Eurocopa

Guia da Eurocopa 2016: Grupo E

Este grupo tem uma campeã do mundo e campeã da Eurocopa, mas não é cabeça de chave. A Itália é o time mais tradicional e de mais camisa neste grupo, mas tem pela frente a Bélgica, a cabeça de chave, que vem em boa fase, mas ainda precisa se provar como seleção. As duas irão se enfrentar logo na primeira rodadas, mas também terão que encarar Ibrahimovic e a Suécia, além da Irlanda.

BÉLGICA

A Bélgica chega à Eurocopa como uma seleção com potencial para causar estragos. A boa Copa do Mundo de 2010, quando chegou até as quartas de final e caiu só diante da Argentina, dá esperanças aos belgas para ir além. A campanha nas Eliminatórias foi tranquila. A equipe terminou em primeiro lugar no Grupo B com 23 pontos, dois a mais que Gales, segundo colocado. Deixou para trás Bósnia, Israel, Chipre e Andorra. Foi cabeça de chave à frente da Itália e é favorita a avançar. O grupo, porém, promete dificuldades. A Bélgica não tem tradição de ir longe e precisará ter força mental – algo que normalmente é uma características da Itália, adversária do grupo.

Como joga

O treinador Marc Wilmots usa normalmente o seu forte poder ofensivo. Na Eliminatórias, fez 24 gols em 10 jogos, com saldo de 19. Joga ora com três meio-campistas e três atacantes, ora em um 4-2-3-1. O time usou muitos zagueiros nas laterais, como Alderweireld e Vertonghen. A ausência de Kompany, um deles deve formar a zaga. Os grandes talentos do time estão mesmo no ataque. Kevin de Bruyne, Eden Hazard e Romelu Lukaku devem ser os jogadores mais avançados e seriam uma preocupação a qualquer time.

Destaque

Kevin de Bruyne, da Bélgica (AP Photo/Francois Walschaerts)
Kevin de Bruyne, da Bélgica (AP Photo/Francois Walschaerts)

Kevin de Bruyne. Um dos melhores jogadores da última temporada, De Bruyne é um jogador muito perigoso em vários quesitos. É habilidoso, rápido e tem ótimo passe. Não faz feio também quando o assunto são os chutes de fora da área. Chega à Eurocopa em fase muito melhor do que o companheiro Eden Hazard, talvez o jogador que mais tenha chamado atenção na Bélgica nos últimos anos.

Fique de olho

Michy Batshuayi. Aos 22 anos, o atacante do Olympique de Marseille ainda não é dos jogadores mais falados do futebol europeu, mas fez uma ótima temporada jogando na França. É alto, com 1, 85 metro, e tem um chute potente. Fez 17 gols na Ligue 1 em 36 jogos e merece atenção. Pode pintar bem já nesta Eurocopa.

Histórico na Eurocopa

São quatro Eurocopas na história: 1972, quando jogou em casa; 1980, na Itália, quando acabou em segundo lugar ao perder para a Alemanha na final e desclassificando a própria anfitriã; em 1984, parou na fase de grupos; em 2000, quando foi novamente sede, junto com a Holanda. Novamente ficou na primeira fase.

Fora de campo

A Bélgica está no centro da questão do ataque terrorista em Paris, em novembro de 2015. Três dos suspeitos viviam na Bélgica. Em março, os ataques terroristas foram no próprio território, em Bruxelas. Armas vindas da Bélgica, que seriam de Monbeleek, um bairro de imigrantes de Bruzelas, foram usadas no ataque ao supermercado de Paris.

Acredita-se que a Sharia4Belgium, uma organização criada em 2010 para promover as leis islâmicas, se tornaram, ao invés do propósito original, uma forma de recrutar combatentes para o Estado Islâmico na Síria. O país ganhou um título indesejado: o de ser o que mais contribui para o Estado Islâmico, per capita, o que a tornou uma incubadora do radicalismo do EI, ou Daesh, como chamam na França.  Por isso, a questão política na Bélgica levanta questões importantes sobre cultura e debates sobre islamofobia.

ITÁLIA

A Azzurra fez uma campanha tranquila nas Eliminatórias, com classificação antecipada e sem sustos. Chega à Eurocopa, porém, cercada de questionamentos, seja pela convocação, seja pela forma de jogar. Conte irá para a sua primeira e única competição no comando da Azzurra, porque já está acertado com o Chelsea para depois da competição.

Uma das grandes críticas é justamente não ter escolhido alguns jogadores que se destacaram na Serie A, como Bonaventura, do Milan. O time não convence e não tem um jogador capaz de carregar o time, como Bélgica e Suécia, adversárias do grupo, tem em Hazard e Ibrahimovic, respectivamente. Resta saber se a baixa expectativa para o time fará com que a Itália cresça, já que a Azzurra parece gostar de situações onde ela não é favorita.

