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Real Madrid x City terá um duelo de centroavantes de estilos (e em momentos) diferentes

Haaland é letal na frente do gol e ainda está aprendendo a ser efetivo longe dele - como Benzema sempre foi

Real Madrid e Manchester City se reencontram na semifinal um ano depois do confronto épico da edição passada. E muita coisa está em jogo. Salvar uma temporada que nunca engrenou em La Liga aos merengues, a chance do primeiro título aos ingleses. E muita coisa está igual também porque os dois times são praticamente os mesmos. Com uma exceção notável. Agora, o City conta com Erling Haaland, um dos melhores centroavantes do mundo que fará um duelo apetitoso com Karim Benzema, atual detentor da Bola de Ouro. Mas são jogadores que interpretam a posição de maneiras diferentes e que também estão em momentos distintos de suas carreiras.

A de Benzema está chegando ao fim. Não quero aposentar ninguém, mas ele tem 35 anos e um histórico de lesões. É incerto quanto tempo ainda se manterá em alto nível. Seria excepcional se chegasse aos 40 nessa forma, e mesmo esse cenário otimista nos dá apenas mais cinco temporadas para desfrutar de um craque que passou muito tempo escondido pela sombra de uma estrela maior. E se isso fez com que demorasse para ganhar reconhecimento, também lhe ajudou a se tornar um jogador completo.

Benzema chegou ao Real Madrid em 2009 e passou por três fases: revezou com Gonzalo Higuaín, foi escudeiro de Cristiano Ronaldo e depois se tornou o dono do time – e um dos melhores jogadores do mundo. Durante esse segundo período, desenvolveu o seu jogo longe da área, abrindo espaço e criando para um dos melhores finalizadores da história. Não deixou de fazer gols, mas muitos de seus momentos de maior destaque, como aquela jogadaça contra o Atlético de Madrid na semifinal europeia de 2016/17, foram na preparação.

Era um período em que Benzema estava contestado. Não que nunca tenha merecido críticas, mas às vezes era difícil notar a sua importância para o time enquanto Cristiano Ronaldo batia recordes. Durante a sequência de quatro títulos em cinco anos, com Ancelotti e Zinedine Zidane, Benzema não teve números tão especiais. Chegou a 28 gols em todas as competições em um deles e também teve temporadas com menos de 20 – e até uma com apenas 12. Chegou a ser cogitado tirá-lo do time, por outro centroavante ou antecipando a transferência de Ronaldo da ponta para o meio.

Benzema acabou jogando quase sempre que estava disponível e, se não anotou números fantásticos, teve a sua importância como coadjuvante e, no último título com Zidane, marcou duas vezes na semifinal contra o Bayern de Munique e outra na decisão diante do Liverpool. Aquele jogo em Kiev foi o fim de um ciclo no Santiago Bernabéu, com a primeira saída do técnico francês e a transferência de Ronaldo. Abriu-se um vácuo na liderança técnica do Real Madrid, e Benzema aproveitou-o de uma maneira até surpreendente.

Mesmo aos seus maiores fãs era difícil prever o que ele se tornaria. Benzema colocou o time nas costas em momentos difíceis. Garantiu um título de La Liga, no retorno de Zidane, ainda em um período de transição. A sua excelência permitiu que garotos como Vinícius Júnior e Rodrygo pudessem se desenvolver com mais tranquilidade. Quando eles estavam mais prontos, Benzema foi decisivo como poucos na história de um mata-mata de Champions League rumo à 14ª conquista e, merecidamente, foi eleito o melhor jogador do mundo pela revista France Football.

A diferença, após a saída de Ronaldo, é que ele ganhou liberdade para juntar o melhor dos dois mundos: um finalizador letal, mais eficiente e frequente do que antes, mas ainda um garçom de primeira linha. É comum ver Benzema com a bola dominada nos dois bicos da grande área ou perto do semi-círculo, trabalhando a jogada, esperando a hora de dar o passe. Essa outra vertente de seu jogo causou mais impacto em La Liga. Nas quatro temporadas anteriores, além de passar de 20 gols, seguiu sempre próximo de 10 assistências (6, 8, 9 e 12). O pacote completo elevou-o de patamar na história do futebol quando, de fato, encerrar a carreira.

A comparação é interessante porque Haaland ainda está começando. Tem tempo para aprimorar o seu jogo. Se provavelmente nunca será um centroavante que sai da área e constrói para os outros tão bem quanto Benzema, quão melhor conseguir desenvolver essa característica, mais letal será. A sua contratação pelo Manchester City sempre pareceu o casamento perfeito: um dos mais precisos finalizadores no time que melhor cria chances de gol do mundo. A única questão era como seria integrado ao jogo coletivo de Pep Guardiola, famoso por usar centroavantes que precisam fazer mais do que apenas jogar a bola para dentro das redes.

Como Harry Kane, por exemplo. Tanto na seleção inglesa quanto no Tottenham, Kane adora assumir as funções de camisa 10 durante períodos da partida. Ele foi a primeira escolha para substituir Sergio Agüero, mas os Spurs fizeram jogo duro. Em vez de buscar um plano B, o City encarou a temporada passada frequentemente abrindo mão de um centroavante. Ainda tinha Gabriel Jesus, que há tempos exercia funções mais táticas e, na maioria dos jogos, a posição era ocupada por um meia-atacante, como Bernardo Silva, Phil Foden ou Kevin de Bruyne.

A contratação de Haaland mudou tudo, mas também gerou um dilema. Parte da excelência do City na criação das jogadas estava na superioridade numérica do excesso de meias. O que aconteceria quando um deles desse espaço para um centroavante que gosta mais de transição, sempre no limite do impedimento, e fica mais fixo dentro da área? Houve momentos na primeira metade da temporada em que Haaland e o resto do time pareciam entidades separadas. Todo mundo parecia estar lutando contra a memória muscular: quando a bola era recuperada, Haaland buscava a transição, em vez de se aproximar dos meias, e esses ficavam em dúvida entre lançar no espaço para ele ou fazer o que sempre fizeram e trocar passes até todo mundo estar posicionado.

Não por acaso, foram os meses de maior instabilidade do Manchester City. O que era normal: Haaland é um jogador jovem que estava se adaptando a um novo país, uma nova liga e a um novo estilo de jogo. Também não foi por acaso que, à medida em que ele passou a ser mais integrado, tocando mais na bola, ajudando na construção, o City disparou. Tem oito assistências por todas as competições, já sua melhor marca desde que chegou ao Dortmund. Ainda não é que nem antes, talvez nunca seja, e não precisa ser. A capacidade de finalização do norueguês é tão excepcional que compensa o que o time pode perder em criação. Durante todo esse processo, é importante lembrar, Haaland marcou gols suficientes para quebrar o recorde de maior artilheiro de uma única edição da era moderna do Campeonato Inglês.

Guardiola introduziu um centroavante para enfrentar o Real Madrid na última temporada. Mas Jesus não tem as mesmas características do que Haaland e, sinceramente, nem é tão bom. Não dá para dizer que deu errado porque o confronto foi decidido no detalhe, em uma reviravolta que seria única se não tivesse acontecido outras vezes naquela campanha dos merengues. Em um confronto de mata-mata, Haaland também aporta uma saída se mais nada estiver dando certo. Um centroavante que ganha pelo alto, briga com os zagueiros e, se precisar, tenta abrir os espaços na força. Talvez esse tenha sido o principal fator para sua contratação e o resto a gente vê depois. Porque pode ser a diferença para o City superar essa barreira, chegar mais uma vez à final e talvez finalmente ser campeão.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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