Liga das Nações

A Espanha foi superior mesmo no San Siro, para impor a primeira derrota da Itália em três anos e avançar à final da Liga das Nações

Mesmo com muitos garotos, a Espanha construiu o placar no primeiro tempo e contou com a expulsão infantil de Bonucci

A Itália entrou para a história em 2021, com a reconquista da Eurocopa após 53 anos. A equipe de Roberto Mancini também estabeleceu o novo recorde de invencibilidade do futebol de seleções, com 37 jogos sem perder. Porém, a Espanha já tinha representado a maior ameaça à Azzurra durante a semifinal da Euro 2020. E, nesta quarta-feira, a Roja tratou de impor a primeira derrota dos italianos em mais de três anos. Pela semifinal da Liga das Nações, mesmo com muitos desfalques e tantos garotos que sugeriam até uma convocação experimental, os espanhóis mostraram-se superiores durante quase todo encontro e fizeram por merecer a vitória por 2 a 1, dentro do San Siro. Oyarzabal e Ferrán Torres se entenderam muito bem no ataque, enquanto o garoto Gavi foi uma grata surpresa no meio-campo, ao logo ganhar de Luis Enrique o espaço como titular. Já do lado italiano, a expulsão de Bonucci no primeiro tempo custou caríssimo, com a reação só no fim. O principal prêmio do ano a Itália levou, mas fica uma ponta de melancolia pela derrota, ainda mais em casa.

A Itália tinha algumas mudanças em relação à base campeã da Euro 2020. Gianluigi Donnarumma era o goleiro, sob vaias da torcida que não o perdoou em Milão. Alessandro Bastoni acompanhava Leonardo Bonucci na zaga, com Emerson Palmieri e Giovanni Di Lorenzo nas laterais. O meio-campo reunia Marco Verratti, Jorginho e Nicolò Barella. Já na frente, diante das lesões Ciro Immobile ou Andrea Belotti, uma trinca mais leve era composta por Federico Chiesa, Federico Bernardeschi e Lorenzo Insigne. A Espanha também tinha desfalques. Unai Simón era o goleiro, com Aymeric Laporte e Pau Torres na zaga, além de César Azpilicueta e Marcos Alonso nas laterais. O meio tinha Sergio Busquets, Koke e o estreante Gavi, quebrando recorde como atleta mais jovem a defender a seleção principal. Mais à frente, Pablo Sarabia vinha centralizado, dando liberdade à movimentação de Mikel Oyarzabal pela esquerda e Ferrán Torres pela direita.

Num começo de jogo equilibrado, a Itália até deu o primeiro susto em Milão. Aos cinco minutos, Chiesa arriscou o chute da entrada da área e Unai Simón estava atento para espalmar. Depois, Bastoni também experimentou o goleiro. Porém, logo a Espanha começou a explorar as fragilidades da Azzurra na proteção e ganhou presença ofensiva. Nesta crescente, o gol saiu aos 17. Numa boa troca de passes pela esquerda, Marcos Alonso abriu com Oyarzabal, que fez o cruzamento. A zaga não conseguiu cortar e Ferrán Torres bateu de primeira para as redes.

A Itália se desconcentrou e quase tomou um gol bisonho na sequência. Em arremate de Marcos Alonso, Donnarumma deixou a bola passar por entre suas mãos. Para sorte do goleiro, o tiro bateu na trave e Bonucci estava atento para afastar quase em cima da linha, quando Koke chegava para aproveitar o rebote. O lado direito da defesa italiana sofria um bocado, especialmente com a movimentação de Oyarzabal. Além disso, Sarabia auxiliava também as combinações por aquele flanco.

A Itália demorou para gerar desconforto e pressionar pelo empate. E a igualdade poderia ter vindo depois dos 30 minutos. Primeiro, numa jogada individual de Bernardeschi, que partiu para cima da marcação e chutou no canto. Unai Simón desviou a bola, que ainda bateu na trave. Logo na sequência, Emerson rolou para Insigne fuzilar e o atacante desperdiçou uma excelente chance, livre na área. A Espanha, ainda assim, tentava adiantar sua marcação para evitar o sufoco e conseguia trabalhar bem os passes.