Como joga

Antonio Conte adotou a formação com três zagueiros no final da campanha nas Eliminatórias e parece ter ficado satisfeito. Libera os seus laterais e mantém um meio-campo encorpado, já que o time não tem um armador talentoso. O time pode variar para ter dois ou três atacantes> o time deve usar lançamentos longos e bola aérea, mas também as jogadas pelos lados do campo com Candreva e El Shaarawy.

Destaque

Leonardo Bonucci, zagueiro da Juventus e da Itália (AP Photo/Andrew Medichini)
Leonardo Bonucci, zagueiro da Juventus e da Itália (AP Photo/Andrew Medichini)

Leonardo Bonucci. O zagueiro é um dos principais jogadores da Azzurra. Peça-chave na Juventus tetracampeã italiana, é o pilar defensivo do time, rápido, bom na bola aérea, ajuda a dar saída de bola com qualidade e pode ser uma ameaça eventual no campo de ataque, em bolas paradas. Dos atuais zagueiros, é quem fez a melhor temporada (seguido de perto por Giorgio Chiellini, seu companheiro na Juventus). O fato de jogar ao lado de companheiros e Juventus, Barzagli e Chiellini, deve ajudar no seu desempenho.

Fique de olho: Federico Bernardeschi

Aos 22 anos, é o jogador mais jovem da seleção italiana nesta Eurocopa. O jogador da seleção italiana é meio-campista e já foi destaque da Fiorentina, com a camisa 10 que já foi de Baggio. É canhoto, habilidoso e trabalha normalmente pelos lados do campo. Só tem quatro jogos oficiais pela seleção principal da Itália, mas pode ganhar espaço nesta campanha.

Histórico na Eurocopa

Tem oito participações em Eurocopas, com um título, um quarto lugar, uma semifinal e dois vice-campeonatos. No seu único título de Eurocopa, em 1968, a Itália contou com a sorte para chegar até a final. Não, não é uma opinião, é exatamente isso: na semifinal contra a União Soviética, o jogo terminou empatado por 0 a 0. A disputa, então, foi para a moedinha. A Itália levou no cara ou coroa e foi para a final. Já imaginou isso hoje?

Fora de campo

A Itália é um dos países que tem atuado contra a austeridade imposta pela União Europeia. A Europa vive um momento delicado, com muitos partidos mais céticos quanto à manutenção da UE como está, incluindo aí um questionamento sobre o uso de moeda única. Matteo Renzi, primeiro ministro italiano, é um dos que questiona a política de austeridade do norte europeu, especialmente de lideranças como Angela Merkel.

A Itália é parte de um movimento do sul europeu onde esse clima contra austeridade tem crescido. São países que sentiram mais fortemente a crise, como Portugal, Espanha e a própria Itália. O mantra da UE tem sido corte de gastos e aumento de impostos, algo que os países do sul europeu não querem fazer, ao contrário. Com dívida de 160% do PIB, a Itália não parece ter opção.

IRLANDA

A Irlanda chega à Eurocopa como uma mera coadjuvante. Esteve no Grupo D das Eliminatórias e terminou com 18 pontos, atrás de Alemanha, líder, com 22, e Polônia, com 21. Teve que disputar a repescagem e superou a Bósnia. Com o técnico Martin O’Neill, tentará surpreender, mas é o time mais fraco do grupo. Terá que surpreender. Terá Robbie Keane, o veterano, aos 35 anos, para comandar o time.

Como joga

O time joga de maneira simples, com linhas de meio-campo e defesa bastante organizadas. Às vezes o time joga com três atacantes, mas mesmo assim, são atacantes que compõe a marcação, como Jonathan Walters e Shane Long. O time se posta de maneira defensiva, atua com velocidade e tem jogadores que podem causar problemas em contra-ataques. Não tem muito talento, mas é um time muito forte fisicamente.

Destaque

Shane Long é o camisa 9 da Irlanda (AP Photo/Peter Morrison)
Shane Long é o camisa 9 da Irlanda (AP Photo/Peter Morrison)

Shane Long. O atacante do Southampton é o principal jogador da Irlanda. Embora não seja um jogador de grande talento, é alguém que corre muito e, aos 29 anos, é o jogador que mais brilha pela seleção. Não faz muitos gols na Premier League, mas pela seleção é o jogador com mais capacidade de colocar a bola na rede. Ao menos é o que se espera com ele vestindo a camisa 9. São 16 gols em 63 jogos pela Irlanda. E ele espera aumentar o número na Eurocopa.

Fique de olho: Cyrus Christie

O lateral direito reserva é o mais jovem do elenco irlandês. Não é exatamente um jovem prodígio, mas é um jogador que tem continuidade no Derby County, um time que fez uma campanha digna na Championship, a segunda divisão inglesa. Coleman é o titular, mas se necessário, Christie parece pronto a entrar, como foi no jogo contra a Eslováquia, em amistoso disputado em março.

Histórico na Eurocopa

São apenas duas participações em Eurocopas, em 1988 e 2012. Nas duas , caiu na primeira fase. Ou seja: não tem lá muita tradição na competição.

