Eurocopa

França 2016: O brilhantismo de onde menos se espera

A Eurocopa parecia perfeita com 16 times, mas o jogo político levou à sua ampliação em 2016. Pela primeira vez, o torneio continental contaria com 24 equipes. Ampliaria também seus mata-matas, inaugurando as oitavas de final. E caberia à França a incumbência de organizar o novo modelo da competição, com dez estádios, no retorno da Euro ao país após 32 anos. Seria uma competição com boas histórias, mas não exatamente um bom futebol – e desde a fase de grupos.

A França, mais do que país-sede, também era favorita ao título. Vinha em crescente desde a Copa do Mundo, mesmo desfalcada por Benzema, envolvido no escândalo de extorsão com Valbuena. Os jovens ganhavam espaço, com Griezmann e Pogba assumindo cada vez mais o protagonismo. Kanté era uma grata novidade do Leicester, enquanto Matuidi, Sissoko e Payet atravessavam grandes fases. Apenas a defesa não era tão confiável, com Evra e Lloris servindo de referências. Varane era desfalque.

O chaveamento também ajudou a França. A Suíça representava a principal ameaça no Grupo A. Apesar da reconhecida força defensiva, os helvéticos traziam bons destaques no apoio, como Ricardo Rodriguez e Xherdan Shaqiri. A campanha nas Eliminatórias havia sido segura. A Romênia voltava às grandes competições sem muito brilho, numa geração que se apoiava em Vlad Chiriches, Nicolae Stanciu e Florin Andone. Já a candidata a surpresa era a Albânia, estreante na Euro. Lorik Cana era o capitão, com alguns jovens como Elseid Hysaj e Taulant Xhaka buscando um lugar ao sol.

Apesar do favoritismo, a França passou aperto na estreia. Derrotou a Romênia por 2 a 1, em triunfo só garantido aos 44 do segundo tempo. Payet foi o nome do jogo, com uma assistência para Giroud abrir o placar e um chutaço que valeu o triunfo – bem como suas lágrimas na saída de campo, aclamado pela torcida. No duelo de fundo, a Suíça bateu a Albânia por 1 a 0, embora o destaque fosse o confronto entre os irmãos Granit e Taulant Xhaka – cada um por uma seleção, após sua família ter deixado Kosovo rumo à Suíça às vésperas da Guerra da Iugoslávia.

A França permaneceu com problemas na segunda rodada, quando Didier Deschamps poupou destaques e a vitória sobre a Albânia se consumou depois dos 45 do segundo tempo. Griezmann e de novo Payet fizeram os gols nos 2 a 0. Já a Suíça se confirmava como segunda força do Grupo A, mesmo com o empate por 1 a 1 diante da Romênia.

Na rodada final, os Bleus empataram com os suíços por 0 a 0. Com a vaga assegurada, Deschamps poupou alguns jogadores e os franceses até fizeram uma boa apresentação, com lances plásticos. As duas equipes avançaram aos mata-matas, com a França em primeiro. E, apesar da eliminação, o ponto alto ficou à histórica vitória da Albânia por 1 a 0 sobre a Romênia. Sadiku fez o gol que valeu os primeiros três pontos aos albaneses numa Eurocopa. O feito rendeu uma comemoração explosiva e o governo até deu passaportes diplomáticos aos atletas, mas o resultado não seria suficiente para colocar a seleção entre os melhores terceiros colocados rumo às oitavas.

O Grupo B era encabeçado pela Inglaterra, novamente treinada por Roy Hodgson. Muita gente da Euro anterior havia deixado a equipe, com as responsabilidades sobre Rooney e Hart. Mas não que a mudança fosse ruim, com boas novidades despontando naqueles anos, incluindo Harry Kane e Sterling. Vardy e Rashford ainda apareciam como opções ao setor ofensivo. Faltava só mais segurança do meio para trás, com Gary Cahill servindo de defensor mais rodado.

A Rússia era dirigida pelo experiente Leonid Slutsky e já pensava na Copa de 2018, mas não empolgava. O time tinha vários desfalques por lesão, incluindo Dzagoev, Zhirkov e Shirokov. Dzyuba e Golovin não fariam tanto barulho na Euro, enquanto Akinfeev e Vasili Berezutski seguiam como esteios na defesa. A Eslováquia parecia mais promissora que os russos em sua estreia na Euro, com Hamsik carregando o time, além de Skrtel capitaneando a zaga. Todavia, quem merecia mesmo atenção era Gales. Não só por Bale, mas por outras peças valorosas, como Ramsey, Allen, Robson-Kanu e Ashley Williams.

