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Moyes confirma a sua volta por cima: do Manchester United ao ostracismo e, agora, ao título da Conference League

A carreira do escocês degringolou desde a decepção em Old Trafford, quando foi escolhido para suceder Alex Ferguson, mas faz três anos que conduz um dos melhores trabalhos da Inglaterra

David Moyes disse que o que ele faz é vencer quando retornou ao West Ham em dezembro de 2019. Fazia referencia ao seu currículo na Premier League, com atenção especial à década que passou à frente do Everton, com resultados muito acima dos seus recursos, e de fato, com 255 vitórias, ele é superado apenas pelas lendas Arsène Wenger e Alex Ferguson na história da liga inglesa moderna. A declaração ainda gerou um pouco de estranhamento (e gozação) porque, apesar de estar na estrada há muito tempo, ele nunca havia conquistado um título importante e a sua carreira havia saído dos trilhos após ser escolhido para suceder Ferguson no Manchester United. Com a conquista da Conference League pelos Hammers nesta quarta-feira, essas duas situações parecem estar mais bem resolvidas.

Os últimos dez anos de Moyes não chegam a ser uma emocionante história de superação, mas são uma volta por cima. Ele subiu alto demais, rápido demais, e a queda foi tão acentuada quanto a ascensão. Se não levou o Everton a brigar por títulos como nos anos oitenta, entre 2002 e 2013, Moyes conduziu um período de extrema estabilidade no Goodison Park (o que, com os olhos de hoje, tem que ser ainda mais valorizado), com direito a uma classificação à Champions League e uma final de Copa da Inglaterra.

Ferguson viu um pouco de si no compatriota e lhe entregou as chaves de Old Trafford. A decisão parece muito mais absurda hoje do que era no momento. Mesmo o Manchester United parecia menos uma multinacional do que agora na era dos Superclubes e não havia tanta necessidade de ter uma estrela no banco de reservas. Moyes era bem cotado, focava em trabalho duro e desenvolvimento de jogadores. Guardadas as devidas proporções, havia instaurado uma cultura no Everton, como Ferguson fez no United, ajudando-o a crescer quase sem um orçamento de transferências. Mas os Red Devils não precisavam de outro construtor. Precisavam de alguém que usasse a plataforma de Ferguson para conquistar o máximo de títulos possível.

Era a grande chance da carreira de Moyes, o bilhete dourado para o grupo seleto de técnicos que treinam os maiores clubes da Inglaterra. No fim, foi mesmo o perfil errado e a aventura não durou uma temporada. Ele pareceu ter ficado um pouco zonzo depois de uma desilusão tão grande. Tomou a incomum decisão para técnicos britânicos de sair da ilha e passou um ano na Real Sociedad, sem sucesso. De volta à Premier League, foi rebaixado pelo Sunderland. Ali, estava no ponto mais baixo da sua trajetória e, cruelmente, virou motivo de piada.

Assumiu o West Ham pela primeira vez em novembro de 2017 e conseguiu evitar o rebaixamento, sem mostrar tanta coisa assim. Quando a campanha acabou, os Hammers preferiram um nome mais forte e trouxeram Manuel Pellegrini, que estava na China após ser campeão pelo Manchester City. Tanto o trabalho de Moyes não havia sido impressionante, que ele passou dois anos desempregado até ser trazido de volta pelos londrinos.

Não foi exatamente uma admissão de erro, mais uma história se repetindo como farsa. A missão era a mesma: evitar a queda. Ele conseguiu e, desta vez, ficou. As perspectivas não eram boas. Os reforços haviam sido discretos – embora certeiros: Tomas Soucek, Vladimir Coufal e Saïd Benrahma vieram naquele mercado – e o clima no clube havia ficado ruim com a venda do jovem talento Grady Diangana para o West Brom. Estava entre os cotados para mais uma briga contra a segunda divisão, mas a realidade foi diferente: sexto colocado. E depois, sétimo.

O West Ham está naquele patamar da Premier League em que tem dinheiro para fazer altos investimentos, em comparação com o resto do mundo, o que o permite almejar competições europeias com frequência e sonhar com Champions League. Moyes conseguiu entregar a primeira parte, duas vezes seguidas entre os melhores do resto. Desde os últimos três anos, ele faz um dos melhores trabalhos da Inglaterra, com um time competitivo, bem treinado, coeso e com talento, que também chegou à semifinal da última Liga Europa.

Mas sabe como são as coisas. A atual temporada não foi boa na Premier League, embora o risco de rebaixamento tenha sido mais teórico. O West Ham ganhou apenas duas das últimas sete rodadas e ainda ficou a seis pontos da zona da degola. As vitórias, porém, foram raras, e não deu para desenvolver o que havia sido construído na liga inglesa. Começou o burburinho de demissão. Por outro lado, o clube emplacou outra grande campanha europeia e conquistou seu primeiro título continental desde 1964/65. Isso não é pouca coisa, e esse sucesso tem que ser creditado à base construída por Moyes – mesmo que os londrinos tenham de longe o maior faturamento da Conference League.

O título confirma a volta por cima de Moyes. Uma recuperação longa e pouco linear que, curiosamente, o levou ao lugar onde estava antes chegar ao Manchester United. Ele, pelo menos ainda, não é um técnico em que você apostaria para quebrar a hierarquia da Premier League, disputar a Champions League ou brigar pelo título. Talvez nunca retorne ao circuito dos grandes clubes. Mas conseguiu reconstruir a imagem de um profissional competente que havia sido praticamente dizimada. E, finalmente, venceu.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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