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Southgate construiu as fundações e agora precisa ir além delas para que a Euro 2020 seja um começo e não um fim

Há méritos incontestáveis nos resultados que a Inglaterra conquistou com ele - mas também uma sensação de que este time pode fazer mais

Até certo momento da final da Eurocopa, tudo caminhava para Gareth Southgate ser tratado como um gênio. Entrou com três zagueiros pela primeira vez desde as oitavas de final e, em dois minutos, o ala direito cruzou para o ala esquerdo abrir o placar e colocar a Inglaterra no caminho de seu primeiro título em 55 anos. Agora, após a derrota, fica mais marcado pela maneira como seu time recuou muito cedo e por ter colocado crianças para bater os pênaltis decisivos.

Para variar, não é nem tanto ao céu e nem tanto à terra, e o trabalho de Southgate tem sido exatamente assim desde o início. Acertos e feitos históricos, erros e decisões que são um pouco incompreensíveis. Uma irregularidade normal. Ele assumiu a Inglaterra meio no susto, depois da demissão abrupta de Sam Allardyce, sem bagagem como técnico principal, e comanda uma equipe extremamente jovem, na qual apenas Kyle Walker, Jordan Henderson e Kieran Trippier têm mais de 30 anos.

Justamente por isso, apesar de ser grande a dor de perder um título em casa, após tanto tempo longe da final, talvez com o passar do tempo essa derrota não pareça tão trágica à Inglaterra quanto as anteriores porque existe uma fundação que, se for bem trabalhada, pode fazer com que ela seja um começo, e não um fim.

Barreiras psicológicas foram superadas desde o começo desta caminhada. Ok, pode ser que a dos pênaltis tenha voltado, mas a Inglaterra retornou a uma semifinal de Copa do Mundo pela primeira vez em 28 anos, retornou a uma final pela primeira vez em 55 anos, ganhou um jogo decisivo da Alemanha, achou um goleiro e tem passado longe das polêmicas extra-campo que enchiam as páginas dos tabloides e prejudicaram as campanhas da geração anterior.

Cria um ambiente positivo e que precisa ser transferido a um bom desempenho em campo. E nele, a Inglaterra tem uma identidade. Podemos gostar ou não da maneira como joga, e nem sempre dá certo, mas é uma equipe organizada e que sabe o que faz. A defesa, com dois ou três zagueiros, é muito sólida. Os laterais foram destaques, tanto na defesa, como Kyle Walker, quanto no ataque, como Kieran Trippier e Luke Shaw, e ainda tem Trent Alexander-Arnold para se juntar a eles.

Da mesma maneira, Kalvin Phillips e Declan Rice fizeram uma dupla de volantes muito sólida na frente da defesa, e um Jordan Henderson em melhor forma física oferece mais opções. Na fase ofensiva, não tem pressa, a ponto de às vezes exagerar na lentidão dos passes, mas não entrega a bola de graça. Busca os espaços com paciência e tem talento individual suficiente em jogadores como Raheem Sterling, Harry Kane, Jack Grealish e outros para fazer as coisas acontecerem.

Essa base foi suficiente para que a Inglaterra fizesse a segunda melhor sequência de duas competições em sua história, o que certamente diz mais sobre a história da Inglaterra do que sobre o trabalho de Southgate, mas foram boas campanhas, apesar de justas ponderações – uma chave mais tranquila na Copa do Mundo de 2018 e aquele pênalti malandro de Sterling contra a Dinamarca. Agora, vamos ao que precisa melhorar.

É um caso específico, mas a estratégia para os pênaltis foi um desastre. Colocar dois jogadores frios a minutos do fim da prorrogação apenas para batê-los já é um risco enorme por toda a responsabilidade extra que esse tipo de substituição envolve. Fazê-lo com dois garotos que nem são especialmente bons no fundamento é ainda pior e fechar a disputa com um terceiro moleque é imperdoável. Saka parecia que estava em um filme de terror ao caminhar para a grande área e de certa maneira estava mesmo.

Existe a possibilidade que alguns dos mais experientes tenham se recusado, ou dito que não se sentiam bem? Existe. Mas todos eles? Qualquer outro disponível tinha mais cancha que Saka, Sancho e Rashford, o mais experiente dos três, e que às vezes cobra pênaltis no Manchester United, mas geralmente todos têm sido batidos por Bruno Fernandes. O erro ganha outras dimensões por ter sido cometido por um homem que passou os últimos 25 anos remoendo uma disputa de pênaltis, desde que errou sua batida na semifinal da Eurocopa de 1996, e portanto dá muita importância para esse aspecto de uma grande competição.

