Champions League

Mesmo derrotado, o PSG se mostrou superior e selou a classificação desenhada na ida contra o Bayern

Os parisienses criaram bem mais chances e pararam três vezes na trave, mas se garantiram graças ao gol fora

Um ano depois, o Paris Saint-Germain experimentou sua revanche contra o Bayern de Munique. Os franceses superaram o amargor da final passada, eliminaram os atuais campeões e seguem em frente às semifinais da Champions League. Se a ida na Allianz Arena contou com uma partidaça sob a neve, com a vitória parisiense por 3 a 2, desta vez os níveis de tensão foram maiores no Parc des Princes. O PSG foi claramente superior, mas encontrou dificuldades para converter as muitas chances e acertou a trave por três vezes, além de parar em Neuer. Por outro lado, o Bayern esteve abaixo do primeiro encontro, sem o mesmo volume e até mais vulnerável na defesa. Como nem sempre o futebol corresponde à lógica, o time de Hansi Flick venceu por 1 a 0 e ficou a um gol da reviravolta. Mas a classificação da equipe de Mauricio Pochettino, pelos 180 minutos, é mais condizente à qualidade apresentada e assim acontece graças aos gols fora. Pela terceira vez em sua história, o PSG é semifinalista da Champions.

O Paris Saint-Germain contava com o retorno de Leandro Paredes ao meio-campo, após cumprir suspensão, mas também precisava lidar com a ausência de Marquinhos, lesionado na ida. Danilo Pereira formava a dupla de zaga ao lado de Presnel Kimpembe. Apesar de ser dúvida, Keylor Navas aparecia no gol. Já na frente, Mauricio Pochettino repetia o quarteto com Ángel Di María, Neymar, Julian Draxler e Kylian Mbappé. Já o Bayern não conseguiu recuperar Robert Lewandowski ou Serge Gnabry a tempo, além de perder Leon Goretzka e Niklas Süle em relação à ida. O miolo de zaga tinha Jérôme Boateng e Lucas Hernández, com Alphonso Davies na lateral esquerda. David Alaba acompanhava Joshua Kimmich como volante. Mais à frente, uma trinca de meias com Leroy Sané, Thomas Müller e Kingsley Coman dando apoio a Eric Maxim Choupo-Moting.

O jogo em Paris começou com um ritmo mais lento do que se viu em Munique. O PSG se mostrava mais cauteloso, até pela vantagem construída. Os parisienses rodavam a bola quando tomavam a posse e se defendiam recuados, para não conceder muitos espaços ao Bayern. Apesar da iniciativa dos alemães, os franceses deram os primeiros sustos e logo se mostraram mais agressivos. Aos três minutos, Mbappé arrancou pela direita e bateu cruzado diante de Manuel Neuer, mandando para fora. Cinco minutos depois, seria a vez do atacante infernizar a marcação pela esquerda. Neymar pegou a sobra após o erro da zaga na hora de afastar e, de frente para o gol, acabou abafado por Neuer na hora exata.

Por mais que o Bayern mantivesse a posse de bola, tinha dificuldades na criação. Os bávaros rondavam a área do PSG, mas não conseguiam conectar os passes. A primeira finalização perigosa só veio aos 25 minutos, numa reposição que Boateng antecipou no meio. Choupo-Moting deu uma linda deixada e Sané bateu ao lado da trave, de fora da área. Logo depois, em mais uma recuperação no campo de ataque, Kimmich arriscou de longe e tirou tinta da trave. E a resposta do PSG seria imediata, num contra-ataque com Mbappé. O atacante arrancou e, mesmo marcado por dois, rolou para Neymar. O camisa 10 estava livre na área, mas Neuer fechou o ângulo muito bem e desviou para escanteio. A partir de então, o duelo se incendiaria.

O Bayern funcionava melhor quando pressionava alto e roubava a bola no campo ofensivo. Porém, desta maneira, o time de Hansi Flick também se expunha demais aos contragolpes velozes de Mbappé. O camisa 7 poderia ter incomodado outra vez aos 30, num lance em que partia sozinho ao campo de ataque, mas a arbitragem assinalou um impedimento errado que paralisou a jogada. A defesa bávara parecia vulnerável e Neuer faria a terceira defesa contra Neymar aos 34. O brasileiro pedalou e chutou rente à trave, mas o goleiro salvou no canto, em tiro que ainda pegou na trave.

Neymar, aliás, ficou a um triz do gol. O camisa 10 fez um ótimo primeiro tempo, ainda melhor do que em Munique. Desta vez, era mais definidor que armador. E quase assinou uma pintura aos 37. Na sobra de uma cobrança de falta no bico da grande área, limpou a marcação com categoria e chutou colocado. Caprichosamente a bola bateu na trave. E o poste negou o tento a Neymar outra vez aos 38. O lance surgiu em mais um ataque rapidíssimo puxado por Mbappé. O camisa 7 de novo foi generoso ao passar a bola para o lado, com Neymar saindo de frente com Neuer. Até conseguiu tirar do goleiro, mas carimbou o pé da trave. Então, um minuto depois, a máxima do “quem não faz, toma” se cumpriu no Parc des Princes.

