Inter nasceu do Milan e os dois clubes passaram a compartilhar oposições, rivalidade e similaridades
Fundado em 1899, o Milan se dividiu em 1907 por contrariedade a uma regra de permitir contratação de estrangeiros. Nascia a Inter, “irmãos do mundo”, eternamente ligados pela rivalidade
A cidade de Milão é a segunda maior vencedora de títulos da Champions League. Só Madri tem mais títulos que a cidade italiana. Com uma diferença fundamental: em Madri, todos os 14 títulos conquistados são de um clube só, o Real Madrid. Em Milão, os 10 títulos se dividem em dois clubes: sete são do Milan, o clube mais velho, e três são da Inter, que nasceu nove anos depois justamente de uma divergência no primeiro.
A cidade de Milão, em italiano, se fala Milano. O clube, porém, se chama Milan, como a cidade é chamada em inglês. Não é por acaso. O seu fundador era um inglês, Hebert Kilpin, em dezembro de 1899. “Seremos um time de demônios. Nossas cores serão vermelhas como fogo e pretas como o medo que iremos invocar em nossos adversários”, disse Herbert Kilpin na fundação do Milan, que na fundação era Milan Cricket and Football Club.
Durante o regime fascista de Benito Mussolini, porém, o nome do clube mudou para Milano, antes de retomar o Associazione Calcio Milan, ou AC Milan, como muita gente se acostumou a ver inclusive nos videogames, uma das formas que milhões de pessoas tiveram contato com o clube. Aconteceria o mesmo com a rival, Inter, que teve que mudar de nome para Società Sportiva Ambrosiana durante os anos de regime fascista, antes de retomar o seu nome original.
Depois de conquistar os títulos italianos em 1901, 1906 e 1907, houve uma séria divisão dentro do Milan. O Milan tinha resistência em aceitar estrangeiros no time – curiosamente, mesmo tendo sido fundado por um estrangeiro. Os insatisfeitos com a restrição de estrangeiros no Milan se reuniram em um café na Piazza del Duomo, onde fica a Catedral de Milão e a estátua de Madonnina – você já sacou de onde vem o nome “Derby della Madonnina”, não é?
Esse grupo de divergentes fundou, no dia 9 de março de 1908, o Football Club Internazionale Milano, nascido, portanto, de uma divergência no então Milan Cricket and Football Club, que se tornaria AC Milan. A premissa era que os jogadores estrangeiros não seria apenas adicionais, eles seriam fundamentais. Tanto que o seu primeiro capitão foi um jogador suíço, Hernst Manktl. “Esta noite maravilhosa nos presenteia com as cores do nosso brasão: preto e azul sobre o fundo dourado de estrelas. Nos chamaremos Internazionale, porque somos irmãos do mundo”, disse Giorgio Muggiani, fundador e primeiro presidente da Inter.
Apesar de nascerem da diferença, os clubes também vivem semelhanças. Os dois emblemas tiveram dinastias em suas histórias. O Milan foi o primeiro clube italiano a conquistar o título da então Copa Europeia, atual Champions League. Foi em 1962/63, quando o Milan derrotou o então poderoso Benfica, de Eusebio. O capitão do time era Cesare Maldini, um nome notável e histórico na história do clube e do futebol italiano – e que se tornaria técnico do próprio Milan depois.

Seu filho, Paolo Maldini, se tornaria também uma figura lendária nas fileiras rossoneri, com cinco títulos da Champions League – superado apenas por Paco Gento, jogador daquele mágico Real Madrid que conquistou tanto nos anos 1950 e 1960 e que levou seis títulos em sua carreira como jogador. Paolo Maldini é hoje diretor esportivo do Milan, em um processo de reconstrução que alcançou seu ápice na temporada passada, 2021/22, com o título da Serie A. Curiosamente, um ano depois da Inter conseguir o mesmo título, em 2020/21.
A rivalidade sempre impulsionou os clubes, historicamente. Depois de ver o Milan conquistar a Europa, em 1963, a Inter foi o segundo clube italiano a conquistar esse título, em 1963/64. O presidente do clube naquela época? Angelo Moratti, que tinha assumido o clube em 1955 e ficou até 1968 – deixando o clube com dois títulos europeus, já que conquistaria em 1964/65.
O filho de Angelo, Massimo Moratti, se tornou presidente da Inter em 1995 e tinha o mesmo desejo do pai: colocar a Inter no topo da Europa. O método foi muito diferente do Milan de Silvio Berlusconi, que teve paciência e método. Moratti usou o modo gastão: despejou milhões para contratar grandes jogadores em busca da glória. Ronaldo foi contratado pela Inter de Moratti em 1997 por um valor recorde na época, um ano depois do Barcelona quebrar o recorde de transferências para tirá-lo do PSV. Até vieram títulos, como a Copa da Uefa com Ronaldo Fenômeno como destaque no Parque dos Príncipes, em 1998, mas faltava o scudetto e, especialmente, a glória na Europa.
O título, porém, só veio muitos anos depois. Depois do Calciopoli, a Inter dominaria o futebol italiano a partir de 2007 e, na temporada 2009/10, com José Mourinho como técnico, conquistou o que até hoje ninguém conseguiu repetir na Itália: a Tríplice Coroa. A Inter de Mourinho, Wesley Sneijer, Samuel Eto’o e Diego Milito conquistou Copa da Itália, Serie A e Champions League. Moratti realizava o seu sonho, de conquistar a Europa tal qual o seu pai fez como presidente.

