Suárez, Peiró, Del Sol: A trinca de espanhóis que colecionou títulos na Itália e abrilhantou a Fúria campeã europeia nos anos 1960
Trio de craques espanhóis brilhou na Serie A e também na Champions, enquanto seguiam importantes à seleção da Espanha
Espanha e Itália possuem um trânsito de futebolistas em comum entre suas ligas nacionais. Ver espanhóis na Serie A ou então italianos em La Liga não foi tão corriqueiro durante décadas, mas os nomes se proliferaram especialmente a partir dos anos 1990. Atletas como Raúl Albiol, Borja Valero, José Callejón e Luis Alberto construíram suas trajetórias no Calcio. Álvaro Morata e Fabián Ruiz são os representantes desse contingente do futebol italiano na Roja atual. Já na Liga pintaram figuras como Fabio Cannavaro, Gianluigi Zambrotta, Christian Vieri, Amedeo Carboni, Christian Panucci e Giuseppe Rossi. Ainda que a Azzurra não conte com ninguém brilhando em gramados espanhóis atualmente, não se nega tal relação. E o período mais forte da ligação ocorreu nos anos 1960. De certa maneira, os clubes da Itália estiveram presentes na primeira conquista da Espanha na Eurocopa, em 1964.
Em tempos nos quais a Itália mantinha suas portas abertas a jogadores estrangeiros, antes do embargo ocorrido com o desastre na Copa do Mundo de 1966, foi comum aos clubes locais recorrerem a jogadores do futebol espanhol. Não eram tão numerosos, é verdade, mas fizeram o suficiente para marcar suas histórias na Bota. Luis Suárez, Joaquín Peiró e Luis del Sol conquistaram quatro Scudetti somados entre si. Marcaram época com as camisas de grandes clubes como Internazionale, Juventus e Roma. E não deixaram de participar das convocações à seleção espanhola, com todos eles acumulando participações nos torneios internacionais durante a década de 1960. Suárez e Del Sol seriam campeões da Euro 1964, com o primeiro inclusive eleito à equipe ideal da competição.
A ponte aérea entre Espanha e Itália começa a partir de 1961. Foi quando Luis Suárez chegou à Internazionale como um dos maiores negócios da história do futebol europeu. Os nerazzurri quebraram o recorde de maior contratação realizada no futebol até então, superando o total desembolsado pela Juventus para tirar Omar Sívori do River Plate quatro anos antes. O valor era tão alto para os padrões de La Liga que, segundo o próprio Suárez, os dirigentes do Barcelona não acreditaram na proposta inicial e pensaram que o valor não surgiria na hora de fechar o acerto, mas acabaram mudos com o cheque em branco. Com os 25 milhões de pesetas recebidos, o clube construiu um dos anéis do Camp Nou, seis anos após a inauguração do estádio. E tal valor suntuoso tinha seus motivos, considerando o excelente futebol apresentado pelo craque no Barça.
Suárez era a estrela de um timaço que foi bicampeão do Campeonato Espanhol em 1958/59 e 1959/60. Ao lado de Evaristo de Macedo, ainda liderou os blaugranas no confronto que encerrou a hegemonia do Real Madrid penta na Copa dos Campeões. Não deu para levar o título em 1960/61, com a derrota pra o Benfica na decisão, mas a grandiosidade daquela equipe era inegável. Tanto é que Suárez faturou a Bola de Ouro em 1960, superando Ferenc Puskás e Alfredo Di Stéfano para levar a honraria. Ainda acabaria com a segunda colocação no prêmio ao final de 1961, atrás de Omar Sívori por apenas seis votos. Entretanto, por uma rivalidade criada pela imprensa com László Kubala, o maestro começou a ser vaiado pela própria torcida barcelonista. Por mais que gostasse do clube, optou por sair diante da situação.