O gol veio aos 40, num lance no qual a defesa do PSG não estava bem encaixada. O Bayern insistia quase sempre pela esquerda, com Coman encarando o inseguro Colin Dagba. O cruzamento do ponta chegou a Müller, que ajeitou e Alaba chutou de primeira. Navas espalmou, a bola subiu e Choupo-Moting ganhou pelo alto para definir de cabeça já na pequena área. A Lei do Ex se repetia. Os parisienses até retrucaram num tiro perigoso de Mbappé, em lance anulado por impedimento. Ainda assim, os bávaros pareciam se reerguer e deram outro susto logo depois. Alaba chutou de fora da área, em ótima defesa de Navas. Antes do intervalo, Sané ainda teve a chance de partir em velocidade, mas estava pressionado e não deu tanto trabalho a Navas ao finalizar.

Os times voltaram ao segundo tempo sem alterações, e o Bayern se manteve mais aceso. Logo aos dois minutos, Alaba se apresentou de novo à frente e chutou para fora. O PSG quase respondeu num lance parecido com o do primeiro jogo, em que um lançamento pegou a defesa desprotegida enquanto saía da área após um escanteio. Desta vez, Neymar recebeu e chutou por cima. Mas o ritmo da etapa complementar acabava mais ditado pelos bávaros, que empurravam os franceses para trás e tentavam abafar a saída de bola. Quando não dava, o jeito era chegar mais firme nas divididas.

Mesmo com a tentativa do Bayern em se colocar no campo de ataque, o mínimo espaço era suficiente para o PSG gerar sufoco. Outro lance claríssimo aconteceu aos sete, quando Mbappé inverteu e Di María recebeu no lado direito da área. O argentino escapou da marcação e, no instante em que Neuer saía em seus pés, rolou para o meio da área. Neymar ficou a centímetros de completar de carrinho. Depois disso, o ritmo do jogo voltaria a cair um pouco, mas com a bola nos pés dos alemães.

O PSG realizou sua primeira mudança aos 14, quando Abdou Diallo se machucou e deu lugar a Mitchel Bakker na lateral esquerda. Pouco depois, o Bayern conseguiu chegar de novo em belo passe de Sané, mas Navas saiu bem para bloquear o caminho de Thomas Müller e ainda ganhar tiro de meta. O PSG se fechava atrás e era inteligente na recuperação, especialmente por seus três craques. Di María, Neymar e Mbappé sempre iam muito bem para aliviar a pressão na marcação e gastar o tempo, mesmo sem criar oportunidades tão constantemente quanto no primeiro tempo. Enquanto isso, o Bayern não produzia tanto para forçar os erros dos adversários, faltando apresentar um ponto de desequilíbrio, como haviam três do outro lado.

Com muitos desfalques, o Bayern tinha poucas alternativas para mudar o jogo no banco. Uma das raras era Jamal Musiala, que veio no lugar do apagado Alphonso Davies, com Alaba deslocado à lateral esquerda. A resposta de Pochettino foi quase que imediata com Moise Kean, um atacante de mais velocidade na vaga de Draxler. A troca pareceu fazer efeito e o PSG voltou a realizar seus contragolpes. O próprio Kean finalizou mal em uma das chances, antes que Mbappé balançasse as redes aos 33, mas fosse flagrado num impedimento mínimo.

Restava ao Bayern tentar algo diferente. A equipe se mostrava sem ideias, sentido os desfalques importantes da noite. Sané chegou a criar um bom lance pela esquerda, mas seu tiro cruzado não acertou o alvo. Sem ter nada a perder, o time de Hansi Flick precisava abafar. E o treinador acabaria improvisando Javi Martínez como centroavante, aos 40, no lugar de Choupo-Moting. Os cruzamentos começaram a se repetir, com a defesa francesa se desdobrando para bloquear os chutes. E ainda que os espaços sobrassem aos contra-ataques, Neuer evitaria o empate com um carrinho salvador fora da área aos 44, quando Neymar aparecia sozinho. Pouco depois, Lucas Hernández também fez um desarme vital diante do brasileiro. Ao Bayern, ficou faltando um pé para se esticar e acertar o chute salvador. O último suspiro veio com Sané, mas Navas se antecipou e agarrou o cruzamento. Apesar dos riscos e da derrota, os parisienses mereceram a classificação.

O Bayern de Munique se despede da Champions com uma atuação abaixo de seu nível. Ainda que a vitória tenha vindo e que tenha faltado um gol, não foi uma apresentação tão boa dos bávaros. Não se viu o volume de jogo de ida e o segundo tento, se viesse, seria mais por um lance isolado do que por uma pressão crescente. Até pela maneira como o time se defendeu, o resultado foi lucro, com uma pitada de sorte e ótimas defesas de Neuer. Enquanto isso, do meio para frente, Sané foi um dos poucos que tentou algo diferente, com o escape de Coman também do outro lado. Ainda mais que em Munique, as ausências de Lewa, Gnabry e agora de Goretzka pesaram demais.

O Paris Saint-Germain também conseguiu superar seus próprios problemas. Apesar dos inúmeros desfalques, a defesa evitou um sufoco maior, sem que Navas precisasse se destacar tanto. E a classificação cai na conta dos três principais nomes ofensivos. Di María fez uma partidaça na ligação. Neymar e Mbappé de novo se entenderam muito bem, agora invertendo os papéis de garçom e definidor. Se o gol não saiu, não foi exatamente por falta de capricho ou porque os astros desapareceram. No futebol, detalhes acontecem. E, pelo contrário, a maneira como os atacantes parisienses criaram preocupações também baqueou o Bayern e fez os alemães não se sentirem tão confortáveis, sendo importante ao desenho do jogo desta quarta. Superado o fantasma da final de 2020, os franceses parecem mais prontos rumo à semifinal.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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