Fora de campo

A situação da Irlanda não é boa quando se fala da sua economia. O país tem um custo de vida alto e, segundo a Irish Small and Medium Entrerprises Association (Associação Irlandesa das Pequenas e Médias Empresas, em português, ou a sigla ISMEe m inglês), o preço dos produtos para o consumidor final no país é 20% maior que a média da zona da União Européia. Há uma grande pressão para que o governo irlandês corte custos, mas assim como em outros países do bloco, o corte de benefícios sociais é muito mal visto pela população.

Há protestos, por exemplo, para que o programa de construção de casas populares destine mais casas a bairros de Dublin, onde os moradores estão sendo empurrados a morar mais distantes pelos altos preços dos aluguéis, como em Ringsend, no sul da cidade. O Ministro da Proteção Social, Leo Varadkar, é pressionado para não cortar o Child Benefit, um benefício pago pelo governo aos pais ou donos da guarda de filhos abaixo de 16 anos ou, se o filho estiver em educação em tempo integral, abaixo de 18 anos. Este é um dos gastos sociais que o governo poderia cortar, mas o ministro já disse que não acontecerá.  A pressão, porém, vai continuar.

SUÉCIA

Um time, uma chance. A Suécia vai à Eurocopa com a expectativa de ver o seu grande astro brilhar. Nas Eliminatórias, o time não passou nem perto de ser brilhante. Ficou em terceiro lugar no grupo G, atrás da Áustria e da Rússia. Foi para a repescagem e passou pela rival nórdica, a Dinamarca, Em casa os suecos venceram e empataram gora. Sempre com gols de Ibrahimovic, como precisará ser na Eurocopa se quiser ir além da fase de grupos.

Como joga

Alguém mais maldoso talvez dissesse que o esquema é 4-2-3-toca-no-Ibra. O time caria de formação, mas pode jogar com dois atacantes mais enfiados na área ou então em um 4-2-3-1, com Ibrahimovic atrás de um atacante mais pesado, como Berg. A formação com dois atacantes mais enfiados tem sido mais comum, podendo ser Ibrahimovic e Berg ou Guidetti.

Destaque

Ibrahimovic é o grande astro da Suécia (Fredrik Sandberg / TT via AP)
Ibrahimovic é o grande astro da Suécia (Fredrik Sandberg / TT via AP)

Zlatan Ibrahimovic. Um dos mais importantes atacantes do futebol mundial, Ibra, aos 34 anos, terá a sua última chance de brilhar em uma Eurocopa, um torneio mais possível de ganhar do que uma Copa do Mundo. A sua temporada no PSG foi fantástica, com 50 gols marcados em 51 jogos na temporada. Só na Ligue 1 foram 38 gols em 31 jogos. Chega tinindo à Euro e com a expectativa de ir para um novo clube.

Fique de olho

Victor Lindelöf é um zagueiro de 21 anos que defende o Benfica. Foi nesta temporada que o jogador ganhou espaço nos encarnados, campeões portugueses. Começou a temporada no time B, ganhou espaço e terminou como titular. Em tempo que Luisão, capitão do time, vai perdendo espaço, ele é um jogador para se prestar atenção.

Histórico na Eurocopa

São cinco participações em Eurocopas, a primeira delas em 1992, quando foi sede. Foi também a sua melhor participação, caindo só na semifinal. Em 2000 caiu na fase de grupos; em 2004 foi até as quartas de final; em 2008 e 2012 ficou novamente na fase de grupos.

Fora de campo

Você usa Spotify? Sabia que o serviço é da Suécia? A capital do país, Estocolmo, é uma das cidades que mais cresce e tem um boom digital. “Programar é ocupação mais comum em Estocolmo atualmente”, diz Mikael Damberg, ministro de empresas na Suécia, em entrevista à revista Economist. O setor de tecnologia emprega 18% dos trabalhadores, bem acima da média de 10% nos países da zona do Euro.

Há diversas empresas do setor movimentando a economia sueca. A Mojang, criadora do Minecraft, foi comprada pela Microsoft por US$ 2,5 bilhões há dois anos. Em fevereiro, a King Digital, criadora do Candy Crush (sim, aquele que te viciou) foi comprada pela Activision Blizzard por US$ 5,9 bilhões.

Um dos países mais ricos do mundo, a Suécia está na União Europeia, mas não adotou o euro. Recentemente, o Banco Central Europeu, em Frankfurt, afirmou que os países candidatos a entrar na zona do Euro e, portanto, a usarem a moeda do bloco, não cumpriam os critérios. Um desses países é a Suécia. Mas ao contrário de países como Croácia, Polônia e Romênia – todos na Eurocopa, mas não na União Européia – o problema para a Suécia não é o desenvolvimento econômico. O país é rico, mas são as leis que não se adequam ao resto dos países da UE, e de propósito. Em 2003, a população votou contra a adoção do euro em um referendo. Há uma crescente rejeição à União Europeia entre os suecos. E em um momento de crise da EU, talvez até faça mais sentido.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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