Europa

É uma pena que o enorme caráter de Ryan McBride só tenha virado notícia por uma fatalidade

Ryan McBride não jogava as grandes ligas, não enfrentava os principais astros, passava longe das convocações à seleção. Era um jogador conhecido na Irlanda, mas de carreira modesta. No entanto, de enorme caráter. E, por isso mesmo, sua morte repercutiu além da consternação pela perda de alguém tão jovem, aos 27 anos. O capitão do Derry City percorreu sua carreira profissional inteira nos Candystripes, clube da Irlanda do Norte que disputa o Campeonato Irlandês. Neste domingo, um dia depois de entrar em campo em Maginn Park, na goleada de sua equipe por 4 a 0 sobre o Drogheda United, o camisa 5 foi encontrado desfalecido em sua casa. As causas da fatalidade ainda estão sendo investigadas.

A maioria dos perfis sobre McBride convergem. Destacam um tipo que anda um tanto quanto desaparecido no futebol. Podendo atuar como zagueiro ou volante, o norte-irlandês se transformou em símbolo em um dos clubes mais tradicionais de seu país. “Ryan foi um grande capitão, mas também era um amigo e um companheiro. Todos no clube estão profundamente chocados e entristecidos. Para eles, Ryan era Derry City por completo. O compromisso e a paixão que ele levava a campo são o vínculo que unia o jogador aos torcedores”, escreveu o Derry City, em sua nota oficial sobre o episódio. Sem se formar em categorias de base, o camisa 5 se destacou em equipes amadoras da cidade. Quando já tinha 22 anos, ganhou a chance de se profissionalizar, justamente no time de coração.

“Quando McBride chegou, não sabíamos muito sobre ele, mas rapidamente aprendemos que ele ‘gostava de desarmar’. Ele morava a poucos metros da sede do clube e chegou a dizer que, enquanto outros talvez sonhassem com o Celtic ou o Manchester United, ele sonhou mesmo com o Derry City. Muitos almejam jogar na primeira divisão, mas Ryan chegou e logo mostrou que nasceu para o mais alto nível”, avalia o jornalista Kevin McDaid, setorista do clube, em crônica para o Independent. “Ele era tudo o que queríamos como nosso capitão. Ferozmente comprometido, muitas vezes se colocava em risco por causa do clube. Na era dos egoístas que beijam qualquer escudo, ele parecia vir de uma época diferente. Fora de campo, era um completo cavalheiro. Para ele, sempre foi sobre o time, não sobre o individual. Nunca foi um jogador para holofotes”.

“Ryan sempre tinha tempo para os torcedores e era um privilégio apontar para ele, servindo os clientes no Bar Gweedore, e dizer que era o nosso capitão. Há um cântico popular que diz sobre os jogadores serem ‘um dos nossos’, e nunca essa frase coube tão bem a alguém quanto a Ryan McBride. Ele era um torcedor, conhecia os torcedores e apreciava a oportunidade de representar o clube e a cidade em campo. A torcida amava ele de um jeito que é difícil de quantificar. Seu passado, seu jeito quieto e despretensioso, seu orgulho em defender o clube: tudo isso forjava o mais alto parâmetro a um capitão”, complementa McDaid.

McBride, além de tudo, vivia excelente fase neste início de temporada. Marcou dois gols nas quatro primeiras rodadas do Campeonato Irlandês. O Derry City venceu todos os seus compromissos e aparece atrás apenas do Cork City, com um jogo a mais. Há 11 dias, no triunfo sobre o Shamrock Rovers em Dublin, o camisa 5 comemorou o tento decisivo bem em frente dos torcedores visitantes. Uma imagem para ficar na memória dos alvirrubros, ainda com dificuldades de assimilar o acontecido.

“Nos próximos dias e semanas vamos lamentar a perda de nosso capitão e amigo. Em algum momento no futuro, quando o choque inicial tiver passado, iremos encontrar uma maneira de celebrar sua vida. Iremos relembrar sua civilidade e sua humildade fora de campo, seu comprometimento e paixão dentro dele e o amor profundo que ele carregou em seu coração pelo Derry City”, finalizou o clube, em sua nota oficial.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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