Champions League

Paredes e Gueye pouco aparecerão nos melhores momentos, mas foram vitais à classificação do PSG

Ainda que o ataque tenha produzido muitas chances, os dois volantes foram mais importantes para proteger a defesa desfalcada e garantir a passagem

A classificação do Paris Saint-Germain nas quartas de final da Champions League, mesmo com derrota, será lembrada pelo “quase”. As oportunidades mais claras foram dos parisienses, mas a bola não entrou – seja pelo capricho em bater na trave ou por mais uma atuação gigantesca de Manuel Neuer. Neymar ganhou o prêmio de melhor em campo, numa noite até mais completa que na ida, mais participativo e constante. Kylian Mbappé também jogou muito ao arrebentar a marcação na base da velocidade e ser generoso ao entregar os melhores lances ao camisa 10. Ángel Di María completou a inspiração dos tenores, ao facilitar a ligação e ser excelente para escapar da marcação. Porém, a diferença para a classificação do PSG, pensando friamente, veio por sua dupla de volantes. Idrissa Gana Gueye e Leandro Paredes, em especial, pesaram bastante ao resultado.

O Paris Saint-Germain teve dificuldades na partida de ida em Munique. O Bayern teve um volume de jogo absurdo e criou um caminhão de oportunidades. Parou em Keylor Navas. Porém, é preciso ponderar como a cabeça de área dos parisienses estava sobrecarregada. Gueye tentava se desdobrar em seu papel e foi ótimo na noite, mas tinha que se transformar no exército de um homem só depois que Marquinhos se lesionou. Com o recuo de Danilo Pereira para a zaga, Ander Herrera não oferecia a mesma segurança e o senegalês, mesmo trabalhando muito, não conteve totalmente os bávaros. Fazia falta Paredes.

Suspenso anteriormente, Leandro Paredes voltou ao PSG nesta terça-feira. E o argentino é um dos jogadores mais importantes do elenco não por seu renome, mas pelo equilíbrio que confere ao time. É um marcador firme, mas também um jogador muito inteligente taticamente e que sabe sair jogando com a bola. Num elenco limitado, e ainda mais sem Marco Verratti em sua melhor forma física, o volante se torna imprescindível. Seu retorno deve ser bastante comemorado pela influência que teve na classificação.

Afinal, o PSG se via ainda mais vulnerável na defesa. Marquinhos não se recuperou a tempo, com Presnel Kimpembe formando a dupla de zaga ao lado de Danilo Pereira. Já os laterais não inspiravam grande confiança. Alessandro Florenzi voltava de lesão e ficou só no banco. Mauricio Pochettino preferiu não arriscar com o lento Thilo Kehrer na direita. Já na esquerda, Juan Bernat mal jogou na temporada ao romper os ligamentos e Layvin Kurzawa também estava no departamento médico. Abdou Diallo ficou por ali para fechar a marcação, enquanto Colin Dagba tentava correr atrás dos oponentes do outro lado.

O jogo do Bayern até funcionou pelas pontas. Kingsley Coman foi um pesadelo para Dagba na esquerda, enquanto Sané participou muito do jogo pela direita, sobretudo depois que Diallo se contundiu e deu lugar ao mediano Mitchell Baker. A defesa do PSG, ainda assim, conseguiu conter os espaços na faixa central. Navas não precisou fazer tantas defesas difíceis quanto na ida e as finalizações quase sempre acabavam travadas, ou ao menos com o espaço reduzido. A dupla de zaga teve seu papel, mas os volantes também jogaram bem demais para limpar os trilhos.

As infiltrações de Thomas Müller pouco funcionaram. Mesmo Joshua Kimmich não teve muito espaço para armar a equipe e descolar seus lançamentos. Nesse ponto, o combate no meio-campo foi decisivo para o PSG controlar o Bayern e manter o placar magro. Paredes e Gana Gueye realizaram um trabalho excelente neste papel, preenchendo a intermediária e evitando que os bávaros gerassem um volume tão grande quanto na ida. Que os alemães tenham feito uma apresentação abaixo, os parisienses também dificultaram com seus volantes.

Paredes foi um dos melhores em campo pelo conjunto da obra. O argentino foi onipresente na cabeça de área, mesmo quando o PSG precisou recuar e se proteger. Também ajudava o time com uma saída de bola limpa, escapando da incômoda pressão exercida pelos bávaros na recuperação. Mas foi mesmo no combate que o camisa 8 se sobressaiu. Das 12 divididas que teve pelo chão, ganhou nove. Também foram dois desarmes e duas interceptações. Mais impressionante, não cometeu nenhuma falta. Enquanto isso, o Bayern precisava parar seus lançamentos nos contragolpes e cometeu seis faltas no meio-campista – apenas uma a menos que em Neymar. É um termômetro.

Gana Gueye, por sua vez, é um operário dentro do PSG. O clube o contratou depois de ótimos momentos no Everton, onde tinha papel de destaque. Na capital francesa, o volante acaba mais cobrado. Não vai ser brilhante sempre, mas é um jogador de muito vigor e presença para auxiliar a equipe com o trabalho duro. Foi assim que se saiu bem em Munique, mesmo sem ganhar os holofotes, e repetiu a importante participação no Parc des Princes. O senegalês foi muito bem na marcação, a ponto de somar seis desarmes ao longo do jogo. Era mais um se desdobrar atrás, mesmo sem ser tão técnico com a bola. Foi um pilar na classificação.

O Paris Saint-Germain ainda tem muitos problemas que se repetem em relação à temporada passada. É uma equipe desbalanceada, que com frequência depende das individualidades. A imposição contra o Bayern, afinal, dependeu dos craques do time tão afiados entre si. Mas há outros bons jogadores em setores-chave e que fazem um trabalho maior que a badalação que recebem. É o caso de Paredes e Gueye. As chances do PSG na Champions passam, obrigatoriamente, por um meio-campo funcional. E num jogo em que os desfalques se mostravam tão sensíveis na defesa, os parisienses estiveram menos expostos do que se imaginava. Méritos dos volantes, que mal aparecem nos melhores momentos, mas preponderaram para que a diferença mínima permitisse a classificação.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo