Eurocopa

Doku foi uma injeção de energia em uma seleção belga que não teve seu melhor fôlego na Euro 2020

Aos 19 anos, o ponta teve uma grata participação contra a Itália, apesar da eliminação da Bélgica

A Bélgica entrou na Eurocopa com um dos elencos mais envelhecidos da competição. Dez jogadores passam dos 30 anos de idade e o segundo mais novo tem 24 anos. A dose de juventude dos Diabos Vermelhos se concentra basicamente em Jérémy Doku. O ponta nem veio de uma temporada tão boa assim, em seu primeiro ano com o Rennes, mas rendeu bem nas primeiras aparições com a seleção e sua convocação para a Euro 2020 era merecida. E o garoto deixa a competição como um dos candidatos a revelação. A energia dos belgas na eliminação contra a Itália, sobretudo no segundo tempo, dependeu das arrancadas do camisa 25. Se as esperanças do empate prevaleceram até o fim, o novato foi responsável por isso.

No papel, a Bélgica possui uma das melhores equipes da Europa e isso não vem de hoje. A badalação ao redor da tal “geração belga” surge às vésperas da Copa do Mundo de 2014. Os Diabos Vermelhos não corresponderam às expectativas de início, mas saíram grandes do Mundial de 2018. Três anos depois, a equipe de Roberto Martínez vinha mais cascuda para a Eurocopa. Mas também vinha mais desgastada. Os belgas tinham dois enormes candidatos a protagonista do torneio, com Romelu Lukaku e Kevin de Bruyne. Vinham até mais fortes em certos setores, como na cabeça de área, com a ascensão de Youri Tielemans. Porém, o elenco parecia mais curto e a zaga colecionava medalhões diante da escassez de opções.

A Bélgica começou com o tanque cheio na Eurocopa. Pôde ganhar com facilidade da Rússia e pisou no acelerador diante da Dinamarca, quando precisou virar. Contra a Finlândia, o resultado demorou até mais que o esperado. Contudo, não era uma equipe tão agressiva quanto na Copa de 2018. A maratona da temporada parecia cobrar seu preço, ao mesmo tempo em que vários jogadores importantes possuem seu histórico no departamento médico. Diante de Portugal, apesar da vitória, já se viu uma equipe menos intensa que o esperado. E a perda de Eden Hazard, que até parecia disposto a se recuperar na Euro 2020, indicaria tal sacrifício.

Contra a Itália, a Bélgica não deixou de atuar em seu máximo. Pelo contrário, os Diabos Vermelhos tentaram levar seu limite além, considerando como estavam baleados. Durante um primeiro tempo disputado em altíssimo nível, os belgas tiveram boas escapadas sobretudo com Romelu Lukaku, e Gianluigi Donnarumma seria decisivo à sua equipe. Entretanto, num segundo tempo em que a Azzurra mantinha a vantagem no placar, as pernas pareciam pesar. Kevin de Bruyne era o símbolo disso, atuando sem as melhores condições físicas e mesmo assim tentando de tudo para manter seu time na competição. Mas não era seu melhor. E quem pôde oferecer algo a mais foi Jérémy Doku.

Doku não soma nem dez partidas pela seleção da Bélgica. O atacante ganhou suas primeiras chances em 2020 e faria boas exibições quando pôde ser titular, diante de Islândia e Belarus. Ainda assim, com sobras o mais novo na hierarquia da equipe, não era uma das primeiras opções na Eurocopa. Só jogou quando Roberto Martínez poupou forças diante da Finlândia. Exigiria uma boa defesa de Lukas Hradecky e criaria bons lances aos companheiros. Apesar disso, nas demais partidas, sequer saiu do banco. Mas, diante da ausência de Eden Hazard, o novato acabou escolhido para o 11 inicial. Era uma opção de mais velocidade para explorar os contragolpes contra a Itália, mesmo que Dries Mertens e Yannick Ferreira Carrasco fossem alternativas mais experientes.

A escolha de Roberto Martínez se justificou durante o jogo. Doku participou bastante desde o primeiro tempo, garantindo um respiro e dando um trabalho à marcação pelo lado esquerdo. Não tinha medo de partir para cima dos adversários. E no momento em que tudo parecia difícil aos belgas, depois que os italianos abriram dois gols de vantagem, foi uma jogada pela linha de fundo do camisa 25 que permitiu o gol de Lukaku cobrando pênalti. Mesmo inferiores durante os ótimos 45 minutos iniciais, os Diabos Vermelhos estavam no jogo.

No segundo tempo, a Bélgica se tornou ainda mais dependente de Doku. A marcação se acertou sobre Lukaku, De Bruyne sentia o cansaço. A busca por algo diferente quase sempre vinha quando Doku recebia a bola na esquerda. E o ponta assinou um dos lances mais fantásticos do jogo, ao rabiscar a defesa inteira até encontra a fresta para o chute. Num futebol de poucos espaços, ainda mais contra uma Itália que se defende de maneira tão competente, sua sequência de dribles parecia não ter fim. E o chute também seria ótimo, forte e com direção. Por centímetros, acabou passando por cima do ângulo, quando Donnarumma provavelmente não chegaria.

No fim, até as faltas sobre Doku viraram um fio de esperança para a Bélgica. Mas nada que tenha possibilitado um empate salvador. O desgaste físico pela temporada era evidente, assim como o impacto das lesões sobre esse time – de Eden Hazard, de Nacer Chadli, de Timothy Castagne, de Kevin de Bruyne. E se os belgas pareciam abaixo de seu melhor, ainda assim fizeram uma partida competitiva, contra o melhor adversário da competição. Doku seria um trunfo individual, mesmo num jogo deste calibre.

Revelado pelo Anderlecht, Doku deslanchou muito bem na temporada 2019/20 do Campeonato Belga. O sucesso durante um ano seria suficiente para o Rennes realizar uma contratação cara, gastando €26 milhões pelo negócio. Ainda demorou a engrenar na França, mas teve momentos melhores na reta final da Ligue 1. Seu sucesso, por enquanto, é pontual. Mas fazer uma partida dessas na Eurocopa, com apenas 19 anos, é uma prova de seu talento para seguir crescendo. E seguir ganhando importância na equipe nacional.

O tempo passa para a seleção da Bélgica e a idade será uma questão ainda mais palpitante para a Copa do Mundo de 2022. Lukaku e De Bruyne ainda têm chão para seguirem como protagonistas, mas os entraves físicos parecem minar as perspectivas como equipe. E, na hora de passar o bastão, Doku é quem surge como candidato a destaque nas próximas gerações. A atuação contra a Itália foi importante não somente por sustentar as possibilidade do time na Euro 2020. Pode também ser um bom sinal ao futuro, que por ora não traz tantas perspectivas para os belgas seguirem num nível tão alto como o visto nos últimos anos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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