Gales estreou na liderança do Grupo B, ao bater a Eslováquia por 2 a 1 no primeiro compromisso. Bale fez o primeiro e, depois da pressão dos eslovacos, Robson-Kanu deu os três pontos. A mesma alegria não foi compartilhada pela Inglaterra, que dominou a Rússia e cedeu o empate por 1 a 1 nos acréscimos do segundo tempo. Dier fez o gol dos Three Lions e Akinfeev continha o bombardeio, até que Vasili Berezutski atrapalhasse os planos do time de Roy Hodgson.

Muito melhor à Inglaterra seria a segunda rodada, contra Gales. O susto inicial se reverteu em júbilo antes do apagar das luzes, com o triunfo por 2 a 1. Os galeses encerraram o primeiro tempo em vantagem, a partir do gol de Bale. Mas Vardy saiu do banco no segundo tempo e começou a proporcionar outra perspectiva aos ingleses. Até que, nos acréscimos, Sturridge se tornasse outro substituto salvador para a virada. Já a Eslováquia se recuperava ao superar a Rússia por 2 a 1, com gol e assistência de Hamsik.

Gales não só se reergueu na terceira rodada, como também tomou a primeira colocação. Venceu a Rússia por 3 a 0, com Bale e Ramsey deixando os seus. Na outra partida, apesar do insosso empate por 0 a 0, Inglaterra e Eslováquia também avançaram aos mata-matas, com os Three Lions descolando a segunda colocação do Grupo B. O compromisso serviu para Roy Hodgson fazer mudanças no time, que não deram resultados e já traziam preocupação sobre o verdadeiro potencial dos ingleses.

Campeã do mundo dois anos antes, a Alemanha não enfrentava grande concorrência no Grupo C. Mas não que o time de Joachim Löw fosse incontestável, com jogadores importantes que se despediram e outros que vinham em baixa. Schweinsteiger e Podolski já eram reservas a esta altura. As expectativas ficavam depositadas sobre Neuer, Kroos, Müller, Özil, Hummels e outros que não manteriam totalmente o nível visto no Brasil em 2014. Havia sinais de relaxamento desde antes da Euro. Entre as boas novidades, menção a Kimmich.

A Irlanda do Norte surpreendeu em sua classificação à Eurocopa, liderando até mesmo seu grupo nas eliminatórias. Mas os estreantes não eram tão bem cotados. O artilheiro Kyle Lafferty e o capitão Steven Davies eram tidos como principais nomes, mas ninguém capaz de provocar incêndios como Will Grigg – cantado a todo momento, sendo que sequer sairia do banco. A Polônia tentava se mostrar um time mais confiável nas grandes competições. Tinha um ataque potente com Lewandowski e Milik, além de outras boas peças, como Krychowiak, Glik e Fabianski. E a Ucrânia não via uma geração de encher os olhos, com Konoplyanka, Yarmolenko e Rakitskiy se sobressaindo.

Durante a estreia, a Alemanha cumpriu o esperado ao vencer a Ucrânia por 2 a 0. Ainda assim, não foi uma boa exibição do time, com Neuer salvando a pátria e Schweinsteiger saindo do banco para concluir o marcador. A Polônia se emparelhava na dianteira do Grupo C, graças ao gol de Milik, que rompeu a forte marcação da Irlanda do Norte no 1 a 0.

Milik seria o vilão da Polônia na segunda rodada, quando seus gols perdidos poderiam ter levado a equipe além de um sonolento 0 a 0 contra a Alemanha. E o pragmatismo da Irlanda do Norte deu resultado nos 2 a 0 para cima da Ucrânia. Já na rodada final, a Alemanha teve sua melhor atuação para avançar em primeiro. Mario Gómez anotou o gol no triunfo por 1 a 0, mas o goleiro McGovern evitou um placar pior à Irlanda do Norte. A Mannschaft liderou com sete pontos, com a Polônia atrás apenas pelo saldo, após derrotar a Ucrânia num burocrático 1 a 0, tento de Kuba. E os norte-irlandeses, para seu alívio, ainda descolariam uma vaga entre os melhores terceiros com somente três pontos.

