbiu em Ibrox e terminou eliminada com a derrota por 3 a 0. Ainda assim, o sonho europeu permanecia. A equipe seria repescada diretamente à fase de grupos da Liga Europa. Outro feito inédito aos aurinegros, que se juntaram a uma chave parelha com Union Berlim, Braga e Malmö.

(BRUNO FAHY/BELGA MAG/AFP via Getty Images/One Football)

A estreia da Union St. Gilloise rendeu um resultado fantástico. O time derrotou o Union Berlim por 1 a 0 na Alemanha, em jogo no qual os oponentes pressionaram. Um contra-ataque fatal rendeu o gol decisivo de Senne Lynen no primeiro tempo. Já a estreia em casa valeu um resultadaço nos 3 a 2 contra o Malmö. Os suecos ficaram duas vezes em vantagem no placar, mas Teddy Teuma e Victor Okoh Boniface lideraram a virada no segundo tempo. E o ponto alto do conto de fadas ocorreu em Portugal, contra o Braga. Os minhotos venciam até os 40 do segundo tempo. Logo após sair do banco, Gustaf Nilsson empatou e depois deu a vitória por 2 a 1 aos 49 da etapa final, com duas assistências de Simon Adingra. A liderança isolada era dos auriazuis.

A classificação se tornou praticamente certa no reencontro com o Braga na Bélgica, em empate por 3 a 3. Os lusitanos fecharam o primeiro tempo em 3 a 1, mas Dante Vanzeir e Victor Boniface asseguraram o empate na segunda etapa. Por fim, o sucesso se confirmou nesta quinta, com os 2 a 0 sobre o Malmö na Suécia, num resultado até tranquilo para os padrões dos auriazuis nesta Liga Europa. Teddy Teuma abriu a contagem logo aos dez minutos e deu o passe para Jean Lazare Amani ampliar pouco antes do intervalo.

É interessante notar como o desempenho alto da Union St. Gilloise na Liga Europa acontece em meio a uma reconstrução em relação ao time vice-campeão belga. O técnico Felice Mazzù aceitou uma proposta do Anderlecht depois de dirigir os auriazuis desde o acesso – e nem durou muito nos violetas, demitido nesta semana. Além disso, destaques da equipe saíram. O meia Casper Nielsen assinou com o Club Brugge, enquanto o artilheiro Denis Undav aproveitou a ligação com o Brighton para se mudar à Inglaterra. Apenas emprestado pelas Gaivotas, o ponta Kaoru Mitoma também não ficou. Mesmo que outros bons nomes permanecessem, sobretudo na defesa, a USG precisou de reposições.

O escolhido para comandar a Union St. Gilloise é um velho conhecido da casa: Karel Geraerts trabalhava como assistente desde 2019 e foi promovido ao cargo principal. Mantém as bases do que já dava certo, num time desenhado no 3-5-2. Já em campo, nomes como o atacante Dante Vanzeir, o meio-campista Teddy Teuma, o zagueiro Christian Burgess e o goleiro Anthony Moris já estavam entre os protagonistas. Contam com a consolidação principalmente de Senne Lynen e Jean Lazare Amani no meio-campo. Já no ataque é que se concentraram os reforços. Aos 20 anos, Simon Adingra assumiu a ponta esquerda cedido pelo Brighton. Já Victor Boniface arrebentava pelo Bodo/Glimt nas preliminares europeias e, aos 21 anos, virou o reforço mais caro da história da USG. Não que isso signifique muito dinheiro, num clube que prefere apostas a altos investimentos: foram desembolsados €2 milhões pelo nigeriano. Vale citar ainda Gustaf Nilson, alternativa no banco que chegou do Wehen Wiesbaden, da terceirona alemã.

A Union St. Gilloise soma 13 pontos na Liga Europa e não pode mais ser alcançada na liderança do Grupo D. O Malmö, zerado, está eliminado. A briga pela segunda vaga fica entre Union Berlim e Braga. Depois de duas derrotas nas duas primeiras rodadas, os alemães vêm de três vitórias seguidas na chave. Nesta quinta, ganharam dos minhotos na Alemanha por 1 a 0, gol de pênalti anotado por Robin Knoche. Com nove pontos, contra sete do Braga, o Union só depende de si na última rodada. O problema é visitar a USG na Bélgica. Em paralelo, os auriazuis ocupam a quarta colocação no Campeonato Belga. Somam 29 pontos, igualados ao Club Brugge, mas com oito pontos a menos que o líder Genk. Pelo desempenho, as campanhas europeias devem se tornar de novo um costume, tal qual já eram na década de 1960.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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