A seu favor, Southgate assumiu total responsabilidade. “Eu decidi os batedores com base nos treinos e ninguém está sozinho. Vencemos como time e é culpa de todos nós não termos vencido o jogo nesta noite. Mas em termos de pênaltis, a decisão foi minha. A responsabilidade é toda minha”, disse.

O fato de que ainda tinha duas substituições para queimar a minutos do fim da prorrogação denota o principal problema mais amplo: a sensação de que Southgate não tira tudo que pode de um elenco talentoso. Precisa armar a equipe de maneira tão cautelosa? Ele carrega essa crítica desde o Mundial da Rússia e usou momentos do ciclo para testar equipes mais abertas. Dessas experiências saíram goleadas e partidas em que a fragilidade defensiva foi visível, e também o 4-3-3 ou 4-2-3-1 usado na Eurocopa, mas ainda com uma postura pouco agressiva.

O conservadorismo também se viu no manejo das peças – o que melhorou a partir do mata-mata em relação à fase de grupos. Mas mesmo nessas últimas duas partidas, chegou à prorrogação contra a Dinamarca ainda cheio de alterações por fazer e elas tão claramente melhoraram a Inglaterra que é justo questionar por que não foram feitas antes para tentar resolver a partida no tempo normal.

Contra a Itália, Jack Grealish também foi deixado para o tempo extra e rapidamente assumiu as rédeas da criação inglesa, se movimentando por todo o campo de ataque, driblando em sequência, dando passes mais agudos. Por que não entrou antes? Naqueles 30 minutos do segundo tempo em que a Inglaterra estava acuada? Recuar tão cedo dentro da final também foi um problema, mas tem um pouco da característica deste time inglês e um pouco dos méritos da Itália para pressioná-lo. Ainda assim, demorou demais para fazer as mudanças que estancaram a sangria e garantiram a prorrogação.

Southgate tem poder de fogo para fazer mais. Jadon Sancho teve uma oportunidade de verdade, o jogo inteiro contra a Ucrânia nas quartas de final. Disputou sete minutos em todo o restante da Euro 2020. É verdade que boa parte das opções ainda envolve jogadores muito jovens, e talvez o desenvolvimento natural de suas carreiras acabe fazendo com que eles se imponham como titulares no futuro próximo. Um time que, apenas do meio para a frente, conta com Mason Mount, Phil Foden, Jadon Sancho, Saka, Marcus Rashford, Raheem Sterling, Grealish e Harry Kane pode ter um sistema ofensivo mais produtivo. Provavelmente terá que abrir mão de um pouco de solidez defensiva, mas a chave para o sucesso desta Inglaterra será descobrir se Southgate consegue encontrar esse equilíbrio.

As críticas ao seu trabalho são justas. Os elogios também. O futebol de seleções é assim hoje em dia. São raros os trabalhos perfeitos porque a comparação com o que é feito nos clubes, com treinos no dia a dia, projetos de médio e longo prazo, é muito injusta e, como cenário secundário no futebol europeu, raramente conta com treinadores do mais alto nível. Alguém como Roberto Mancini, cuja carreira teve muitos títulos e também questionamentos ao seu estilo de jogo, já faz muita diferença. Entre erros e acertos, Southgate deixou a Inglaterra muito próxima de um título e não ficou tão longe assim de uma final de Copa do Mundo.

Não quer dizer que não exista um ser humano no mundo que faria um trabalho melhor que Southgate. Quer dizer que, se ele saísse, não entraria Pep Guardiola. Provavelmente alguém mais próximo de Eddie Howe e é natural que a Federação Inglesa não esteja afim de correr esse risco. Porque o histórico de técnicos da Inglaterra nos últimos 30 anos contém mais erros que acertos e, em Southgate, residem algumas certezas. Ele tem sido especialmente importante na condução extracampo e na administração de egos dentro do vestiário, dois pontos sempre críticos da época de Beckham, Owen e Rooney, e mesmo em campo houve uma evolução entre a Copa de 2018 e a Euro de 2021.

Suficiente? Ainda não. O cronograma de seleções também é mais lento. Mas talvez Southgate nunca consiga acertar o ponto certo entre a defesa quase intransponível que ele já se mostrou capaz de montar e um ataque que aproveite melhor as peças que estão à disposição. O certo é que, pela primeira vez em muito tempo, a seleção inglesa tem um elenco que não deve muito aos das principais seleções, com exceção da França, e tem um caminho claro pela frente. Possui jovens talentos que podem desabrochar e uma espinha dorsal – Sterling, Kane, Maguire, Henderson – ainda com idade para pelo menos mais um ciclo. Caso Southgate se mostre capaz de fazer o que precisa fazer, a decepção na Euro 2020 pode ser apenas um passo na trajetória para algo maior.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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