O Grupo D tinha a bicampeã Espanha, mas indicava certo equilíbrio. Vicente del Bosque seguia no comando após a frustração na Copa de 2014, mas não tinha muito sucesso em seu processo de renovação. O time seguia dependendo de Iniesta, David Silva, Piqué, Sergio Ramos, Fàbregas e outros astros de outros momentos. Um pouco da novidade surgia com De Gea e Morata, mas não mais do que isso.

A Croácia parecia ganhar consistência e tinha uma equipe equilibrada. Modric, Rakitic, Perisic e Mandzukic vinham mais maduros em relação à Euro anterior, ainda capitaneados por Srna. A Turquia tinha o comando do ídolo Fatih Terim, mas com um elenco apenas razoável, em que Arda Turan era o destaque individual e Hakan Çalhanoglu representava a esperança. E a sensação de declínio pesava contra a República Tcheca, cada vez com menos destaques nas grandes ligas. Cech e Rosicky continuavam segurando as pontas, com a companhia de Darida e Plasil.

A Espanha seguiu sem convencer mesmo com a vitória por 1 a 0 sobre a República Tcheca na estreia. Iniesta se safou das críticas, com a assistência para Piqué garantir o triunfo no final. A liderança seria compartilhada com a Croácia, que não lembrou o jogo eletrizante da Euro 2008 contra a Turquia, mas triunfou por 1 a 0. Cortesia de Modric, que acertou um chute de fora da área para definir o resultado.

A vida da Espanha seria mais tranquila na segunda rodada: 3 a 0 na Turquia, com dois gols de Morata e outro de Nolito. Já a Croácia viu um 2 a 0 virar 2 a 2 contra a República Tcheca. Rakitic brilhara no começo positivo, com um belo gol tocando por cima de Petr Cech. Contudo, um pênalti bobo de Vida cedeu o empate aos tchecos no fim do segundo tempo. Seria uma partida marcante a Srna, que enterrou seu pai dias antes e voltou para integrar a seleção, caindo em lágrimas durante o hino nacional. Também aconteceria uma paralisação por sinalizadores atirados em campo.

Surpresa para muitos, a Croácia encerrou o Grupo D na liderança. Poupou jogadores e ainda assim derrotou a Espanha na terceira rodada, por 2 a 1. A Roja dominou o início do encontro e abriu o placar logo cedo, aos sete minutos, em jogada de David Silva e Fàbregas que Morata escorou às redes. Os croatas, porém, davam seus avisos até com bola na trave, antes de Kalinic aproveitar uma falha de Sergio Ramos e empatar. Não era o dia do zagueiro, que perdeu uma boa chance no segundo tempo e teve um pênalti defendido por Subasic. A Croácia, que tinha criado outras chances, virou aos 41. Kalinic rolou para Perisic definir uma grande vitória.

Com a Croácia em primeiro e a Espanha já garantida nas oitavas, em segundo, quem rodou foi a Turquia. A vitória por 2 a 0 sobre a República Tcheca seria insuficiente para fazer saldo e se colocar entre os melhores terceiros. Yilmaz e Tufan anotaram os tentos do triunfo que rendeu uma despedida de cabeça erguida, mas melancólica aos turcos.

O Grupo E era visto como o ‘grupo da morte’, mas apenas por guardar o confronto mais esperado da primeira fase, entre Bélgica e Itália. Não que qualquer uma das equipes parecesse ameaçada de ir aos mata-matas, ainda mais com até três componentes avançando por chave. Antonio Conte estava à frente da Itália e os jogadores à disposição não eram tão bons, mas a qualidade de seus defensores bastaria. Buffon, Barzagli, Bonucci, Chiellini e De Rossi seriam suficientes às esperanças da Azzurra. Na frente, afinal, os nomes principais eram Pellè e Éder.

