Conheça o torneio de seleções que renova as esperanças de jogadores sem clube

O sonho de ser jogador de futebol muitas vezes não se cumpre nem mesmo para os jogadores de futebol. Afinal, jogar em clube grande, ganhar milhões e virar ídolo de uma massa é privilégio de pouquíssimos. A maioria mesmo vive a ciranda de buscar clubes pequenos, ganhando pouco – e isso, quando ganham em dia. No Brasil, especificamente, a situação é calamitosa. O calendário esburacado garante emprego a muitos atletas por apenas cinco meses. Entraves que, no entanto, não são exclusivos do nosso futebol. Mesmo na Europa, o desemprego também é uma realidade entre àqueles longe do estrelato. Aqueles que, desde 2005, recebem uma chance anual de mostrarem serviço a olheiros de todo o continente.
Representação internacional dos jogadores profissionais, a Fifpro organiza torneios em quatro regiões do mundo para jogadores desempregados. As associações da classe em cada país montam as suas “seleções” e enviam à competição, para que os atletas possam apresentar o seu potencial na tentativa de arranjar um novo clube. Nas Américas, o torneio costuma acontecer em janeiro, e tem a participação do Brasil, através da Fenafap. Já na Europa Central, ele se desenrolou a partir do final de junho, na cidade holandesa de Rijnsburg. Acabou no último sábado, com a República Tcheca desbancando a bicampeã Espanha na decisão. Mais importante, todavia, foi a vitrine às dezenas de atletas de 18 países.
“É a oportunidade de se sentir como um jogador de futebol novamente. Se você está fora faz tempo e os clubes não o veem jogar, você é facilmente esquecido. Aqui, eles podem ver se você continua jogando bem, se você ainda tem algo a oferecer”, avalia Cristóbal Márquez, meio-campista com passagem pelo Villarreal, em entrevista ao jornal britânico The Guardian. Após uma pendência judicial com o Karpaty Lviv, o espanhol viu sua carreira degringolar. Uma das entidades nacionais que mais recrutam jogadores, a associação espanhola de futebolistas empregou 64 dos últimos 70 selecionados.
Boa parte dos jogadores que disputam a competição ficou desempregada após largar seus clubes, cansada dos salários atrasados. Eles entram em um ambiente propício para apresentar o potencial, motivados pela chance que têm pela frente. Equipes médias e pequenas de diferentes países enviam observadores para a Holanda. Além disso, uma empresa inglesa também fazia o acompanhamento dos scouts, avaliando o desempenho de cada um em bases estatísticas. Cerca de 150 times, clientes do serviço, têm acesso aos números. Se não houver negócio, ainda existem os “eldorados” como o Campeonato Indiano, que oferece três meses de disputa no final do ano a quem se interessar – e tiver qualidade, é claro.

A Fifpro, contudo, tem algumas exigências para realizar a competição. Tijs Tummers, representante da Fifpro, afirma que as associações nacionais só podem se inscrever se já oferecerem uma boa assistência interna aos seus jogadores. “Amamos o torneio, mas o que fazemos é realmente ajudar os atletas desempregados em um nível mais amplo. Nós pedimos aos países para realizarem amistosos e treinamentos, mostrar o que fizeram. Então, eles podem ter um lugar aqui”.
Já o perfil dos jogadores varia bastante. Há desde jovens que não conseguem se firmar após a transição da base até veteranos com rodagem pela Europa. Entre os nomes mais tarimbados que passaram pelo torneio está o do português Luis Boa Morte, que fez carreira no Fulham. Já nesta edição, a estrela foi Jiri Jirasek, ex-defensor do Chelsea e do CSKA Moscou. Depois de deixar o Alavés na última temporada, o veterano soube do torneio por acaso e quis participar, também para motivar os mais jovens. Além de conquistar o título com os tchecos, marcou o gol na prorrogação que levou a decisão aos pênaltis e também foi eleito o melhor do certame.
“Você pode ver uma mudança no torneio desde que ele começou, em 2005. Ela costumava ser usada por jogadores que iriam fazer testes em algum clube, mas estavam acima do peso. Só que nem todos se recuperavam. Agora, se você se junta a esses times, estará bem fisicamente e pronto para qualquer um que queira você. Se eles te escolherem, você passará por pelo menos uma semana de trabalho intenso, e isso é uma grande vantagem. O fato que você jogou aqui mostra que você está bem, tem ambição e uma boa atitude”, avalia Tummers. “Se um jogador de 22 anos vier aqui e se mantiver como jogador profissional pelos próximos dez anos, então o campeonato da Fifpro terá feito o seu trabalho. Esse é o real sucesso para nós”.
Para saber mais do torneio da Fifpro, vale conferir o site oficial do torneio, com as fichas de todos os jogadores. As aspas e boa parte das informações deste texto foram retiradas da reportagem feita por Nick Ames ao Guardian. A versão original, com mais detalhes, está disponível neste link.



