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Bruno Petkovic reafirmou seu status como herói nacional da Croácia, outra vez talismã, agora na eletrizante semifinal da Nations

Bruno Petkovic saiu do banco para fazer a diferença e se tornar carrasco da Holanda, tal qual já tinha acontecido diante do Brasil

O futebol de seleções é capaz de produzir transformações mágicas. Jogadores pouco reconhecidos por aquilo que fazem nos clubes podem se consagrar como verdadeiros heróis nacionais em uma só partida. Bruno Petkovic é um dos melhores exemplos dos últimos anos. O centroavante é um dos principais ídolos recentes do Dinamo Zagreb, mas sua carreira não se projeta muito além do Campeonato Croata, e só se firmou no país depois de nunca emplacar em times da Itália. Paralelamente, pela seleção da Croácia, Petkovic será lembrado eternamente. O gol de empate contra o Brasil na Copa do Mundo já deve garantir que o atacante não pague a conta do restaurante pelo resto da vida em seu país. E não bastasse aquela classificação memorável, o camisa 17 protagonizou outro épico. Saiu do banco para decidir, na prorrogação, o triunfo por 4 a 2 sobre a Holanda na semifinal da Liga das Nações. Graças a ele, os croatas vão à sua primeira final continental.

Como tantos outros talentos dos Bálcãs, Bruno Petkovic saiu ainda cedo do país. O centroavante rodou por diferentes clubes locais durante as categorias de base, inclusive pelo Dinamo Zagreb. Acabaria fazendo sua transição profissional na Itália, onde acertou de início com o Catania. Não chegaria a fincar raízes em lugar nenhum. Seu início errante contou ainda com passagens por Varese, Reggiana, Virtus Entella, Trapani e Bologna. Atuou nas três primeiras divisões do Campeonato Italiano, mas não chegou a anotar um gol sequer nas 42 aparições que teve pela Serie A. Àquela altura, aos 24 anos, não dava muitos indicativos de que vingaria no futebol de alto nível.

A afirmação de Bruno Petkovic só aconteceu quando o croata voltou para casa e assinou com o Dinamo Zagreb. Chegou logo depois da Copa do Mundo de 2018, longe de fazer parte dos planos de Zlatko Dalic para a seleção. Seu objetivo estava mais em aproveitar a oportunidade no clube e fazer o empréstimo junto ao Bologna se transformar numa contratação em definitivo. Isso ele conseguiu, depois de nove gols e seis assistências no Campeonato Croata de 2018/19. Comprado por €1 milhão, Petkovic se tornou a referência ofensiva do time que domina a liga nacional e faz boas campanhas nas competições europeias. A deixa para que começasse a ser testado na seleção, especialmente diante da lacuna deixada por Mario Mandzukic e sem outros grandes centroavantes à disposição.

Zlatko Dalic promoveu a estreia de Bruno Petkovic pela seleção da Croácia em março de 2019, pelas eliminatórias da Euro 2020. O centroavante chegou a ganhar a posição de titular e anotou quatro gols na campanha, num momento que o garantiu como homem de confiança do treinador. A assiduidade diante das redes não se manteve e, não à toa, o atacante perdeu a posição pouco depois. Apesar disso, ele continuava mantendo sua relevância no Campeonato Croata. Nunca passou dos dez gols pela liga com o Dinamo Zagreb, mas seguia sua sequência de conquistas e tinha ótimo entendimento com os companheiros, muitos deles também presentes na seleção.

Bruno Petkovic não marcou um gol sequer na Euro 2020. Encarou uma seca na seleção que durou dois anos e chegou a se ausentar em parte das Eliminatórias para a Copa do Mundo. Porém, recuperou seu espaço a tempo do Mundial. E o que aconteceu no Catar é notório: o camisa 16 limitava-se aos minutos finais das partidas, mas estava no lugar certo para, a três minutos do fim, cravar a estaca no peito do Brasil durante as quartas de final. Garantiu o empate que forçou os pênaltis e possibilitou a classificação dos axadrezados. Não faria muito mais nas partidas seguintes, mas se gravava como salvador de um dos maiores resultados dos croatas na história.