Já a Bélgica seguia devendo como a tal geração promissora, apesar da campanha digna na Copa de 2014. Não faltavam talentos a Marc Wilmots, com Courtois, Alderweireld, Vermaelen e Vertonghen na defesa – sem Kompany. O meio melhorava ainda mais com Witsel, De Bruyne e Nainggolan. Mais à frente, Hazard para desequilibrar e Lukaku para fazer os gols. A Irlanda via o inconfundível Robbie Keane ter espaço no elenco, embora baseasse seu jogo nas bolas longas a Shane Long e Jonathan Walters. John O’Shea usava a braçadeira. Já a Suécia, motivada pela classificação na repescagem contra a rival Dinamarca, não trazia tantas novidades. Pelo contrário, cheirava mofo a escalação com Ibrahimovic, Källström e Isaksson. Forsberg era o principal sopro de juventude.

A grande partida da fase de grupos aconteceu em Lyon, onde a Itália encarou a Bélgica. E quem apostava nos Diabos Vermelhos se deu mal, com um triunfo gigante da Azzurra. Bem mais organizada, a equipe de Antonio Conte manteve a sobriedade na defesa e atacou com velocidade. Assim, abriu o placar, num lançamento de Bonucci para Giaccherini. E matou o jogo no finalzinho, com Pellè. A alegria de Buffon, comemorando pendurado no travessão, virou uma cena emblemática naquela Euro. Bem menos interessante seria o outro confronto, com empate por 1 a 1 entre Irlanda e Suécia.

A Itália seguia surfando na onda positiva ao derrotar a Suécia por 1 a 0, belo gol de Éder no final, sem encaixar tanto seu jogo desta vez. E a Bélgica se recuperou na segunda rodada com os 3 a 0 sobre a Irlanda, dois gols de Lukaku. Por fim, a Azzurra confirmou a liderança apesar da derrota para a Irlanda. Contra um adversário recheado de reservas, Brady premiou uma atuação cheia de garra no triunfo por 1 a 0, que dava uma vaga entre os melhores terceiros aos irlandeses. A Bélgica ficaria com o segundo lugar, ao bater também a Suécia, sem tanto esforço. O gol seria de Nainggolan, no fim, com um bonito chute.

Fechando a fase de grupos, o Grupo F teria uma grande atração: Cristiano Ronaldo. De resto, não atraía muito. O favoritismo de Portugal era expresso na equipe de Fernando Santos. Pepe, Rui Patrício, Nani e Quaresma continuavam como nomes essenciais à rotação. Mas os lusitanos também injetavam sangue novo com Raphaël Guerreiro, William Carvalho, Renato Sanches e outros atletas mais jovens para contribuir na campanha – além do talismã Éderzito no banco, prestes a fazer história.

A Áustria vinha de uma baita campanha nas eliminatórias e até prometia mais do que fez, com uma escalação que reunia Alaba, Arnautovic, Junuzovic e Dragovic. A Hungria voltava a um torneio internacional após 30 anos contando bastante com o folclórico goleiro Király. Gera vestia a camisa 10. Já a braçadeira ficava a Dzsudzsák, importante ao ataque. De qualquer maneira, a curiosidade se atiçava pela estreia da pequena Islândia, que já vinha prometendo sua aparição nos torneios internacionais desde 2014. O técnico Lars Lagerbäck consumou o feito com um time bem montado, que era destaque também por toda a mobilização do país ao redor da campanha. Gylfi Sigurdsson recebia os holofotes, mas logo o continente decoraria nomes como Halldórsson, Gunnarsson e Bjarnason.

Portugal começaria a descobrir a Islândia de uma maneira nada digesta. O duelo em Saint-Étienne fez conhecido o hino cantado a plenos pulmões e os gritos de guerra nas arquibancadas. Assim, o ferrolho nórdico seria capaz de conter o possante ataque protagonizado por Cristiano Ronaldo. Os lusitanos dominaram e fizeram o primeiro com Nani. Um cruzamento, entretanto, valeu o empate de Bjarnason no início do segundo tempo. O placar de 1 a 1 seria garantido na marra pelos islandeses, com Halldórsson trabalhando dobrado. Ao final, ficaria lembrada a queixa de CR7, sobre a maneira como os oponentes “comemoraram o resultado”. O empate já era uma vitória. A Hungria, por sua vez, começou na liderança ao vencer a Áustria por 2 a 0, graças a dois contra-ataques.