Os planos da Itália iriam por água abaixo aos 42, por um erro tremendo de Bonucci. O zagueiro tinha tomado o primeiro amarelo por reclamação, numa falta favorável aos italianos, e levou o segundo por deixar o cotovelo no rosto de Busquets. A Azzurra precisaria se virar com dez homens. Unai Simón até precisou fazer outra intervenção contra Insigne, mas, sem que Mancini recompusesse de imediato a zaga, a Espanha ampliou nos acréscimos. Mais um cruzamento açucarado de Oyarzabal chegou limpo a Ferrán Torres, que cabeceou conforme o manual e mandou a bola no cantinho.

A Itália recomeçou o segundo tempo com Giorgio Chiellini no lugar de Bernardeschi, para cobrir o rombo na zaga. O time passaria a atuar num 3-5-1, com Chiesa aberto na ala direita. Logo a Espanha também contaria com a entrada do garoto Yeremi Pino, na vaga de Ferrán Torres. A Espanha se sentia confortável em tocar a bola e fazer o relógio correr, sob gritos de olé em Milão. Já a Itália encontrava problemas para ao menos indicar forças à reação. Não à toa, Roberto Mancini ainda traria Moise Kean e Manuel Locatelli para a sequência do jogo, saindo Verratti e Insigne.

Quando a Itália encontrou um espaço, Chiesa conseguiu acertar a trave, por mais que estivesse impedido. Porém, a Espanha era superior em seu papel e pressionava alto, travando os italianos. Tanto é que Oyarzabal quase fez o terceiro aos 18, numa cabeçada que passou ao lado da trave. Mancini realizou a quarta mudança também cedo, com Lorenzo Pellegrini no posto de Jorginho, antes de mandar Davide Calabria na vaga de Barella. Já a Espanha contaria com Mikel Merino e Bryan Gil, saindo Sarabia e Koke. De qualquer forma, era uma partida morna, sem muitos indícios de emoção.

Era impressionante como os garotos da Espanha atuavam com personalidade. Yeremi também faria uma jogadaça aos 33, que só não resultou em gol porque Donnarumma realizou grande defesa contra Marcos Alonso. Todavia, foi um erro de Yeremi que possibilitou a reação da Itália. Numa bola mal recuada pelo novato após escanteio, a Azzurra armou o contragolpe aos 38. Chiesa e Pellegrini aceleraram, com juventino passando para o romanista concluir diante do vendido Unai Simón. Os italianos nas arquibancadas se animaram com o tento, enquanto Luis Enrique reagiu com Sergi Roberto na vaga de Gavi.

A reta final da partida, no entanto, seria mais nervosa do que necessariamente aberta. A Espanha tratou de esfriar o ímpeto da Itália e administrar sua vantagem. Os italianos também não mostraram uma organização tão grande para empatar e nem forçaram novos erros dos adversários – por mais que Chiesa gastasse suas últimas energias na pressão. No máximo, Unai Simón seguiu atento para recolher os cruzamentos mais perigosos. Já os espanhóis até acharam mais espaços na área adversária, com boas infiltrações, mas nada de gol. Nem precisou. Agora a Roja aguarda o vencedor de Bélgica x França nesta quinta, para decidir o troféu no próximo domingo, no próprio San Siro.

Para quem achou que a Espanha merecia sorte melhor na semifinal da Eurocopa, a resposta veio em grande forma. O time de Luis Enrique não sentiu os desfalques, com um ótimo funcionamento coletivo e o entendimento entre seus jogadores. O ataque se movimentou com inteligência, enquanto o meio-campo tomou conta do jogo em Milão. Destaque também para os veteranos das laterais, em especial Marcos Alonso. Já a Itália ficou devendo bastante, em relação ao que se viu nos melhores momentos da Euro. Os italianos até desperdiçaram algumas chances, mas foram dominados em boa parte do tempo e só deram sinal de vida no fim. A derrota não mancha a epopeia da Eurocopa ou o recorde de invencibilidade, mas deixa a impressão de que o time poderia ter feito mais no San Siro, sem a mesma força para terminar de dominar o ano.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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