Lesionado, Bruno Petkovic não participou da Data Fifa de março. Apesar disso, terminou a temporada em alta, com o quinto título consecutivo do Campeonato Croata pelo Dinamo Zagreb e sua melhor marca de gols pela liga desde que retornou ao Estádio Maksimir. Mas não que os 64 tentos em 207 aparições totais pelo clube pareçam tão estrondosos assim. Anotar 10 gols em 30 partidas pela seleção também não foge muito da média. O que faz a diferença é o peso da ocasião em que alguns gols particulares acontecem. E o tento sobre a Holanda nesta quarta-feira, de novo, valeu a memória coletiva para o afortunado Petkovic.

A entrada de Bruno Petkovic aconteceu pelas circunstâncias da partida. Diante da pressão da Holanda no fim do tempo normal, o técnico Zlatko Dalic sacou Andrej Kramaric do ataque e reforçou a zaga. Depois que os alaranjados arrancaram o 2 a 2 em Roterdã, era preciso recompor a linha de frente para a prorrogação e o centroavante reserva entrou. Mais uma vez, mostrou-se iluminado. O terceiro gol da Croácia é uma obra perfeita de Petkovic. Primeiro, pelo giro no meio do campo, desvencilhando-se da marcação de Frenkie de Jong logo no domínio. Depois, pela batida de fora da área. O atacante nem pegou tão forte na bola, mas o movimento do projétil foi preciso o suficiente para não bater na coxa de Virgil van Dijk e para escapulir da luva de Justin Biljow. O gol que desafogou o jogo.

A Croácia tinha sido melhor nos 90 minutos, mas cedeu o empate à persistência da Holanda. A superioridade croata se confirmou nos 30 minutos extras, muito por conta da maneira como o gol de Bruno Petkovic desarmou o ímpeto dos adversários. O centroavante seguia com muito gás e garantia uma ameaça constante. Sofreu o pênalti que rendeu o quarto gol, com Modric fechando a conta em 4 a 2. Ainda quase anotou o quinto, nos acréscimos do segundo tempo extra, não fosse um impedimento. Numa partidaça que saiu melhor do que a encomenda, Petkovic de novo se colocava entre os protagonistas.

É bom salientar que, assim como ocorreu contra o Brasil, Modric foi o melhor em campo. O capitão flutuou durante os 119 minutos em que atuou no De Kuip. Ofensivamente, fez de tudo. Foi quem carimbava todas as bolas e participou diretamente de três dos quatro tentos – com gol, assistência e pênalti sofrido. Mesmo na defesa, seria um dos mais ativos na recuperação rápida dos croatas. Mas se o craque sempre merece a ovação, Petkovic sai de novo com o gosto de ser um talismã. O final feliz contado pelos axadrezados passa pelo papel desempenhado pelo super substituto.

Restam 90 minutos (ou 120, dado o amor pela prorrogação) para a Croácia buscar um título inédito ao seu museu. A conquista da Liga das Nações não é maior do que uma campanha até a final da Copa do Mundo, seguida por outra à semifinal. O reconhecimento histórico desse time dos croatas já está garantido pelo menos desde 2018. Entretanto, seria um complemento mais do que glorioso levar também um caneco e celebrar Modric como um craque que liderou os balcânicos a lugares nunca antes imaginados. Tais feitos, porém, dependem de um time muito competitivo e cascudo. São muitos bons jogadores, fora aqueles que crescem ainda mais na equipe nacional. Bruno Petkovic entra nesta categoria, para permitir mais uma noite de sonho ao seu país. Para ser reconhecido e festejado por onde passar em sua terra natal. É essa a mágica do futebol de seleções.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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