Portugal ficou com a classificação seriamente ameaçada ao empatar por 0 a 0 contra a Áustria. Os tugas bem que tentaram, mas o goleiro Robert Almer estava inspirado. E rolou até pênalti perdido por Cristiano Ronaldo, que acertou a trave a 15 minutos do fim. O craque também teria um gol corretamente anulado por impedimento. O equilíbrio mantinha todo mundo vivo no Grupo F, também com o Islândia 1×1 Hungria. Os nórdicos foram melhores e saíram na frente com Gylfi Sigurdsson, mas um gol contra no final custou os pontos.

E o Grupo F se provaria mesmo o mais emocionante daquela Eurocopa, com duas grandes partidas em seu fechamento. A brava Islândia conquistaria a merecida primeira vitória no torneio e até beiraria a liderança. O jogo sólido dos nórdicos já garantia ao menos o empate contra a Áustria. Bodvarsson abriu o placar num início superior dos islandeses, mas os austríacos ainda tinham chances e empataram no segundo tempo, com Schöpf, após já terem desperdiçado um pênalti. Mas o time de Lars Lagerbäck não entregaria tão facilmente seu sonho e buscou o triunfo por 2 a 1 no último minuto. Bjarnasson fez a jogada e Traustason virou o herói aos 49 do segundo tempo.

A Islândia só ficou com a segunda colocação porque a Hungria, líder, passou com um gol a mais de saldo. E os magiares fizeram Portugal sofrer, com o empate por 3 a 3 que quase derrubou a Seleção das Quinas, mas ainda permitiu que avançassem entre os melhores terceiros colocados. Foi uma loucura em Lyon, com os lusitanos sempre precisando correr atrás do prejuízo. Gera abriu o placar num chutaço de fora da área. Portugal pressionou e ia parando em Király, até Cristiano Ronaldo passar a Nani, que empatou antes do intervalo.

Logo no início do segundo tempo, Dzsudzsák retomou a vantagem de falta e CR7 correu atrás com um toque de letra belíssimo, que valeu o empate. Tudo tranquilo? Não com o terceiro gol húngaro na sequência, num chute venenoso de Dzsudzsák. Mas CR7 não ia permitir que a campanha portuguesa terminasse daquela forma, decretando o empate de cabeça. Com meia hora no relógio, até cabiam mais gols. Os tugas tentaram mais, embora a melhor chance tenha vindo numa bola na trave da Hungria. Não era para a campanha do time de Fernando Santos acabar ali, afinal. Com três empates, ainda sem vencer, Portugal começava a pegar embalo.

As oitavas de final começaram com três partidas no primeiro dia. E indicavam que, se aquela Eurocopa seguia econômica em gols, poderia guardar suas doses de emoção. Polônia e Suíça fizeram um jogo sem favoritos, no qual o empate por 1 a 1 durante os 120 minutos enfatizou isso. Com Lewandowski apagado, Kuba chamou a responsabilidade e abriu o placar. A Suíça pressionou no segundo tempo, com bola na trave e milagre de Fabianski. Marcaria mesmo com a incrível bicicleta de Shaqiri, o tento mais bonito da Euro. O embate medroso seguiu prorrogação adentro e a Polônia avançou nos pênaltis, com vitória por 5 a 4, após Xhaka mandar para fora.

Gales confirmou sua empolgante campanha na sequência, ao passar pela Irlanda do Norte. O jogo não seria tão lembrado, com aperto para garantir a vitória por 1 a 0 através de um gol contra. Já no esperado Portugal x Croácia, a sorte é que havia um Quaresma para abrilhantar os 120 minutos sofríveis. Num jogo travado, com poucas brechas, a prorrogação se tornou inescapável. E aos 12 minutos do segundo tempo extra que o resultado seria garantido, em ótimo ataque lusitano. Renato Sanches e Nani armaram o lance que Cristiano Ronaldo arrematou. Parou em Subasic, mas Quaresma estava lá para fazer no rebote. Até haveria um pandemônio no último lance, o último suspiro croata, mas era tarde demais para evitar a derrota por 1 a 0.

