Protestos e gols: O brasileiro que colocou ‘rebelde’ Rayo Vallecano em sua 1ª final continental
Clube de bairro de Madri vive guerra aberta entre torcida e presidente, mas encontra em ex-Internacional esperança dentro de campo
O futebol europeu terá uma final improvável no próximo dia 27 de maio, em Leipzig. De um lado, o Crystal Palace, representante de médio porte da Premier League, que eliminou o Shakhtar Donetsk e alcançou a decisão da Conference League com autoridade.
Do outro, o Rayo Vallecano, clube de bairro, operário e historicamente periférico dentro de Madri, que derrubou o Strasbourg graças ao brilho de um brasileiro acostumado a conviver com o improvável: Alexandre Alemão.
O ex-atacante do Internacional marcou os dois gols da semifinal — um em cada jogo — e colocou o Rayo na primeira final internacional de sua história. O roteiro, por si só, já seria surpreendente. Mas ganha contornos ainda mais simbólicos quando observado o contexto fora de campo: o clube espanhol atravessa talvez a maior crise institucional de sua era moderna.
O Rayo chega à principal noite de sua história vivendo uma guerra aberta entre torcida e diretoria. Um cenário de abandono estrutural, protestos constantes, boicotes, denúncias de repressão aos torcedores e até discussões sobre tirar o clube do próprio bairro onde construiu sua identidade centenária.
No meio desse caos, elenco e arquibancada se uniram. E encontraram em Alexandre Alemão um herói improvável.
Alemão aproveita brecha e vira protagonista no Rayo Vallecano
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Aos 28 anos, o brasileiro parecia distante de qualquer protagonismo continental quando deixou o Internacional, em 2023. Depois de passagem irregular pelo clube gaúcho — foram 14 gols em 71 partidas —, encontrou espaço na Espanha, especialmente no Real Oviedo, onde foi peça fundamental no acesso à elite espanhola na última temporada.
A boa campanha fez o Pachuca apostar em sua contratação, mas a experiência no México durou pouco. Cerca de dois meses depois, o Rayo Vallecano pagou 4,5 milhões de euros para levá-lo de volta ao futebol espanhol. O Internacional, que mantinha percentual dos direitos econômicos, recebeu cerca de R$ 8,5 milhões.
Mesmo assim, Alemão não desembarcou em Vallecas como estrela. Pelo contrário. Passou boa parte da temporada alternando entre banco e time titular. Os números são discretos: apenas seis gols em 32 jogos.
A mudança veio justamente nas últimas semanas. A lesão de Álvaro García, um dos artilheiros da equipe, e a seca de Jorge De Frutos — 14 partidas sem marcar — abriram espaço para o brasileiro assumir protagonismo na reta decisiva da Conference. E ele aproveitou.
Contra o Strasbourg, decidiu as duas partidas. Primeiro, com uma cabeçada precisa no duelo de ida. Depois, na volta, aproveitando rebote do goleiro para garantir nova vitória por 1 a 0. Dois jogos, dois gols e classificação histórica.
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Vallecas: muito mais do que um clube de futebol
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Para entender por que a campanha europeia do Rayo mobiliza tanto sua torcida, é preciso compreender o que representa Vallecas. O bairro popular localizado no sudeste de Madri sempre foi um território de forte identidade operária e antifascista. Politicamente, tornou-se um símbolo de “resistência” dentro da capital espanhola: é um dos poucos redutos onde a direita conservadora jamais venceu eleições locais.
O Rayo nasceu dessa mesma identidade. Diferentemente de gigantes espanhóis que construíram fama através de títulos, o clube ganhou notoriedade muito mais pela relação visceral com sua comunidade. Em Vallecas, o Rayo não pertence apenas aos dirigentes ou jogadores. Pertence ao bairro.
Os Bukaneros, principal grupo ultra do clube, sintetizam essa cultura. Fundados em 1992, assumem abertamente posicionamento antifascista e transformaram o estádio em uma extensão das ruas de Vallecas.