Os dois clubes ainda compartilham algo fundamental: o estádio. Fundado como Stadio Comunale di San Siro, em 1926, era a casa exclusivamente do Milan até 1935. A partir dali, o estádio passou a ser da prefeitura e tanto Inter quanto Milan passaram a mandar seus jogos por lá. Após a morte de Giuseppe Meazza, em 1979, o nome do estádio foi oficialmente mudado para Giuseppe Meazza, em homenagem ao atacante.
As fortes ligações do jogador com a Inter, onde foi ídolo, ainda que tenha jogado também no Milan no fim da carreira, fez com que inicialmente os torcedores da Inter chamassem o estádio de Meazza. Não durou muito. O estádio sempre foi conhecido como San Siro e é assim referenciado pelos dois clubes e as duas torcidas, muito embora tenha se criado a lenda que os clubes tratam o estádio com dois nomes.
Em 2016, direto da Itália, mostramos que isso de chamar de Giuseppe Meazza quando joga a Inter e San Siro quando joga o Milan não passava de lenda. Os dois clubes se referem a San Siro, inclusive a Inter em suas comunicações sociais. Giuseppe Meazza está para San Siro como Mário Filho está para o Maracanã: é o nome oficial, mas não é o nome popular para torcida alguma. Sempre é Maracanã no Rio, como sempre é San Siro em Milão.
Dominância italiana na semi de 2003

Em 2003, as semifinais da Champions League tinham três times italianos. De um lado, Milan e Inter se enfrentavam em busca de uma vaga na final. Do outro lado, a Juventus enfrentava o Real Madrid. Era um momento que o futebol italiano era uma potência muito maior do que é atualmente. Vinte anos depois, em 2023, Milan e Inter voltam a se encontrar em uma semifinal de Champions League, mas desta vez em uma situação diferente.
Os italianos raramente têm chegado a esta fase e se vê uma dominância do futebol inglês que só encontra similaridade ao que era o próprio futebol italiano no final dos anos 1980 e nos anos 1990. O último clube italiano a conquistar o título foi a Inter, na temporada 2009/10. Depois disso, a Juventus chegou duas vezes à final, em 2014/15, derrotada pelo Barcelona, e em 2016/17, derrotada pelo Real Madrid.
O Milan ainda é o segundo maior ganhador da Champions League, com sete títulos, sendo o último deles em 2006/07. Só o Real Madrid, com seus 14 títulos, tem mais taças da Champions que os rossoneri. Tanto Milan quanto Inter passaram anos de inferno, longe da Champions, e retornam a esta fase pela primeira vez desde que foram campeões. Um cenário muito diferente de 20 anos antes.
Jogar na Itália em 2003 ainda significa um prestígio imenso e era uma das maiores ligas do mundo. Talvez ainda a maior, embora já se visse mudanças em relação à dominância na Serie A, com a Espanha aumentando a sua força, a Alemanha sendo muito atrativa e a Inglaterra começando a ganhar tração com a sua Premier League.
“Aqueles derbies dominaram o mês anterior de trabalho. Aqueles foram os piores dias da minha longa vida no futebol. Eu já tinha 37 anos, era experiente e não tive que lidar com ansiedade por desempenho. Mas foi impossível não pensar constantemente sobre esses jogos”, afirmou Alessandro Costacurta, então defensor do Milan.
A tensão daqueles duelos foi imensa. O primeiro jogo acabou em 0 a 0. Na volta, 1 a 1. Depois de Andriy Shevchenko abrir o placar, Obafemi Martins empatou, na reta final do jogo. Nos minutos finais, Mohammed Kallon saiu na cara do goleiro Christian Abbiati, que substituía, Dida, que estava machucado. Kallon finalizou, mas Abbiati conseguiu defender com os pés.
“Aquela defesa de Kallon irá permanecer a mais importante que eu fiz em um derby na minha carreira toda”, afirmou Abbiati. “Se há um jogo que eu gostaria de jogar de novo, é aquele derby de 2003”, afirmou Kallon, já depois de se aposentar do futebol.
Um dos meio-campistas do Milan na época era Clarence Seedorf, que atuou tanto por Inter quanto por Milan. Ele é o único a ter sido campeão da Champions League por três clubes diferentes ao longo da carreira: Ajax, Real Madrid e Milan.
“Havia grande tensão 20 anos atrás. Foram dois empates. No jogo de volta, eu fiz a assistência para o gol de Sheva”, lembra Seedorf. “Agora Milan e Inter merecem ter chegado a esta fase novamente. Eu espero dois derbies empolgantes, mal posso esperar. A Itália irá ter novamente um time na final da Champions League”.
Daquela vez, o duelo foi decidido pelo gol fora. Dá para dizer que o resultado desta vez será diferente, já que não há mais a regra do gol fora de casa. Quem levar a vaga será por ter mais pontos, mais saldo de gols ou nos pênaltis.
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Em 2005, o “Derby da Vergonha”

Dois anos depois do encontro nas semifinais da Champions League, Milan e Inter, duas potências na época, voltaram a se enfrentar. Desta vez, pelas quartas de final da competição. Alguns dos protagonistas eram os mesmos de anos anteriores.
O Milan tinha uma diferença: Kaká, que se tornaria uma lenda. Curiosamente, Hernán Crespo, que dois anos antes defendia a Inter, estava no Milan. Outros protagonistas dos dois lados seguiam os mesmos: Dida, Alessandro Nesta, Paolo Maldini, Gennaro Gattuso, Andrea Pirlo, Clarence Seedorf e, claro, Andriy Shevchenko, algoz da Inter.
A Inter tinha Dejan Stankovic e Sinisa Mihajlovic, dois sérvios que marcaram sua história no clube. Ainda tinha outras bandeiras do clube, como Javier Zanetti, hoje vice-presidente do clube, Francesco Toldo, além de Ivan Córdoba e Estebán Cambiasso. Outros nomes famosos estavam em campo, como Juan Sebastián Verón, que não foi um grande sucesso, Obafemi Martins e Julio Cruz. Ainda tinha Adriano, vestindo a camisa 10. O brasileiro, porém, ficou fora do jogo de ida. Estaria como titular na volta.
Desta vez, não houve empates. No jogo de ida, com mando do Milan, os rossoneri venceram por 2 a 0, gols de Jaap Stam e Andriy Shevchenko. Uma grande vantagem para o jogo de volta. O jogo de volta teve um golaço de Shevchenko, ainda no primeiro tempo, o que tornou a missão da Inter quase impossível, ainda mais porque havia o gol fora de casa. Seria preciso quatro gols para manter o time vivo no torneio.
As coisas começaram a esquentar aos 25 minutos, quando Esteban Cambiasso marca de cabeça após cobrança de escanteio. O gol foi anulado por falta e Cambiasso recebeu cartão amarelo pela reclamação. Isso despertou a ira da torcida da Inter, que estava atrás do gol. Começaram a atirar diversos objetos em campo, na direção do goleiro Dida, do Milan. Vieram sinalizadores, que não só acertaram o brasileiro, como queimaram suas costas. O jogo foi interrompido.
Os sinalizadores criaram uma grande fumaça em San Siro. O árbitro Markus Merk, da Alemanha, suspendeu o jogo. Foi quando surgiu uma cena que se eternizou. Marco Materazzi e Rui Costa observaram a fumaça, juntos. Na foto mais famosa desse momento, Materazzi está apoiado em Rui Costa. O jogo até seria retomado, mas a fumaça não tinha se dissipado, não havia mais condições de jogo e Markus Merk acabou o jogo. A Uefa puniu a Inter com a derrota por 3 a 0 no jogo e uma multa. O que saiu barato, aliás, porque havia o temor que o clube fosse suspenso da Champions League.

Milan e Inter nunca mais se encontraram na Champions League, até esta temporada de 2022/23. Se o momento do futebol italiano é bem diferente, o derby della Madonninna, desta vez, simboliza uma recuperação do futebol italiano, de certa forma, com representantes na semifinal da Liga Europa e da Conference League também. Teremos um italiano na final e, por mais que nenhum dos dois seja favorito seja quem for o adversário do outro lado, é um marco importante.
O jogo de ida do clássico entre Milan e Inter será nesta quarta-feira, dia 10 de maio, às 16h (horário de Brasília), e será transmitido pelo canal fechado TNT e pelo serviço de streaming HBO Max. Você pode conferir mais jogos na Programação de TV.