A França passou pela Irlanda com vitória por 2 a 1, em tarde comandada por Griezmann. Para acordar, entretanto, os Bleus precisaram de um susto. E ele se deu com um pênalti convertido por Brady, aos dois minutos. O primeiro tempo seguiria provando a paciência dos franceses, até que Griezmann aparecesse na segunda etapa e convertesse os dois gols de sua equipe. Bem diferente do sofrimento francês seria a goleada da Bélgica, 4 a 0 na pobre Hungria. Desta vez nem os milagres de Király, que jogou bem mesmo com um dedo quebrado, adiantaram. Alderweireld abriu o placar aos dez minutos e os Diabos Vermelhos martelaram, mas só desenharam a goleada nos 15 minutos finais, incendiados por Hazard. O ponta fez um, enquanto Batshuayi e Carrasco também deixaram os seus.

Já a Alemanha só foi jogar como campeã do mundo naquele momento, com os 3 a 0 para cima da Eslováquia. Boateng inaugurou o marcador logo cedo com um belo gol e Özil até perdeu um pênalti. O segundo veio no final do primeiro tempo, com Mario Gómez, efetivado como titular. E a tranquilidade da equipe seria maior na etapa complementar, em mais uma cobrança de escanteio de Kroos, que rendeu o tento de Julian Draxler.

O melhor das oitavas, de qualquer forma, ficaria reservado para o último dia. Primeiro porque havia um Itália e Espanha, que cumpriram as expectativas com uma partida histórica. O time de Antonio Conte era um dos mais bem treinados da competição e sabia fazer seu jogo, entre a forte defesa e o ataque vertical. Valeu a revanche contra a Roja, após a final de 2012. Pressionando de início, a Azzurra esbarrava em De Gea, até que Chiellini aproveitasse uma sobra para abrir o placar. A Espanha tentou reagir principalmente no segundo tempo e as alterações demoraram a surtir efeito. Quando surtiram, pararam em um gigantesco Buffon. Isso não significava que os italianos deixassem de atacar ou que De Gea estivesse menos ocupado. Tanto é que, nos contragolpes, viria o segundo gol. Pellè pegou de primeira e determinou o fim da dinastia espanhola com a vitória por 2 a 0.

Não menos inesquecível seria o que aconteceu no segundo jogo daquele dia. E por motivos diferentes, já que Inglaterra e Islândia estavam distantes de constar no mesmo patamar. Mas o tal conto de fadas dos vikings teria um capítulo fantástico, com a vitória por 2 a 1 em Nice. Daqueles resultados que marcam a desgraça dos Three Lions. E isso porque os ingleses, com um pênalti convertido por Rooney, abriram o placar com quatro minutos. O baque seria instantâneo: Ragnar Sigurdsson empatou dois minutos depois e aos 18 já sairia a virada, em chute de Sigthórsson que contou com a colaboração de Hart. A Inglaterra não se encontrou mais depois disso, sem conseguir romper a sólida marcação dos adversários. Pelo contrário, até parecia que os islandeses fariam o terceiro. Mais seguros, os nórdicos comemoraram a maior vitória de sua história, em grande noite do capitão Gunnarsson.

As quartas de final começaram com o duelo entre Portugal e Polônia. Mais uma vez o empate por 1 a 1, mais uma vez a definição por pênaltis. Agora, para a classificação da Seleção das Quinas na marca da cal. Os lusitanos tiveram que se recompor após o tento de Lewandowski logo no início. E quem pagava a aposta era Renato Sanches, que surgia como fenômeno na Euro, empatando aos 33. Numa bela trama com Nani, o garoto se tornou o herói. Depois de um primeiro tempo mais aberto, o duelo se arrastaria pelos 75 minutos restantes, com Pepe fazendo um papel especialmente destacável para tomar conta de sua área. Coube a Rui Patrício decidir nos pênaltis, pegando o tiro de Kuba e permitindo a vitória por 5 a 4.

O adversário de Portugal na semifinal seria Gales, que apresentou sua própria geração e despachou a Bélgica com a vitória por 3 a 1. Os galeses também precisaram conter uma pressão inicial e se reerguer depois que Nainggolan abriu o placar. Contaram com o empate de Ashley Williams ainda no primeiro tempo. Os craques chamaram a responsabilidade no lado britânico e, com uma jogada possibilitada por Bale e Ramsey, Robson-Kanu virou aos dez minutos da etapa complementar. O nervosismo não ajudou os belgas, que não souberam destravar a marcação adversária. E o golpe fatal seria dado por Vokes, a quatro minutos do fim, levando Gales a uma inimaginável semifinal.