O próprio nome do grupo deriva de uma tradição local: os moradores de Vallecas reivindicam simbolicamente um “porto” imaginário, mesmo estando a mais de 300 quilômetros do mar. A referência nasceu de uma tradicional batalha naval com jatos d’água, realizada anualmente no bairro desde 1981, sempre no dia 14 de julho.
Essa identidade popular ajuda a explicar o tamanho do conflito com Raúl Martín Presa, presidente e proprietário majoritário do clube desde 2011.
O presidente que virou inimigo público
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Quando comprou o Rayo Vallecano, Presa se apresentou como salvador de um clube afundado em dívidas. A relação com os torcedores, porém, deteriorou rapidamente.
A desconfiança se transformou em ruptura ideológica em 2015, quando o presidente tentou transformar o Rayo em uma “marca global”. O investimento no Rayo OKC, uma franquia na extinta liga norte-americana NASL, foi visto em Vallecas não como expansão, mas como traição. Para uma torcida que orgulha-se de suas raízes locais e operárias, a tentativa de “exportar” a identidade do bairro para Oklahoma foi o primeiro grande golpe na relação.
A partir dali, o ambiente virou guerra permanente.
Os conflitos se acumularam nos anos seguintes: aumento no preço dos ingressos, repressão aos Bukaneros, proibição de bandeiras e materiais das organizadas, além de sucessivas acusações de abandono estrutural do estádio e do centro de treinamento.
A tensão ganhou dimensão nacional em 2017, durante o caso Roman Zozulya. Contratado pelo clube, o atacante ucraniano foi rejeitado pelos ultras após denúncias de ligação com grupos neonazistas ligados ao conflito no Donbass. A pressão foi tão intensa que o jogador deixou Vallecas sem sequer estrear.
Presa ficou ao lado do atleta e entrou novamente em rota de colisão com os torcedores. Para muitos rayistas, aquele episódio consolidou a percepção de que a diretoria havia rompido definitivamente com os valores históricos do clube.
Estádio do Rayo virou símbolo da crise
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A situação institucional alcançou novo nível de desgaste na atual temporada. O gramado do Estádio de Vallecas chegou a ser considerado impraticável, obrigando o Rayo a mandar partidas em Leganés. Jogadores criticaram publicamente as condições das instalações, enquanto torcedores passaram a denunciar abandono completo da estrutura do clube.
A possibilidade de mudança definitiva de estádio aprofundou ainda mais o conflito.
Presa defende deixar Vallecas para ampliar receitas e modernizar o clube. A torcida trata o tema como linha vermelha. Para os rayistas, abandonar o bairro significaria destruir a essência popular construída ao longo de décadas.
Os protestos passaram a dominar praticamente todos os jogos em casa. Em uma das manifestações mais marcantes da temporada, milhares de cartazes com a inscrição “SOS” tomaram as arquibancadas durante partida contra o Athletic Bilbao, denunciando o que os torcedores classificam como destruição gradual do clube.
Nem mesmo a histórica campanha europeia amenizou o clima. Para a semifinal da Conference League, diante do Strasbourg, torcedores enfrentaram filas quilométricas porque o Rayo segue sendo o único clube de LaLiga sem venda online de ingressos. Quando os preços finalmente foram divulgados, nova revolta: bilhetes considerados abusivos para padrões do bairro operário.
Ainda assim, a torcida permaneceu ao lado do time. Inclusive, o aspecto mais chamativo dessa história seja justamente a união entre elenco e arquibancada. Em meio à crise, jogadores passaram a compartilhar publicamente das mesmas reclamações dos torcedores: estrutura precária, instabilidade interna e sensação constante de abandono.
O Rayo virou uma espécie de resistência coletiva.
Há mais de dez anos, o mesmo cântico ecoa em Vallecas contra o presidente: “Presa, vete ya” (“Presa, vá embora”). Ele permanece. Mas o clube também. E agora viverá o maior jogo de sua história.