Champions League

Zebraça na Champions: Ilhas Faroe conquistou sua maior vitória no torneio

O KÍ anotou 3 a 0 sobre o Ferencváros em Budapeste e garantiu uma história imensa neste princípio da Champions

A Champions League mal abriu sua nova temporada e já contou com uma das maiores zebras de sua história recente nas fases classificatórias. O KÍ, de Ilhas Faroe, eliminou o Ferencváros na primeira fase qualificatória do torneio. O que seria um façanha enorme pela disparidade entre os clubes em si, considerando a tradição da potência húngara, ainda ofereceu requintes de crueldade. O KÍ havia segurado o empate por 0 a 0 em casa e anotou implacáveis 3 a 0 em Budapeste. Os torcedores alviverdes estavam catatônicos diante dos três gols anotados logo no primeiro tempo. É a maior vitória da história de um time faroense na Champions.

Os clubes das Ilhas Faroe nunca disputaram a fase de grupos das competições europeias. Antes do feito do KÍ nesta quarta-feira, apenas outras cinco vezes o representante faroense passou da primeira fase preliminar na Champions. Entretanto, o comum era a vitória acontecer contra adversários de ligas irrisórias. O pioneiro foi o B36, contra o Birkirkara, de Malta, em 2006/07. O EB Streymur tirou o Lusitanos, de Andorra, em 2013/14. O HB conseguiu despachar o Lincoln Red Imps, de Gibraltar, em 2014/15. Depois seria a vez do Víkingur superar o Trepça, de Kosovo, em 2017/18. Já o KÍ tinha feito história recentemente, com uma classificação sobre o Slovan Bratislava, em 2020/21. Entretanto, o resultado veio por W.O. dos eslovacos após um surto de covid no elenco.

Ferencváros 0 x 3 Kİ
Ferencváros fez vexame jogando diante de sua torcida (Divulgação/Ferencváros)

Além disso, KÍ havia registrado outras campanhas de relevo nas competições secundárias da Uefa nos anos recentes. Em 2020/21, o clube chegou a enfiar 6 a 1 no Dinamo Tbilisi e ficou a uma vitória da fase de grupos da Liga Europa, quando sucumbiu para o Dundalk, da Irlanda. Já na temporada passada, a equipe deu trabalho ao Bodo/Glimt nas preliminares da Champions, com o triunfo por 3 a 1 na ida revertido pelos 3 a 0 dos noruegueses na volta, e chegou à terceira etapa classificatória da Conference. O resultado contra o Ferencváros é uma surpresa, mas com antecedentes.

Como foi a partida histórica do KÍ

O Ferencváros é um clube com enorme investimento na Hungria, inclusive estatal. O partido Fidesz, do autoritário presidente Victor Orbán, tem vários representantes na diretoria dos alviverdes. Tanto o presidente Gábor Kubatov, à frente do clube desde 2011, quanto o vice Máté Kocsis são parlamentares pelo Fidesz. Em 2014, o clube teve apoio do poder público no financiamento de um moderno estádio e alavancou suas receitas, que permitiram a contratação de reforços estrangeiros. O poderio se alimenta também com as boas campanhas nos torneios continentais, com três aparições na fase de grupos da Liga Europa e uma na Champions durante as últimas quatro temporadas. Além disso, as Águias as atuais são pentacampeãs nacionais.

O empate por 0 a 0 na partida de ida contra o KÍ, nas Ilhas Faroe, soava como um ótimo resultado para os nanicos. Porém, era natural esperar por uma goleada do Ferencváros na volta em Budapeste. Os alviverdes entraram em campo com vários jogadores tarimbados inclusive no futebol de seleções – como o goleiro Dénes Dibusz, o lateral Endre Botka, o zagueiro Samy Mmaee e o ponta Adama Malouda Traoré. Apesar disso, os faroenses conseguiram seu milagre com um elenco bem mais modesto, embora recheado de jogadores da seleção local.

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O primeiro gol saiu aos oito minutos, num pênalti convertido por Árni Frederiksberg. O próprio Árni Frederiksberg ampliou aos 32, num chute mascado que sobrou na pequena área. Já a pá de cal veio nos acréscimos do primeiro tempo, aos 46. Frederiksberg deu a assistência para Luc Kassi anotar o seu. Durante o segundo tempo, o Ferencváros pressionou e teve 76% de posse de bola, com 15 finalizações. Parou na defesa liderada pelo goleiro Jonatan Johansson, dono de uma baita história. O arqueiro chegou a se aposentar do futebol em 2022 e e estava jogando como zagueiro no futebol amador da Noruega, até ser contratado emergencialmente pelo KÍ no último mês de junho por causa das lesões na posição. Virou herói de Champions.

O impacto no Ferencváros foi imediato. O clube demitiu o técnico Stanislav Cherchesov, famoso por liderar a Rússia até as quartas de final da Copa do Mundo de 2018. O veterano estava à frente dos alviverdes desde dezembro de 2021 e havia conquistado as duas últimas edições do Campeonato Húngaro. Enquanto isso, o KÍ fica mais próximo de realizar outras façanhas. O duelo da segunda fase da Champions soa até mais acessível, contra o Häcken, campeão sueco. Além disso, vale lembrar que o bom desempenho na Rota dos Campeões oferece um caminho mais curto para a fase de grupos da Conference League, mesmo em caso de eliminação.

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Um pouco da história do KÍ

Fundado em 1904, o KÍ é um dos clubes mais importantes de Ilhas Faroe. Os alviazuis conquistaram a primeira edição do Campeonato Faroense e somam 20 títulos no torneio. É o segundo maior campeão nacional, com quatro taças a menos que o HB. Além disso, a agremiação também possui seis troféus na copa nacional. O KÍ fica sediado em Klaksvík, segunda cidade mais populosa das Ilhas Faroe, mas ainda assim com apenas 5 mil habitantes.

Nas competições continentais, o KÍ fez sua estreia nas preliminares da Champions League 1992/93. Desde então, o time soma 14 participações nos torneios da Uefa. Os alviazuis disputaram 40 partidas internacionais, com 11 vitórias e 21 derrotas. Chegaram a derrotar times como o Maccabi Haifa (Recopa 1995/96), Dinamo Tbilisi (Liga Europa 2020/21) e Bodo/Glimt (Champions 2022/23). Entretanto, nada se compara às dimensões do milagre ocorrido em Budapeste.

Quem mais avançou na primeira fase da Champions

O resultado do KÍ foi mesmo a maior surpresa da primeira fase qualificatória da Champions League. Outro time nórdico que superou as expectativas é o Breidablik. Os islandeses vieram da etapa preliminar e conseguiram despachar dessa vez o Shamrock Rovers. Depois da vitória por 1 a 0 na Irlanda, também ganharam por 2 a 1 em Kópavogur. Quem também merece elogios, apesar da eliminação, é o Ballkani. O campeão kosovar venceu o Ludogorets por 2 a 0 em Pristina, mas sucumbiu com os 4 a 0 dos búlgaros em Razgrad. Já o Sheriff Tiraspol tinha o duelo mais difícil, contra o Farul Constanta, campeão romeno. Os moldavos perderam a ida por 1 a 0, mas se classificaram com os 3 a 0 na Transnístria, construído na prorrogação.

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Outros favoritos dessa fase inicial, como o Häcken (Suécia), o Olimpija Ljubljana (Eslovênia), o Qarabag (Azerbaijão), o Raków Czestochowa (Polônia), o Slovan Bratislava (Eslováquia) e o Maccabi Haifa (Israel) seguem em frente. Vale lembrar que os times eliminados nesta etapa da Champions ainda serão repescados às preliminares da Conference League.

Os duelos da segunda fase preliminar da Champions

  • Zalgiris Vilnius (LIT) x Galatasaray (TUR)
  • Ludogorets (BUL) x Olimpija Ljubljana (ESL)
  • Raków Czestochowa (POL) x Qarabag (AZE)
  • KÍ Klaksvík (FAR) x Häcken (SUE)
  • HJK Helsinque (FIN) x Molde (NOR)
  • Breidablik (ISL) x Copenhagen (DIN)
  • Sheriff Tiraspol (MOL) x Maccabi Haifa (ISR)
  • Aris Limassol (CHP) x Bate Borisov (BEL)
  • Zrinjski Mostar (BOS) x Slovan Bratislava (ESQ)
  • Dinamo Zagreb (CRO) x Astana (CAZ)
  • Dnipro-1 (UCR) x Panathinaikos (GRE)
  • Servette (SUI) x Genk (BEL)
Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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