O grande duelo das quartas se deu em Bordeaux, onde Alemanha e Itália reeditavam um dos maiores clássicos da Europa. O Nationalelf podia não exibir sua melhor forma, mas encerrou seu pesadelo contra os carrascos italianos graças à vitória nos pênaltis, após o empate por 1 a 1. Seria um jogo extremamente tático (e sem tantas emoções) ao longo dos 120 minutos. A Azzurra travou o ataque alemão no primeiro tempo e só na segunda etapa as trincheiras se abririam. Florenzi já faria milagre para desviar um chute de Müller, antes que Gómez realizasse uma jogada de ponta e cruzasse para Özil emendar às redes. A Alemanha até poderia ter matado o jogo, mas havia um Buffon do outro lado. E a Itália, graças a um pênalti infantil de Boateng, empatou com Bonucci aos 33.

A Alemanha sentiu o baque e quase tomou a virada no tempo normal. Já a prorrogação veria dois times pouco dispostos a assumirem os riscos. A Mannschaft tinha mais a bola, mas Draxler falhou nas melhores chances. O destino eram os pênaltis. E as dez primeiras cobranças não se tornaram suficientes. Foi uma disputa horrível dos batedores. Müller, Özil e Schweinsteiger erraram entre os alemães. Não que os italianos fizessem melhor, com os desperdícios de Bonucci, Pellè e Zaza – este, com aquela batida candidata a mais ridícula da história. Nas alternadas, curiosamente, todos passaram a acertar o pé. E as penalidades se arrastariam até a nona série, quando Neuer pegou o tiro de Darmian e Hector definiu o triunfo germânico por 6 a 5. Batalha vencida, depois de cinco derrotas consecutivas dos alemães contra os italianos em mata-matas de competições internacionais.

A quarta seleção confirmada nas semifinais foi a França, com sua melhor vitória na competição. E isso significava que os Bleus não deram qualquer margem à zebra da Islândia, atropelada por 5 a 2 no Stade de France. O primeiro tempo furioso dos franceses encaminhou o resultado. Aos 12 minutos, Matuidi serviu Giroud para o primeiro. Griezmann cobrou escanteio e Pogba fez o segundo logo depois. Antes do intervalo, caberiam os gols de Payet e Griezmann – este, com um belo corta-luz de Giroud, antes que o companheiro de ataque encobrisse o goleiro. A França só relaxou no segundo tempo, quando Sigthórsson até deu alguma esperança aos islandeses, mas Giroud as enterrou com o quinto tento. Já no final, Lloris teve certo trabalho, até Bjarnason dar números finais ao embate. Não diminuía a façanha da Islândia, mas expressava também a força do time de Didier Deschamps.

Nas semifinais, um campeão inédito poderia surgir a partir do confronto entre Portugal e Gales. Era um duelo especialmente interessante pela comparação entre Cristiano Ronaldo e Bale, companheiros no Real Madrid que mediriam forças com suas seleções. E aquela, sem muitas dúvidas, seria a atuação para marcar a campanha de CR7 na Euro 2016. O time de Fernando Santos, que não empolgava até ali, cresceria no momento certo para uma incontestável vitória por 2 a 0.

O primeiro tempo ainda careceria de emoção em Lyon. Portugal tinha o jogo sob controle, o que não significava criar grandes perigos. Já Gales sentia falta do suspenso Ramsey, sem ter com quem Bale se associar. No segundo tempo, Ronaldo apareceu. O craque abriu a contagem logo aos cinco minutos, fuzilando Hennessey após cobrança de escanteio. E daria vida mais tranquila aos tugas três minutos depois, em tiro de fora da área que Nani desviou no meio do caminho.Os galeses, com sua cota de milagres esgotada, estiveram mais propensos a sofrer o terceiro. Pela segunda vez em sua história, a Seleção das Quinas chegava à final da Euro. E pretendia um final bem diferente ao de 2004.