A transferência de Luis Suárez para a Itália tinha um grande motivador: Helenio Herrera. O treinador conduziu o Barcelona no bicampeonato espanhol e foi capaz de rivalizar com o Real Madrid naqueles tempos, mas a relação conturbada com a diretoria encerrou sua passagem após a queda na semifinal da Champions de 1959/60. Com isso, o argentino assumiria a Inter. E contaria com a presença de Suárez para iniciar sua revolução. Se a fama daquela equipe nerazzurra era de aplicar um futebol defensivo, no auge do Catenaccio, Suárez acrescentava uma pitada de talento ao esquadrão. Deixou de ser o definidor dos tempos de Barça para virar um verdadeiro armador, apelidado de “Arquiteto” por suas assistências e sua visão. Os lançamentos do espanhol eram essenciais, assim como seu entrosamento com Sandro Mazzola, Jair da Costa e Mario Corso no setor de criação.

Suárez ainda não conquistou a Serie A em sua primeira temporada com a Inter, embora tenha anotado 11 gols na campanha do vice-campeonato em 1961/62. E não foi o fato de atuar no exterior que o impediu de ser convocado à Copa do Mundo de 1962 – ainda mais quando o próprio Helenio Herrera se incumbia de dirigir a Roja. Não dava para prescindir do talento de um dos melhores do mundo, por mais que a Espanha tenha sucumbido logo na fase de grupos, superada por Brasil e Tchecoslováquia em sua chave. Suárez foi titular em duas partidas naquela campanha, como interior esquerdo na linha de cinco atacantes. Teve a companhia também de Joaquín Peiró como interior direito e de Luis del Sol na ponta direita. Outros dois que arrumariam as malas para a Itália depois do Mundial.
Del Sol tinha inclusive raízes italianas, embora nascido em Castela e criado na Andaluzia. O ponta iniciou sua carreira no Betis e foi um dos grandes ídolos do clube durante os anos 1950, até se transferir para o Real Madrid em 1960. Seria bicampeão de La Liga e viraria um dos destaques do time no ciclo posterior ao penta continental. Todavia, a proposta da Juventus era muito boa para se recusar (especialmente quando os merengues precisavam de dinheiro, após a construção recente de seu centro de treinamentos) e o jogador de 27 anos viraria uma das novas estrelas dos bianconeri num período de transição após a sequência de títulos nacionais. Seria uma peça de extrema importância ao equilíbrio da equipe, por seu incansável dinamismo e também por sua resistência – a ponto de ganhar o apelido de “sete pulmões” em sua estadia na Bota.
Peiró, por sua vez, era estrela de um forte Atlético de Madrid que acabava eclipsado por Real e Barça no período. Formado nas categorias de base, o prodígio virou uma referência da equipe a partir da metade final dos anos 1950. Assim, liderou os colchoneros em conquistas da Copa do Rei e da recém-criada Recopa Europeia, brilhando na final contra a Fiorentina em 1962. Dono de grande velocidade e também de poder de decisão, o atacante arrumou as malas para a Serie A pouco depois da conquista continental em cima da Viola. Conviveria com Del Sol, mas vivendo o outro lado da rivalidade em Turim, ao acertar seu novo contrato com o Torino.
Curiosamente, o trio espanhol na Serie A deixaria as convocações da seleção espanhola naquele período. O técnico José Villalonga, antigo comandante do Atlético de Madrid, iniciava uma renovação após a decepção na Copa de 1962 e apostava nos jovens destaques de La Liga. Assim, os três acabariam relegados ao esquecimento nas convocações iniciais rumo à Euro 1964. E não por falta de bola. Luis Suárez comandou a Internazionale na conquista do Scudetto de 1962/63, tornando-se o primeiro jogador espanhol a faturar o Campeonato Italiano. Del Sol também viraria um dos destaques da Juventus em seu primeiro ano. Apenas Peiró teve dificuldades de emplacar no Torino, disputando menos da metade das partidas pela Serie A e anotando somente um gol.
A importância dos três espanhóis se seguiu também durante a Serie A 1963/64, especialmente com a recuperação de Peiró. O ponta de lança viraria um dos melhores jogadores do Torino e abrilhantou o time de Nereo Rocco com nove gols, culminando na sétima colocação do campeonato. Del Sol também teve sua dose de destaque, com seis gols pela Juve, ainda que a equipe perdesse forças em relação à virada da década. Mesmo assim, ninguém se equiparava ao sucesso de Suárez. Se o craque não conquistou a Champions com o Barcelona, o faria vestindo a camisa da Inter. Seria um dos artífices na campanha do título em 1963/64, vestindo a camisa 10 da equipe que derrotou o Real Madrid na decisão em Viena.

Para a Euro 1964, Villalonga encerraria o exílio dos espanhóis em atividade no Calcio. Luis Suárez e Del Sol foram convocados à seleção espanhola que disputaria em casa a fase final do torneio. Os dois tinham atuado apenas no jogo de volta da segunda fase eliminatória, relativa às oitavas de final, quando o empate em casa com a Irlanda do Norte exigiu a vitória por 1 a 0 em Belfast. Com o chamado à etapa decisiva da Eurocopa, tornaram-se os dois primeiros jogadores atuando por clubes de fora de seu país a figurar na competição continental. Curiosamente, mesmo sendo velho conhecido do treinador e se dando bem no Torino, Peiró acabou excluído da lista final. Veria de longe seus companheiros participarem da primeira grande glória da Fúria.
Del Sol esquentaria o banco da Espanha na Euro 1964. Enquanto isso, Suárez era o dono da camisa 10 e o jogador mais talentoso na criação, servindo de referência a um grupo rejuvenescido. O meia compunha o setor ofensivo com outras feras como Marcelino, Chus Pereda e Amancio Amaro. Já seria importante na vitória por 2 a 1 sobre a Hungria na semifinal, em que deu o passe para que Pereda abrisse o placar num resultado só arrancado durante a prorrogação. Já na decisão diante da União Soviética, permaneceria como figura influente na nova vitória por 2 a 1, desta vez resolvida por Marcelino a seis minutos do fim. O camisa 10 seria um dos grandes símbolos daquela equipe da Roja. Não à toa, de novo pintaria com destaque na eleição da Bola de Ouro e seria o segundo mais votado, atrás apenas do vencedor Denis Law.
Para a temporada seguinte, Suárez ganhou companhia na Internazionale. Peiró virou um dos principais reforços dos nerazzurri em busca de novos títulos. Seria exatamente a temporada mais vitoriosa da equipe sob as ordens de Helenio Herrera. A Inter não apenas reconquistou o Scudetto na Serie A 1964/65, como também se sagrou bicampeã da Champions. O novato teria um papel decisivo no torneio continental, já que no Italiano a presença de estrangeiros era limitada a dois jogadores por partida – com a prioridade dada a Jair e Suárez. Na campanha do título europeu, Peiró marcou gols na vitória sobre o Rangers nas quartas de final e principalmente na reviravolta diante do Liverpool na semifinal. Foi um tento de pura malandragem diante dos Reds, em que roubou a bola do goleiro Tommy Lawrence enquanto este a quicava. Para Del Sol, a consolação ficava com a conquista da Copa da Itália em 1964/65, em cima dos próprios compatriotas da Inter.
Já a temporada de 1965/66 veria a hegemonia da Internazionale ser renovada na Serie A. O time de Helenio Herrera não conseguiu o tricampeonato da Champions, desbancado pelo Real Madrid na semifinal, mas emendou o bicampeonato na liga nacional. Peiró seria menos utilizado naquela campanha, priorizado por HH no torneio continental. Em compensação, Suárez quebraria seu recorde de minutos em campo numa edição do Campeonato Italiano. Para Del Sol, restava mais uma vez o papel secundário da Juventus. Mas isso não custaria seu espaço na Copa do Mundo de 1966. O trio italiano acabaria convocado por Villalonga para a Fúria que disputou o Mundial da Inglaterra.
Apesar da força da equipe, a Espanha mais uma vez decepcionou na Copa de 1966. O time venceu apenas a Suíça, num grupo no qual se classificaram Alemanha Ocidental e Argentina. Suárez e Peiró foram titulares nas duas primeiras partidas, enquanto Del Sol se somou ao time no triunfo sobre os suíços. Porém, o trio veria do banco a derrota diante dos alemães ocidentais, em virada arrancada apenas nos minutos finais. Ainda que aquela geração da Fúria tenha alcançado o topo da Europa, seu desempenho nos Mundiais seria bastante aquém da qualidade de seu elenco – especialmente pensando que o país sequer esteve presente em 1958.

A Copa de 1966 marcou o ponto final às trajetórias de Suárez, Del Sol e Peiró pela seleção espanhola. Eles então seriam felizes nos clubes. E a temporada 1966/67 finalmente permitiu que Del Sol levasse o seu Scudetto com a Juventus, superando a Inter na última rodada. Era uma equipe muito tática e empenhada, sob as ordens de Heriberto Herrera. O meio-campista se casava perfeitamente com esse ideal e permanecia como uma figura essencial aos bianconeri, titular em 28 partidas daquela campanha. Desfrutaria um merecido sucesso, em seu quinto ano como um dos principais jogadores juventinos. Paralelamente, Suárez acabou como vice da Champions na marcante derrota da Inter diante do Celtic. Peiró não fazia mais parte daquele grupo, aliás. O atacante havia arrumado as malas pela Roma e viveu seu melhor ano individualmente pelo Calcio. Foram dez gols por uma equipe que terminou fazendo uma campanha de meio de tabela, na décima colocação.
A partir de então, os veteranos se encaminharam ao fim da carreira na própria Itália. Luis Suárez permaneceu prestigiado na Internazionale por mais três temporadas, completando nove anos de clube. A saída de Helenio Herrera marcou o enfraquecimento da equipe, mas o camisa 10 permaneceu como uma figura intocável na armação dos nerazzurri. Em 1970, acabaria se mudando para a Sampdoria. Mesmo num nível de ambição mais baixo dentro do Calcio, o medalhão teve seus brilhos pontuais no Marassi e pendurou as chuteiras em 1973, aos 38 anos. O craque somou 319 partidas e 51 gols pela Serie A, sendo um dos únicos sete estrangeiros que superaram a barreira dos 300 jogos pela liga até a reabertura dos portos a partir dos anos 1980. Já como treinador, Suárez começou sua trajetória na própria Itália. Dirigiu Inter, Cagliari, SPAL e Como, antes de volta à Espanha. Foram oito anos à frente da seleção sub-21, até comandar a Fúria na Copa de 1990. Nos anos seguintes, ainda teria mais dois breves períodos como técnico da Inter.
Peiró ficou na Roma por quatro temporadas, se despedindo em 1969/70. Por lá, se reencontrou com Helenio Herrera e virou até capitão. Seu grande momento de brilho aconteceu na conquista da Copa da Itália de 1968/69, quando já usava a braçadeira e acumulou uma série de gols decisivos no quadrangular final. Sua despedida dos giallorossi marcou também o fim de sua carreira. Aos 34 anos, o medalhão até ensaiou um retorno ao Atlético de Madrid, mas uma séria lesão antes da reestreia o forçou a pendurar as chuteiras. Somando seus três times, foram 174 partidas pela Serie A e 40 gols anotados, mais frequente com a camisa romanista.
Por fim, Del Sol completou oito temporadas como jogador da Juventus, até se despedir também em 1969/70. O meio-campista disputou 293 partidas pela Velha Senhora, juntando todas as competições. Ainda teria uma passagem final pela Roma, logo depois da saída de Peiró. O veterano trabalhou com Helenio Herrera por alguns meses na capital, mas o treinador deixaria os giallorossi na primeira temporada do espanhol em campo. Herdando a braçadeira de Peiró, ficou por dois anos como titular dos romanistas, até retornar à Espanha em 1972/73, para fazer mais três aparições por La Liga com o Betis, onde tudo havia começado. Somente pela Serie A, Del Sol figurou em 278 jogos e assinalou 24 gols.
Mesmo com a reabertura da Serie A para estrangeiros, a Itália só teve um jogador espanhol de volta em seu campeonato na temporada 1988/89, quando o meio-campista Victor Múñoz trocou o Barcelona pela Sampdoria. Ainda assim, nenhum dos compatriotas que passaram pela competição conseguiriam deixar marcas tão profundas quanto o trio Suárez-Peiró-Del Sol. Mesmo na seleção, uma geração talentosa só voltou a levar a Fúria tão longe na Euro 2008, quando se encerrou o hiato de 44 anos sem um título de primeira grandeza. Dos dois lados da rivalidade entre espanhóis e italianos, a trinca talentosíssima deixa lembranças marcantes.