Do outro lado, França e Alemanha tinham um histórico de sucessos na Eurocopa bem maior. E, numa edição do torneio que revertia freguesias, coube aos Bleus encerrarem sua sina de eliminações dolorosas contra a Mannschaft. A lição aprendida a duras penas na Copa de 2014 estava assimilada. Desta vez, foi o time de Didier Deschamps que atuou de uma maneira segura e encontrou o caminho em Marselha. Griezmann era o cara do time e guardou mais dois gols, que valeram a vitória por 2 a 0 e a aguardada presença dos anfitriões no Stade de France para a decisão.

Desde o primeiro tempo, a Alemanha pressionou a França. Não encontrou forma de romper a muralha dos Bleus, com Matuidi e Pogba trancando a cabeça de área. Fazia falta Mario Gómez, que, lesionado, não tinha um substituto com a mesma presença de área em Müller. Além do mais, Lloris também emendava defesa atrás de defesa. O drama alemão aumentou no final do primeiro tempo, quando Schweinsteiger cometeu um pênalti bobo e Griezmann converteu. O placar aumentou o desespero de uma Mannschaft sem soluções no segundo tempo. Aos 27, a França matou o jogo. Pogba roubou a bola e fez a jogada para Griezmann ampliar. Sequer os germânicos conseguiram diminuir.

França e Portugal nutriam certa rivalidade nas grandes competições. E o retrospecto era mais um motivo para os Bleus se sentirem confiantes: avançaram nas semifinais da Euro em 1984 e em 2000, além de prevalecerem também na Copa de 2006, regidos por Platini ou por Zidane. Os portugueses, como azarões da vez, não precisavam se inibir em adotar uma estratégia mais defensiva, para que Cristiano Ronaldo resolvesse na frente. Um pragmatismo que seria ainda mais necessário, dadas as circunstâncias em Saint-Denis.

O drama no primeiro tempo giraria ao redor de Ronaldo. Logo aos oito minutos, o craque sentiu uma lesão no joelho após choque com Payet. Tentou voltar a campo duas vezes e parecia disposto ao sacrifício, mas a dor não permitiu que ele seguisse. Desabaria no gramado e sairia às lágrimas, substituído por Quaresma aos 25. Num primeiro tempo de poucas chances, a França até arriscou mais, mas Rui Patrício mantinha a segurança sob os paus e o zero no placar. Fez ótimas intervenções quando Griezmann e Sissoko tentaram estufar as redes.

O segundo tempo continuou com a França dominando a posse de bola e tentando romper a defesa portuguesa. Griezmann, quando poderia sublinhar seu momento iluminado, cabeceou para fora. Rui Patrício seguia contendo Sissoko e Giroud, enquanto Lloris só teria um pouco mais de dificuldades em cruzamento fechado de Nani. E quase o herói foi Gignac, que saiu do banco no segundo tempo. Num lance em que deixou Pepe no chão, o centroavante carimbou o pé da trave. O placar zerado se arrastava e a solução só viria na prorrogação.

O predestinado no Stade de France seria outro: Éderzito, um centroavante de pouca técnica, muitas vezes menosprezado na Seleção das Quinas. O camisa 9 havia entrado ainda no final do segundo tempo, para brigar pelos lançamentos na frente e tentar dar um respiro a Portugal. Seria ele, o bissauense crescido em Coimbra, que garantiria a taça tão aguardada pela seleção portuguesa. O centroavante já tinha forçado uma defesa de Lloris, antes que Guerreiro acertasse o travessão na prorrogação. Cristiano Ronaldo, quase um treinador adjunto gesticulando à beira do campo, não escondia a ansiedade. Mas o continente caiu sob domínio da armada lusitana aos quatro minutos do segundo tempo extra. Éderzito acertou o chute que nunca mais acertará em sua vida, tão forte quanto preciso, para vencer Lloris de fora da área. O gol que assinalou o 1 a 0 no placar e botou Portugal no topo da Europa. A França não mais reagiria.

Cristiano Ronaldo, em sua quarta Eurocopa, tinha seu prêmio merecido por tanto se entregar à seleção de Portugal. O time era feito de outros heróis, como Rui Patrício, Guerreiro, Sanches, Nani, Quaresma e especialmente Pepe – para muitos, o melhor jogador da equipe campeã. Aos trancos e barrancos, o plantel de Fernando Santos pode não ter sido o melhor na somatória do torneio. Mas soube quando decidir, até mesmo quando confiou no inesperado Éderzito para isso.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo